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CBF cria Brasileiro feminino sub-16 , mas clubes têm de 'improvisar' times

Renata Mendonça

13/11/2019 04h00

Brasileiro sub-18 aconteceu pela primeira vez e terminou com o Inter campeão (Foto: CBF)

A CBF finalmente começou a trabalhar na base do futebol feminino em 2019. Usando o dinheiro do "legado da Fifa" – um investimento no futebol feminino que a entidade deixa para países que sediam a Copa do Mundo e que só foi utilizado agora -, a confederação realizou pela primeira vez um Brasileiro sub-18 para as mulheres e, no próximo mês, fará um torneio nacional sub-16.

A competição já havia sido anunciada previamente em uma das coletivas convocatórias da seleção feminina em setembro, quando o coordenador de futebol feminino Marco Aurélio Cunha afirmou que o torneio aconteceria ainda neste ano. Os clubes que seriam convidados a participar, porém, só receberam o ofício no primeiro dia de novembro com um prazo de cinco dias para confirmar ou não a participação.

Foram 12 as agremiações que receberam a proposta sendo os critérios para isso os 8 melhores clubes pela classificação no Brasileiro feminino série A1 em 2019 e quatro deles os semifinalistas do Brasileiro série A2 neste ano. Sendo assim, Ferroviária, Corinthians, Avaí/Kindermann, Flamengo/Marinha, Santos, Internacional, Audax, São José, São Paulo, Cruzeiro, Grêmio e Palmeiras tiveram seus nomes publicados no ofício. O torneio acontecerá de 6 a 16 de dezembro em Minas Gerais. O time alviverde declinou o convite e, no lugar dele, o Vitória (nono colocado na série A1) foi convidado.

É claro que é de extrema importância a realização de cada vez mais torneios de base para movimentar as jogadoras, que ainda têm pouquíssimas competições para disputar nessa idade pela falta de investimento nessas categorias femininas. Mas o aviso "em cima da hora" fez com que alguns clubes precisassem correr atrás de atletas de última hora.

Consultamos a CBF a respeito disso, e o diretor de competições para o futebol feminino, Romeu Castro, afirmou que "o Brasileiro Feminino Sub 16 foi anunciado pelo Presidente Rogério Caboclo como uma nova estratégia para o fomento e desenvolvimento do Futebol Feminino brasileiro, no último mês de setembro. Foram inúmeros os contatos com as principais equipes da modalidade, tratando do calendário, meios de suporte, etc. Os convites foram remetidos em tempo hábil, e com ótima adesão dos clubes.s.  Importante salientar que a competição já faz parte do calendário oficial a CBF, e que as datas para 2020 serão anunciadas brevemente. Também não chegou ao nosso conhecimento qualquer descontentamento dos clubes em relação a data de oficialização dos convites."

Nem todas as equipes acima citadas mantêm equipes femininas de base – ainda mais na categoria sub-16. Todos eles disputaram o Brasileiro sub-18, mas para jogar uma categoria abaixo seria preciso buscar novas atletas. No caso dos clubes de São Paulo, a maioria já mantinha ao menos uma equipe sub-17 para disputar o Paulista de base que foi criado há dois anos e está na sua terceira edição – exceto pelo Palmeiras, que não participou ainda desse torneio. Ainda assim, sub-17 não necessariamente é sub-16 e foi preciso para muitos deles correr atrás de jogadoras nessa idade agora para poder disputar a competição no próximo mês.

Em muitos estados ainda não existem competições de base oficiais no futebol feminino. É o caso de Minas Gerais, que neste ano quase ficou sem a realização do Mineiro até mesmo na categoria principal por um desentendimento da federação com os clubes. Agora, o estado terá um torneio sub-20 – o primeiro dessa categoria entre as mulheres – realizado sem a Federação e com o apoio de patrocinadores, que contará com a participação de seis equipes (incluindo os principais, América-MG, Atlético-MG e Cruzeiro) e acontecerá entre os dias 13 e 17 de novembro.

Diante de toda essa deficiência na base do futebol feminino, toda competição organizada deve ser pensada junto com os clubes para o melhor aproveitamento dela. Os clubes nunca se importaram em fazer categorias de base para as mulheres porque não havia competição para disputar. Mas havendo competição, é preciso que haja também tempo para montar uma equipe competitiva e desenvolver um trabalho mais completo e a longo prazo, principalmente.

Já no início deste ano, os clubes sabiam que haveria um Brasileiro sub-18 e montaram suas equipes para participar dele – alguns com mais antecedência e um trabalho mais elaborado, outros no improviso, mas houve tempo suficiente para que todos se planejassem bem.

No caso do Brasileiro sub-16, houve um pré-anúncio em setembro, mas a confirmação de formato de competição e quais clubes participariam só viria em novembro – para uma competição que começa no dia 6 de dezembro e vai até dia 16 do mesmo mês. Em um mês, os clubes que não tinham ainda equipes sub-16 precisarão criar essa categoria para a disputa.

O futebol feminino tem atingido um patamar altíssimo em 2019, quebrando recordes de audiência, ganhando a visibilidade que sempre mereceu e finalmente tendo alguma atenção das federações e dos clubes. Só é preciso cuidar para que o desenvolvimento da modalidade aconteça da maneira correta. Não adianta criar campeonatos sem times para jogar (ou com times jogando no improviso). Assim como não adianta fazer os times sem que as federações criem campeonatos para mantê-los ativos. O diálogo entre todas as partes envolvidas é a melhor forma de garantir que as meninas tenham a estrutura que precisam para desenvolver o melhor de seu futebol e construir uma carreira de sucesso.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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