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Futebol feminino conquista cartolas do masculino: até Andrés mudou de ideia

Renata Mendonça

27/11/2019 05h22

Foto: Divulgação

Atual protagonista absoluto no futebol feminino, o Corinthians hoje é o clube que oferece a melhor estrutura para as mulheres em campo em todo o país. Mas um cenário como esse era impensável há exatos 10 anos, quando o clube tinha no comando o mesmo Andrés Sanchez, que atualmente ocupa a presidência de novo. Foi esse mesmo cartola que encerrou o projeto do futebol feminino em março de 2009 dispensando todas as jogadoras e dizendo a elas com todas as letras que "não gostava de futebol feminino".

"Depois que os campeonatos acabaram, o Andrés falou que teríamos mudanças, que teríamos um orçamento reduzido, mas garantiu que todas as jogadoras seriam mantidas. Mas não foi isso que aconteceu. Ele foi desleal com a gente. O Andrés Sanchez não gosta de futebol feminino. Chegou até a dizer isso em uma reunião", afirmou a jogadora Karina à época.

Andrés nunca teve papas na língua em seus anos de cartola no futebol brasileiro e não se podava de declarações polêmicas. Ele dizia publicamente que não gostava mesmo da modalidade e demorou a dar o braço a torcer. Mas por incrível que pareça, esse momento chegou. Após ver a arena com 30 mil pessoas para torcer pelas mulheres na final que terminou com o Corinthians vencendo o São Paulo por 3 a 0, o presidente se emocionou junto com a equipe campeã.

"A gente tem que agradecer muito à diretoria do Corinthians e ao presidente, sim, o Andrés, que não gostava, e a gente sabe muito bem do que aconteceu anos atrás, e ele não gostava. Hoje, ele fala de boca cheia, com emoção o quanto ele quer ajudar a gente, o quão satisfeito ele está com o que a gente está fazendo. Sem a estrutura que o Corinthians nos fornece, a gente não conseguiria fazer um grande trabalho", disse a zagueira corintiana Erika em entrevista às dibradoras na premiação das melhores jogadoras do Paulista feminino.

Erika cita mudança de pensamento de presidente do Corinthians (Foto: Roberta Nina / Dibradoras)

Não foi simples "convencer" Andrés e outros diretores do Corinthians de que investir no futebol feminino era uma boa ideia. Não à toa, o projeto começou como uma parceria com o Audax em 2015 e só em 2018 virou uma gestão própria do clube alvinegro. Foi preciso muito trabalho principalmente da coordenadora da modalidade, Cris Gambaré, que está no projeto desde o início e aos poucos foi quebrando o preconceito do cartola e mostrando para ele que é possível ter retorno financeiro com a equipe das mulheres.

O investimento do Corinthians atualmente no futebol feminino incluindo todas as categorias (profissional e base) e todos os custos com logística, salários de jogadoras e comissão técnica, é R$3 milhões. Considerando que somente em folha salarial, de acordo com os dados fornecidos pelo clube ao sistema da CBF, o Corinthians gastou R$96 milhões em 2019 com o futebol masculino, o valor investido nas mulheres não representa nem 3% disso.

É claro que o futebol masculino gera mais retorno também, dado que ele é transmitido em TV aberta, tem mais patrocinadores e etc. Ainda assim, o futebol feminino começa a dar mostras do seu potencial. Neste ano, o Corinthians conseguiu alguns patrocinadores apoiando a equipe feminina e já conta com propostas de novos para 2020. O planejamento do clube é que até 2021 a modalidade já traga lucro – ou seja, em três anos de investimento na gestão própria (de 2018 a 2021), o novo negócio começará a dar resultado, de acordo com as projeções.

Cris Gambaré (à direita) é responsável pela coordenação do futebol feminino no Corinthians (Foto: Roberta Nina/ Dibradoras)

Para conseguir isso, no entanto, é de suma importância que o clube e seus principais dirigentes "comprem a ideia" do futebol feminino e não apenas mantenham a modalidade para cumprir a obrigatoriedade exigida por CBF e Conmebol. A mudança de postura de Andrés sem dúvidas ajuda muito a gestão de Cris Gambaré e sua equipe para manter o time feminino no topo.

Outros cartolas

Ainda existe muita resistência por parte dos tradicionais cartolas brasileiros com relação ao futebol feminino. No ano passado, o gerente de futebol do Cruzeiro falou às dibradoras que o clube só investiria na modalidade para "o time masculino poder disputar as competições" e reforçou que o clube não tinha interesse no futebol das mulheres.

"O Cruzeiro hoje está trabalhando o assunto como pré-requisito para o time profissional disputar série A e Libertadores. Não existe um direcionamento, um interesse do clube em fazer futebol feminino. Hoje a postura do clube é de cumprir um pré-requisito para um objetivo final que é o time profissional masculino", afirmou Marcone Barbosa à época. Hoje, porém, há uma interpretação diferente, segundo a coordenadora do futebol feminino por lá, Barbara Fonseca. Ela enxerga que o clube já começa a ver com outros olhos a modalidade – vice-campeão brasileiro na A2, o clube garantiu o acesso à primeira divisão e fará a final do Mineiro no próximo dia 7 de dezembro contra o América.

São Paulo recebeu troféu de vice-campeão paulista em premiação (Foto: Roberta Nina / Dibradoras)

No caso do São Paulo, o clube também começou tímido e não é hoje o que oferece uma das melhores estruturas do Brasil para as mulheres. Mesmo contratando a artilheira da seleção brasileira, Cristiane, o time do Morumbi ofereceu campo de gramado sintético para as jogadoras treinarem e a academia do social. Ainda assim, a camisa 11 revelou ter tido uma conversa com Raí pedindo mudanças para 2020 e disse ter conseguido uma resposta positiva.

(Foto: Renata Damasio/saopaulofc.net)

"Pra esse ano, a gente entende, e o próprio Raí assumiu, que tinham algumas dificuldades. Conversamos muito sobre isso, eu fui muito sincera como eu sempre sou. Falei: olha, Raí, hoje a nossa estrutura está abaixo. Para o ano que vem, se você pretende ser referência, trazer atleta de seleção, então precisa melhorar a estrutura, a gente tem que ter um campo de grama, não dá para ser sintética, precisa de uma academia, não dá pra usar uma academia antiga…ele sabe disso. São coisas que eu procurei trazer para ele porque acho que isso vai ajudá-lo também a melhorar o São Paulo, a equipe feminina, atrair atletas de seleção, porque se não tiver isso, elas não vão vir", reforçou a atacante.

Aos poucos, os cartolas começam a entender que o futebol feminino pode ser um ótimo produto para o clube, e não somente um compromisso para cumprir uma obrigatoriedade.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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