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Jogadora se lesionou no Grêmio há 2 anos e alega desamparo para cirurgia

Renata Mendonça

30/10/2019 17h16

Foto: Arquivo Pessoal

A lateral-direita Jéssica Silveira viveu por muitos anos a dura realidade do futebol feminino no Brasil. Se hoje ainda são raros os clubes que oferecem toda a estrutura para uma atleta profissional de futebol sobreviver e um salário pelo trabalho dela, há dois anos essa era uma realidade ainda mais escassa. Foi assim que a jogadora aceitou a proposta do Grêmio para vestir as cores do clube na disputa do Campeonato Gaúcho de 2017 sem um contrato formal, apenas com uma ajuda de custo garantida pelo clube.

Na época, o Grêmio treinava muitas vezes num campo sintético e foi ali que Jéssica sofreu uma lesão que a tiraria dos gramados por muito tempo. Mas, segundo ela, por conta do desamparo do clube, o que era para ser seis meses virou pelo menos dois anos sem chegar perto de uma bola de futebol. A atleta fez um desabafo no Facebook que teve mais de 200 compartilhamentos.

A jogadora rompeu o ligamento LCA do joelho no dia 15 de outubro de 2017. A lesão foi diagnosticada pelo departamento médico do clube, que indicou a cirurgia para o tratamento. Foi aí que começou o pesadelo de Jéssica. À época, o Grêmio não oferecia plano de saúde para as atletas do feminino e indicou que a lateral buscasse o SUS para resolver seu problema. De acordo com ela, não houve qualquer amparo do clube para que ela pudesse fazer a cirurgia rapidamento.

"No final de 2017, eu já vinha desde outubro solicitando para eles que encaminhassem minha cirurgia e tratamento porque eu queria voltar a jogar, então eu ia aproveitar o intervalo de uma temporada pra outra para me recuperar. Só que eles sempre alegaram que iam ver, que ia ter reunião, que não tinham uma resposta, mas que era pra eu ir encaminhando os papéis pelo SUS pra não perder tempo", explicou, em entrevista às dibradora.

"Aí foi prometido que na virada do ano eu já teria plano médico, carteira assinada e tudo isso no início de 2018. Aí janeiro eu fui atrás deles e eles não me responderam. Estou até hoje aqui esperando. Foi isso a última resposta deles, que eles veriam e entrariam em contato pra me dar retorno", contou.

O Grêmio, por sua vez, alega ter orientado a atleta a procurar o SUS porque por lá o clube poderia intermediar a cirurgia com um médico conhecido. Segundo o diretor jurídico do Tricolor Gaúcho, Nestor Hein, Jéssica "disse que não queria fazer a cirurgia pelo SUS e depois disso desapareceu".

"Na época não havia essa perspectiva (de oferecer plano de saúde para as jogadoras em 2018). Não havia planos de longo prazo para o futebol feminino. E o que a gente estranha é que nós procuramos, por uma questão de índole e de imagem do clube, atender as pessoas. Não ha problema nenhum de ajudar. Eu estou estranhando o sumiço dela e o aparecimento dela agora com a advogada distribuindo release. Se ela vier aqui nós vamos conversar. Só que ela resolveu fazer uma série de alegações que na nossa visão não procedem. Se ela nos procurar, vamos ajudar", pontuou às dibradoras.

Realidade 'amadora' do futebol feminino

Pode soar muito "bizarro" para quem está acostumado ao mundo do futebol masculino imaginar que uma jogadora se vincularia a um grande clube sem assinar nenhum contrato formal por isso. Mas isso era muito comum até  bem pouco tempo atrás. As coisas começam a mudar nos últimos dois anos, principalmente depois da obrigatoriedade exigida pela Conmebol para que os clubes invistam no futebol feminino. Mas em 2017, a ideia do Grêmio de fazer uma equipe feminina veio apenas para atender a um pedido da Federação Gaúcha.

"Em 2017, a Federação Gaucha de futebol convidou o Grêmio para que se somasse ao esforço do futebol feminino amador. O clube criou um time amador, com treinos à noite pra que as meninas pudessem trabalhar, não tinha contrato, apenas uma inscrição no Grêmio. Isso não significa que uma pessoa que usou a nossa camisa não tenha direito a um tratamento. Ela (Jéssica) foi orientada a ir para o SUS para passar por cirurgia. Tem outra atleta que se machucou na mesma época e fez a cirurgia logo nesse mesmo procedimento. A Jéssica disse que não queria ir pelo SUS", explicou Nestor.

Jéssica porém nega que tenha se recusado a ir para o SUS. Ela alega que esperou orientação do Grêmio e amparo do clube para que fizesse cirurgia. No início de 2018, inclusive, chegou a dar entrada com a documentação pedindo a cirurgia pelo sistema público de saúde ainda acreditando que o Grêmio iria auxiliá-la. O clube, porém, não a respondeu mais desde fevereiro de 2018, segundo seu relato.

"Eu passei pelo médico das categorias de base do Grêmio, ele me deu o laudo que eu tinha que fazer cirurgia e disseram que agora era correr atrás da parte burocrática da cirurgia. Falaram: 'você tem que passar pelo cirurgião, estamos vendo isso, quando passar a temporada a gente vai ter plano médico e aí vai ser uma assistência melhor', foi basicamente isso. Eles nunca me deram assistência. A única coisa que fizeram foi o diagnóstico da cirurgia mesmo. Eu tive fisioterapia enquanto eu estava lá, mas era para uma futura cirurgia", afirmou Jéssica.

Foto: Arquivo Pessoal

"Hoje eu não consigo mais jogar. Eu não consigo fazer muita coisa por causa do joelho, ele escapa, a dor é terrível".

De outubro a dezembro, Jéssica seguiu fazendo as sessões de fisioterapia para a recuperação antes da cirurgia. Em janeiro e fevereiro, ela entrou em contato com o coordenador de futebol feminino do clube algumas vezes buscando ajuda e não obteve resposta.

"Eu já não tinha mais psicológico para ficar correndo atrás, perdi a esperança de que o Grêmio fosse me dar uma resposta, fiquei muito mal, foi um estresse bem grande. Em 2018 eu tentei resposta, mas depois disso não continuei. Até hoje não tive retorno".

Com isso, há dois anos a atleta não consegue jogar bola e precisou fazer uma pausa na carreira. Ela hoje tem 26 anos e trabalha como vendedora, mas sonha com o dia que poderá voltar a jogar futebol.

"Eu sonho em voltar a jogar, foi o que eu sempre amei fazer, faço isso desde pequena, me criei com uma bola embaixo do braço. Sei que vai ser difícil, faz 2 anos que eu estou parada, é complicado. Cheguei a pensar em desistir, mas eu quero voltar", disse.

O Grêmio, por sua vez, diz que está "à disposição para conversar com Jéssica se ela procurar o clube".

"Não vou fazer debate com ela pela imprensa. A única coisa que eu posso fazer pelo Grêmio é me colocar à disposição caso ela nos procure", finalizou o diretor jurídico.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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