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A 1ª vez das mulheres no Mineirão e as oportunidades que nos negam no campo

Renata Mendonça

11/12/2019 12h46

Foto: Agência i7 / Mineirão

O convite era irrecusável. "Você quer jogar o primeiro dérbi feminino da imprensa da história do Mineirão?". Não é todo dia que se tem a oportunidade de jogar em um campo oficial de Copa do Mundo. Aliás, falando por mim, não é todo dia (e, na verdade, é a primeira vez) que recebo um convite para jogar no campo.

Jogar futebol sempre fez parte da minha rotina de infância. No quintal de casa, meu irmão mais velho me driblava e me ensinava os truques da bola. Na escola, o bimestre do futsal era o mais divertido da Educação Física. Mas tinha um campo na minha escola – sou privilegiada por isso, sei que não é todo mundo que estuda num lugar que tem essa estrutura esportiva -, e eu nunca pisei nele. O campo era exclusivamente para uso dos meninos. No tempo que estudei lá (de 1996 a 2005), as meninas nunca tiveram a chance de jogar nele.

Na vida adulta, segui jogando nas quadras de cimento e de society, e vi nos últimos anos as peladas das mulheres e multiplicarem – se antes era difícil conseguir um grupo delas para jogar junto uma vez no ano, agora faço parte de diversos grupos de mulheres que se reúnem semanalmente para bater uma bolinha.

Aí de repente eu recebo o convite para jogar num estádio histórico onde pisaram alguns dos maiores craques do futebol mundial e assim fazer a minha "estreia" em gramados oficiais. A primeira resposta que me veio à cabeça, obviamente, foi "sim, claro que topo jogar". A segunda foi: "caramba, como é que eu vou aguentar jogar no Mineirão? Eu que nunca joguei num campo oficial em 30 anos de existência vou estrear logo num estádio desse tamanho? Será que vou sobreviver?".

Foto: Agência i7 / Mineirão

Corta para o dia 10 de dezembro de 2019, quando tudo aconteceu. No meu time, das 15 escaladas, duas delas eram craques de bola (jogadoras do Cruzeiro e do Atlético-MG), e entre as outras jornalistas, praticamente todas tinham o mesmo histórico que eu: nunca tinham jogado num campo oficial. A realidade era a mesma entre as adversárias.

E se eu falar que essa é a realidade que a maioria das jogadoras profissionais de futebol passaram até os 15 ou 16 anos de idade, vocês acreditam? Atletas consagradas como Cristiane, Tamires, Formiga, a goleira Bárbara, entre tantas outras da nossa seleção tiveram a primeira oportunidade de jogar no campo somente nessa idade. Não havia clubes de base de futebol feminino e, consequentemente, as poucas oportunidades que elas tinham de jogar eram no futsal. Agora você, homem, que jogou bola a vida inteira, tem a noção de como seria o futebol profissional masculino no Brasil se todos esses jogadores apenas tivessem tido a oportunidade de jogar no campo pela primeira vez aos 15, 16 anos? Vocês têm ideia do tempo perdido para todas essas mulheres?

Porque jogar futsal e jogar futebol de campo são duas coisas completamente distintas. A noção de espaço no gramado é uma das coisas mais importantes para fazer um jogo fluir bem e isso você só começa a entender quando joga no campo. Quanto mais tempo você demora para ter essa experiência, mais tempo você vai demorar para se adaptar a ela. Quando você cresce jogando bola num espaço 105m x 68m, sua transição para o futebol profissional é natural. E essa diferença de oportunidades precisa ser levada em consideração quando você compara futebol masculino com futebol feminino – para além de nível/velocidade de jogo, é preciso comparar oportunidades de jogo.

Eu fiquei pensando sobre tudo isso quando entrei em campo no Mineirão nesta terça-feira. Fiquei pensando em quantas mulheres passaram a vida toda sem ter essa oportunidade. Em quantas meninas ainda sonham com isso. Em quantas jogadoras esperam pelo dia em que terão a oportunidade de jogar num estádio desse tamanho, de Copa do Mundo – as duas que estavam no meu time, Emily, do Galo, e Pires, do Cruzeiro, nunca haviam jogado no Mineirão, por exemplo. Fiquei pensando na diferença que faz ter OPORTUNIDADE nessa vida.

Foto: Agência i7 / Mineirão

Levando em consideração tudo isso, esse jogo já era histórico antes mesmo de começar. A primeira vez que um estádio reuniu jornalistas mulheres para jogar um dérbi de fim de ano só delas – normalmente, o que acontece é de algumas mulheres serem chamadas para o jogo dos homens e ali elas não têm qualquer chance de pegar na bola, porque homem sempre parte do pressuposto de que mulher não sabe jogar. E foi uma experiência indescritível. O momento que as mulheres se sentiram incluídas, se sentiram parte do futebol de verdade. Um momento tão simbólico para um ano tão significativo para o futebol feminino.

Eram as Mônicas contra as Mafaldas. Nós (Mônicas) vencemos o jogo nos pênaltis após um 2 a 2 emocionante no tempo regulamentar – com direito a empate das Mafaldas no último minuto de jogo. Um clássico que teve entrega, que teve golaços e que teve, acima de tudo, muita diversão. Da minha parte, joguei no meio-campo, dei um chute a gol, toquei umas 4 vezes na bola em 10 minutos de jogo (foram 2 tempos de 15 min e a gente se revezou para todo mundo ter a chance de entrar em campo). E nesse pouco tempo, percebi o quanto é diferente o posicionamento e a ocupação de espaço dentro de campo – e o quão importante é a orientação técnica nesse sentido. Ver o jogo de fora e comentá-lo, palpitar no posicionamento dos jogadores e no que eles deveriam fazer mais ou menos é muito mais fácil do que estar em campo e entender o jogo lá de dentro – tomei pra mim essa lição para levá-la em consideração na hora de criticar os jogadores :D.

Um dia tão incrível que terminou com uma certeza: a única coisa que ainda separa o futebol dos homens do futebol das mulheres é OPORTUNIDADE.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras