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Por que o Atlético-MG teve jogadoras como gandulas em jogo do masculino

Renata Mendonça

27/01/2020 15h37

Foto: Henrique André

O Atlético-MG goleou o Tupynambás neste domingo por 5 a 0 na segunda rodada do Campeonato Mineiro no Independência, mas houve um acontecimento fora dos gramados que chamou a atenção de alguns torcedores. Seis atletas do time feminino estavam na beira do campo atuando como gandulas da partida.

Um post do jornalista Henrique André do Jornal Hoje Em Dia repercutiu bastante nas redes sociais com a foto das jogadoras preparadas para atuarem repondo as bolas do jogo do time masculino. Alguns questionaram se o Atlético-MG faria o mesmo se fosse o contrário – colocando jogadores do time principal para serem gandulas em partidas da equipe feminina – e outros disseram que era um absurdo um clube colocar suas atletas para fazerem isso.

A reportagem entrou em contato com a diretora do futebol feminino do Galo, Nina Abreu, para esclarecer o que aconteceu. Segundo ela, o convite foi feito às jogadoras pela diretoria do Atlético-MG, que costuma fazer o mesmo com a equipe sub-20 masculina.

"O convite partiu da diretoria do clube e partiu da demanda. O Atlético gosta dos atletas da base como gandulas. Entendendo que estamos entregando toda a estrutura do sub-2o para as meninas, estamos entregando também as oportunidades de dinheiro justo e honesto para as meninas", afirmou a dirigente.

"É claro que se elas tivessem um salário ideal no Brasil, elas não precisariam desse plus. Mas essa não é a realidade delas. Convidamos seis atletas, porque o sub-20 ainda não tinha voltado. E daqui pra frente o clube quer dividir isso, sendo sempre três atletas do feminino e três do sub-20".

As jogadoras que atuaram como gandula ganharam R$90 pelo trabalho. A remuneração é feita por jogo e a ideia é seguir com a iniciativa de revezar as atletas do feminino também na função ao longo do ano – caso elas estejam de acordo com isso e, claro, desde que não atrapalhe o calendário de jogos delas. Nina contou que houve uma reunião com as jogadoras nesta manhã para falar sobre isso.

"O vice-presidente do clube esteve com as jogadoras de base e do profissional. Aliás, seria ótimo se a gente conseguisse levar as jogadoras da base também, porque a bolsa delas é menor do que a do profissional, mas tem que ser maior de 18 anos. Esse assunto foi abordado após a polêmica causada e nenhuma delas se opôs. A gente deu oportunidade de contestação, mas os depoimentos foram favoráveis", disse Nina.

 

"Aqui todas as atletas do profissional têm carteira assinada. A estrutura que o Atlético está oferecendo pra essas meninas é muito boa, elas moram num hotel 5 estrelas na beira da lagoa da Pampulha. Nesses jogos, elas faturariam 90 reais por partida. E vão continuar indo as que quiserem, claro, desde que não atrapalhe o calendário delas".

Ver jogadoras de futebol atuando como gandulas de um jogo do futebol masculino é bem desanimador. A realidade que o futebol feminino oferece no Brasil tem melhorado bastante, mas ainda permite que situações como essa aconteçam. Para atletas que ganham um ou dois salários mínimos por mês, a oportunidade de conseguir um dinheiro extra em uma atividade relacionada com o futebol é difícil de ser dispensada.

"Não é só pelo dinheiro. Essas meninas curtem muito estar ali. Eu percebi isso na atuação delas ontem. Elas curtem estar ali e, de certa forma, existe um ganho indireto de observação de jogo por um ângulo muito específico. Pra quem joga, acho que é um ângulo de valor, diferenciado", pontuou Nina.

A gente conversou também com algumas das atletas que trabalharam no jogo como gandulas. A opção delas por aceitar o convite veio principalmente pela oportunidade de ganhar um dinheiro extra. "Eu aceitei o convite porque toda renda extra pra mim faz diferença. Mesmo sendo pouco, já ajuda. Então aceitei por isso e iria de novo", nos disse uma delas. "Entendo o questionamento de algumas pessoas, mas a realidade do futebol feminino ainda é essa". No campo, elas também sentiram a experiência de um estádio cheio vibrando pelo Galo e isso também foi algo marcante. "Não tem tanta torcida nos nossos jogos".

Essa matéria não é pra trazer nenhum juízo de valor. Mas para mostrar um pouco a realidade do futebol feminino, que ainda permite que jogadoras profissionais atuem como gandulas de jogos do masculino. De todas as formas, o mercado delas está se aquecendo cada vez mais e em breve essa cena dificilmente precisará se repetir. O mundo que a gente busca é aquele em que as jogadoras terão o mesmo valor que os jogadores – e aí não estamos falando especificamente de ganhos financeiros, mas de valorização profissional mesmo. A função de repor as bolas será dos gandulas – e a de jogar bola (e tão somente isso) será das jogadoras e dos jogadores.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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