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Após 86 anos, Campeonato Chileno teve mulher na arbitragem pela 1ª vez

Dibradoras

29/01/2020 13h48

Cindy foi a primeira mulher a fazer parte da arbitragem de um jogo da primeira divisão chilena no futebol masculino (Foto: Reprodução)

*Por Anita Efraim, de Santiago (Chile)

No último domingo, 26, uma mulher fez história no futebol chileno: Cindy Nahuelcoy. Jogadora? Não. Ela foi a primeira mulher a integrar o quarteto de arbitragem de um jogo da primeira divisão chilena.

Cindy, 31 anos, foi auxiliar do jogo entre Unión Española e Desportes Iquique, que acabou 3×2 para o Unión Española. Foi a primeira vez em 86 anos (desde que o torneio foi criado, em 1933), que uma partida da elite do Campeonato Chileno masculino teve uma mulher no quadro de arbitragem.

Formada em Pedagogia em Educação Física, ela também a primeira mulher a participar da arbitragem na segunda divisão local. Sua história teve grande repercussão na mídia local.

A auxiliar começou sua carreira em ligas amadoras há 11 anos. Ela jogava futebol por recreação – era zagueira – e, durante a faculdade, passou a apitar jogos amadores. Ela estudou no INAF (Instituto Nacional de Futebol do Chile) e a partir daí deu início à sua carreira oficialmente na arbitragem.

Como profissional, seu primeiro trabalho foi no futebol feminino e, em 2013, chegou a FIFA. Só em 2017 ela teve oportunidade de começar a apitar futebol masculino.

O pai esteve no estádio para a estreia de Cindy e afirmou que sonha que sonha em ver a filha apitando jogos da Copa Libertadores masculina. Em entrevista ao site Emol, Cindy garante que o mais difícil foi superar o estigma de ser mulher. No entanto, hoje em dia a comissão de árbitros dá mais espaço para elas.

A estreia de Cindy na primeira divisão chilena foi marcada por um certo constrangimento por parte dos jogadores. Muitos não sabiam exatamente como cumprimentar a auxiliar no momento protocolar. Alguns preferiram o aperto de mão, outros preferiram o beijo na bochecha. E houve ainda os confusos, que ficaram no meio do caminho, sem saber exatamente como lidar com uma mulher em campo.

"A recepção foi super positiva, tanto das comissões técnicas, quanto dos jogadores. Mas no estádio te criticam por ser bandeirinha e te criticam por ser mulher. Sempre há aqueles gritos machistas de 'vai lavar louça', coisas comuns de se ouvir no campo, mas que não deveriam existir", disse a bandeirinha em entrevista ao jornal El Mercurio de Valparaíso. 

Além de Cindy, há Loreto Toloza, única mulher entre os 38 encarregados pelo VAR. As duas são as primeiras mulheres a integrar o corpo de arbitragem da primeira divisão.

Loreto foi a primeira chilena a participar da arbitragem de um mundial feminino. Na Copa do Mundo de 2015, no Canadá, ela foi auxiliar. Na França, ela voltou a ser relacionada. Além de Loreto, Leslie Vásquez também trabalhou como auxiliar no mundial do ano passado.

Em 2019, houve ainda uma chilena como árbitra principal na Copa do Mundo feminina: María Carvajal. No Chile, ela apita jogos do campeonato feminino e, no masculino, das categorias de base e da terceira divisão nacional. Mesmo tendo capacidade de ser árbitra de um mundial, em seu país, ela não apita nem mesmo a segunda divisão dos homens.

Cheguei ao Chile faz duas semanas e, mesmo antes de me mudar, muitas pessoas já tinham me alertado para os atrasos do país em relação a luta por direitos das mulheres. Faz alguns anos que acompanho futebol feminino e a presença das mulheres no esporte e, assim que vi a notícia sobre Cindy, fiquei bastante surpresa.

Isso porque, no Brasil, a realidade é diferente. A primeira árbitra de futebol profissional reconhecida pela FIFA foi Léa Campos, brasileira. Em 1971, quando a presença de mulheres era proibida no futebol, ela apitou uma partida entre Itália e Uruguai, no México. Lea teve de deixar a profissão depois de um acidente.

Em 2003, Silvia Regina apitou Guarani e São Paulo. Foi a primeira mulher a arbitrar na Série A no Brasileirão masculino. No ano passado, Edina Alves apitou CSA e Goiás também pela primeira divisão e, na primeira rodada do Paulistão deste ano, foi a árbitra de São Paulo a Água Santa.

Isso sem falar das auxiliares que já participaram de quartetos de arbitragem, como Renata Ruel, Nadine Bastos, Neusa Back e outras. Já no Chile, nunca houve uma árbitra na primeira divisão masculina.

Estarei em Santiago pelo menos pelos próximos dois anos. Como uma apaixonada por futebol, vou tentar entender melhor como funciona o feminino por aqui. A cidade é a sede da próxima Libertadores Feminina e estarei no Dibradoras para trazer informações sobre a modalidade.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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