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Cristiane: 'Mexe comigo ver que sou ídolo de uma menina. Eu não tive isso'

Renata Mendonça

18/12/2019 04h00

Encontro da jogadora de futebol Cristiane com a fã, Heloiza Aparecida (Foto: Globo / Fábio Rocha)

Uma das maiores artilheiras da história da seleção brasileira feminina, Cristiane já veste a camisa amarela há pelo menos 15 anos, mas talvez nunca tenha tido tanto reconhecimento como teve esse ano. A atacante brilhou na Copa do Mundo da França, foi a maior goleadora do time brasileiro por lá com quatro gols em quatro jogos e, por conta da projeção nacional que o torneio teve neste ano – com transmissão de todos os jogos na Globo e recordes de audiência -, Cris virou referência para muitas meninas que não a conheciam ainda.

Se o futebol feminino nunca esteve sob holofotes por aqui, neste ano, principalmente por causa do Mundial, a modalidade ganhou muitos novos fãs, especialmente entre as meninas que jogam bola e sentiam falta de ter alguma referência no campo. Os meninos sempre sonharam em ser Ronaldo, Ronaldinho, Neymar. As meninas, até ontem, também. Porque faltava a elas conhecer ídolos que fossem mulheres no futebol. Cristiane, por exemplo, não pôde sonhar em ser como Sissi ou Katia Cilene ou Michael Jackson, porque não conhecia a história dessas mulheres. Não sabia nem da existência delas. Hoje, a própria Cristiane virou a referência que ela não teve para outras meninas que buscam se realizar nos gramados.

"É muito doido, porque nós não tivemos referências e hoje é tão bom saber que nós somos exemplos para outras meninas que querem praticar o futebol. Antigamente o preconceito era muito grande. Nós sabemos que hoje ainda existe, mas tem mudado. Mexe comigo pensar que eu sou ídolo de uma menina. Eu não tive isso. Hoje ela vai querer jogar o futebol e tem a mim e outras meninas como referência", afirmou a atacante ao participar do especial de fim de ano da Globo "Sonho de Criança", que reuniu ídolos do esporte com seus fãs.

Foto: Globo / Fábio Rocha

O programa vai ao ar na noite do dia 25 de dezembro e teve as participações de Cristiane, Gabigol, Everton Cebolinha e Daniel Alves (futebol), Daniel Dias (natação), Gabriel Medina (surf) e Rayssa Leal (skate).

Cristiane teve a chance de conhecer Heloiza Aparecida dos Santos Pereira, de 8 anos, que ama futebol, joga bola e sonha um dia ser como a craque da seleção brasileira e vestir a camisa amarela. A garota escreveu uma carta para a artilheira falando de sua admiração opor ela. Cris não escondeu a emoção pelo momento.

"A maior vitória é saber que o trabalho que você fez dentro de um clube, de uma seleção, refletiu fora dali na vida de uma criança. Essa é a maior alegria. É você olhar que os olhos de uma criança estão brilhando por você. É ela te abraçar e chorar e saber que você é importante para ela."

Se para os craques do futebol masculino é rotineiro não conseguir andar em um estádio sem parar para tirar fotos com a torcida, para as jogadoras isso ainda é, de certa forma, uma raridade. Claro que no Pan-Americano e na Olimpíada disputadas no Brasil, elas sentiram o carinho da torcida de perto, mas isso sempre foi algo mais pontual. Neste ano, não. Todo jogo que Cristiane entrou em campo – ou até quando não entrou por conta de lesão – no São Paulo, ela era a atleta mais procurada pela torcida para tirar fotos. E fazia questão de ficar muito tempo depois do apito final em campo para atender a todos os fãs.

Foto: Angélica Souza / Dibradoras

Houve até mesmo esse registro feito pelas dibradoras da craque atendendo torcedores do Corinthians após a final do Paulista na Arena, que representa o tamanho dessa jogadora – a idolatria por ela está muito acima de qualquer clubismo. Ela sente essa responsabilidade, de ser a referência para muitas crianças, e busca honrar isso em todos os dias dentro de campo.

"É um orgulho muito grande e uma responsabilidade também. Não é só uma responsabilidade de campo, de atuar por uma seleção, mas a responsabilidade numa fala, num gesto, em ajudar, em conversar, em orientar, então acho que isso é muito legal. Fico muito feliz de saber que tem essas crianças espalhadas que enxergam em nós esse carinho. É uma idolatria gostosa, carinhosa e respeitosa. Nada mais justo do que contribuir para a criança com aquilo que ela sonha um dia", afirmou.

Um ano tão histórico para o futebol feminino ainda deixa como legado as referências que as meninas nunca tiveram dentro de campo. Hoje, elas podem ver na TV e nos gramados de todo o país as jogadoras que vão inspirá-las a seguir esse caminho. O futebol virou um sonho possível também para elas – graças à luta de Cristiane e de tantas outras que a antecederam.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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