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Poucos registros, muita história: futebol feminino terá dérbi após 20 anos

Renata Mendonça

04/02/2020 04h00

Foto: Arquivo Pessoal

É muito fácil resgatar a história do dérbi no futebol paulista – entre os homens. O clássico mais tradicional da capital entre Corinthians e Palmeiras surgiu ainda em 1917 e basta dar um "google" para mergulhar nas inúmeras estatísticas de uma das rivalidades mais antigas de São Paulo. Tem registros do número de jogos, do número de vitórias, empates e derrotas, do número de gols. Quem é o artilheiro, quem é o goleiro mais vazado, quem é o técnico mais vitorioso.

Mas às vésperas do primeiro dérbi da história do Campeonato Brasileiro de futebol feminino (o jogo entre Palmeiras e Corinthians acontece neste domingo, às 14h, em Vinhedo, com transmissão da Band), nós fomos atrás de informações do histórico desse confronto entre as mulheres. E não podemos dizer que ficamos surpresas ao descobrir que os registros sobre os dérbis femininos ao longo da história praticamente inexistem.

Na CBF, oficialmente não há qualquer confirmação oficial de que tenha havido o confronto entre Palmeiras e Corinthians em algum torneio nacional antes desse, que está marcado para o fim de semana pela série A1 do Brasileiro. O diretor de competições do futebol feminino da entidade, Romeu Castro, é quem mais detém informações sobre a história da modalidade (em acervo pessoal, e não da confederação) e também não tem registro de nenhuma partida entre as duas equipes pela Taça Brasil (competição que valia anteriormente como o título nacional da modalidade e que foi realizada de 1983 a 2007) ou pela Copa do Brasil.

No Campeonato Brasileiro nos moldes que conhecemos – organizado desde 2013 com um calendário mais regular -, nunca houve esse confronto. Até porque, o Palmeiras só voltou a investir no futebol feminino no ano passado para cumprir a regra da CBF e Conmebol. O Corinthians retornou os investimentos na modalidade em 2016, numa parceria com o Audax inicialmente, e depois assumindo a gestão da equipe em 2018.

Foto: Arquivo Pessoal

Só que esse foi um confronto "comum" em campeonatos estaduais no final da década de 1990. Naquela época, os quatro grandes de São Paulo passaram a manter equipes de futebol feminino – num momento em que o narrador Luciano do Valle impulsionou as transmissões da modalidade na Rede Bandeirantes  – e fomos atrás dos registros desses jogos para estabelecer, assim, um histórico do dérbi entre as mulheres.

Mesmo com jogos televisionados e que traziam bons públicos para os estádios – os clássicos sempre tiveram bom apelo para as torcidas -, ainda foi difícil encontrar informações e detalhes daquelas partidas. Mas a Federação Paulista de Futebol (FPF) começou um resgate desse histórico nos últimos anos e nos passou a lista de dérbis que aconteceram no Campeonato Paulista feminino:

Os primeiros dérbis datam de 1997, ano áureo para o futebol feminino, quando houve o investimento de uma patrocinadora para a realização dos campeonatos. O último aconteceu em 2001, há praticamente 20 anos. Dos seis confrontos entre os dois times registrados na FPF, só um deles terminou com vitória do Palmeiras – mas foi justamente na semifinal que eliminou o Corinthians e que encaminharia o título para o time alviverde. De resto, hegemonia absolutamente corintiana com direito a uma goleada por 12 a 1.

1997
Primeira fase
13/04/1997 Corinthians 1×0 Palmeiras
01/06/1997 Palmeiras 1×4 Corinthians

1998
Primeira fase
26/04/1998 Palmeiras 2×4 Corinthians – Palestra Itália
17/05/1998 Corinthians 12×1 Palmeiras – Fazendinha

2001
Primeira fase
14/10/2001 Palmeiras 1×2 Corinthians – Ícaro de Castro Melo

Semifinal
09/12/2001 Corinthians 1×4 Palmeiras – Ícaro de Castro Melo

Memórias

Se não há registros oficiais detalhados nem na CBF, nem na Federação, nem nos clubes, nem na imprensa, a principal fonte de informações para contar essa história ainda é quem a protagonizou. As jogadoras da época ainda lembram desses momentos tão marcantes para o futebol feminino, quando os clássicos mexiam com as torcidas e levavam a rivalidade para o estádio.

"Eu lembro que a torcida gritava pra mim: 'El El El, Tafarel é da Fiel", contou às dibradoras a ex-meio-campista Marcia Tafarel, jogadora da seleção brasileira que vestiu as camisas de Corinthians, Palmeiras e São Paulo. No time alvinegro, virou nome certo da torcida por um motivo "simples" que sempre vai fazer um jogador ser lembrado na arquibancada: ela adorava fazer gol em clássico.

"Eu gostava desses jogos. E sempre fui bem em clássico, tinha sorte que sempre fazia um gol. É claro que, pra torcida, esse gol vale muito mais. Naquela época, tinha times de faculdades disputando os campeonatos, e a gente sempre goleava quando jogava contra eles. Mas valia muito mais fazer um gol num clássico do que cinco nessas goleadas por 10 a 0", disse.

Foto: Arquivo Pessoal

E teve um gol em específico de Tafarel que ficou marcado na história do dérbi – tanto pra ela, quando para a goleira adversária, Maravilha. Arqueira da seleção brasileira, ela defendeu o Palmeiras em 1997 (na época, havia uma divisão das jogadoras da seleção entre os times do campeonato) e teria sido o nome daquele primeiro dérbi de que se tem registro no Campeonato Paulista. Não fosse pelo petardo que Tafarel soltou na cobrança de falta.

"Eu quase peguei, lembro que a bola tocou na minha mão. Naquele jogo eu saí sem condições de falar. Eu precisava de açúcar, saí pedindo um chocolate, porque eu tinha me desgastado tanto naquele jogo. A gente fez um aquecimento forte antes. E depois foi um jogo que o Corinthians predominou. Esses jogos que fiz no Palmeiras foram muito importantes pra mim, porque eu era muito exigida, e isso me fez evoluir bastante", contou Maravilha.

Não foram poucas as bolas salvadas pela goleira quando a artilheira da seleção, Roseli, saía cara a cara com o gol. Habilidosa que só, a atacante que vestia a camisa do Corinthians na época era o terror de qualquer goleira. Naquele dia, Maravilha a venceu. Só não conseguiu evitar o gol belíssimo de Tafarel que garantiu a vitória corintiana.

Goleira Maravilha jogou pela seleção brasileira, fechou o gol no Palmeiras, depois passou um campeonato todo sem tomar gols pelo São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal)

A volta da rivalidade

As duas lembram que, nesses clássicos da época, a torcida comparecia e a pressão aumentava. Se bem que, naqueles tempos, o futebol feminino era ainda mais instável e as atletas viviam sob constante ameaça de que os times poderiam acabar a qualquer momento. Obviamente, isso aumentava nas vésperas dos clássicos.

"Muitas vezes a gente ouviu: se vocês não ganharem esse jogo, vai acabar o futebol feminino. Vivia sob ameaça, sempre com muita pressão, ainda mais em clássico. Hoje é diferente. O grande mérito da obrigatoriedade é que agora é permanente. Não vai mais regredir. A gente tem confiança que as equipes grandes pelo menos vão ter que continuar. Isso vai ampliar o leque de oportunidade pras meninas jogarem", disse Maravilha.

A goleira atuou também pelos três principais times da capital em um intervalo de menos de dois anos. Isso acontecia na época porque os contratos eram feitos por campeonato. E os campeonatos duravam dois ou três meses. Então, para dar continuidade à temporada, elas tinham que mudar de clube.

"Eu tinha feito uma experiência no Corinthians, joguei 15 dias lá, não me acertei e fui para o Palmeiras. Aí depois fui para o São Paulo na outra metade do ano e, quando jogamos contra o Corinthians, a torcida gritava que eu era corintiana", contou Maravilha aos risos.

Em duas décadas de carreira atuando pelos principais clubes do Brasil e pela seleção brasileira, ela teve apenas um ano e meio de registro em carteira. Essa é outra realidade que começou a mudar – na série A1, serão 10 times assinando a carteira das jogadoras em 2020.

Foto: Arquivo Pessoal

"A gente só tinha acordo verbal na época. Não tinha nada em papel assinado. Tinha uma insegurança grande do lado profissional da atleta. Caso de lesão era complicado, sempre você tinha um medo do que poderia acontecer. A única vez que eu tive carteira assinada foi no São Paulo de 1998 e 1999. Minha vida inteira eu joguei futebol, mas só tive um ano de carteira assinada."

Com grandes expectativas sobre um Brasileiro que terá 8 times de camisa entre os 16 que disputarão o título da primeira divisão, as duas têm esperanças de que agora os clássicos terão vida longa – e muito mais registros do que tinham antigamente.

"Eu acho que conforme a estrutura vai melhorando, a organização vai melhorando também, a gente vai ver mais e mais clássicos (no futebol feminino). A torcida precisa disso, o futebol precisa disso. Não é só dar a camisa, é a estruturação que precisa acontecer. Mas ter esses times na competição é muito importante pra desenvolver o futebol feminino", afirmou Tafarel.

Palmeiras e Corinthians entrarão em campo domingo na primeira rodada do Brasileiro com um único ponto negativo: a torcida única. O desafio do time alviverde será quebrar uma sequência de 45 jogos de invencibilidade das rivais corintianas.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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