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1ª mulher a narrar Gre-Nal busca romper mais barreiras: quero chegar à Copa

Roberta Nina

25/10/2019 09h12

Clairene Giacobe, narradora da Rádio Estação Web (Foto: Divulgação)

No Sul do país, uma voz feminina vem resistindo e aprimorando suas técnicas na narração. Clairene Giacobe, tem 40 anos e conquistou espaço na Rádio Estação Web, de Porto Alegre, rompendo barreiras em um cenário que ainda é muito machista.

São quase 40 jogos narrados – masculinos e femininos – com a sensação de fazer o que ama, passando por cima das críticas e buscando a perfeição.

Neste domingo (27), Clairene irá narrar Internacional x Brasil de Farroupilha pelo Gauchão Feminino a partir das 14h. E no domingo seguinte (03/11), será a vez de encarar um Gre-Nal também das mulheres. Mas é claro que ela tem sonhos maiores. "Quero narrar uma decisão de Libertadores e uma Copa do Mundo. Procuro chegar lá um dia e fazer história em uma emissora. Gosto e tenho velocidade de voz para rádio, mas estou sempre me aperfeiçoando."

Do campo ao microfone

Nascida em Agudo – região central do Estado – a narradora e comentarista sempre gostou de futebol e desde muito pequena, tinha o rádio como companheiro. "Com cerca de seis anos, eu escutava o radinho e até pensava que um dia pudesse fazer isso, mas não dava muita bola. Nunca imaginei, achava muito difícil, mas foi um desafio que surgiu e se tornou uma paixão", revelou em entrevista às dibradoras. 

Tudo começou dentro de campo, como goleira em alguns times do Sul, como Grêmio, Inter e no São Luís de Venâncio Aires. Abandonou os gramados em 2003, quando descobriu que estava grávida. "Estava com três meses de gestação e não sabia. Passei mal no jogo e descobri a gravidez. Estava esperando gêmeas", revelou.

Clairene (a 4ª jogadora) defendendo o São Luís de Venâncio Aires (Foto: Arquivo Pessoal)

Ganhando a vida como representante comercial, Clairene começou a fazer um curso técnico de Radialista e conheceu Rogério Barbosa, diretor e proprietário da Rádio Estação Web. "Ele era meu professor, ficou impressionado com meu conhecimento sobre futebol e me convidou pra fazer parte da equipe da rádio. Ele disse 'quero botar uma mulher para comentar sobre futebol, você tem interesse?'. E esse foi um desafio pra mim. Eu devo tudo ao Rogério". 

E foi assim, em 2012, que Clairene começou a apresentar programas e comentar jogos. "Convidei a Clairene para atuar como comentarista das partidas da seleção brasileira feminina nos Jogos Olímpicos daquele ano. Dali em diante ela passou a comentar outros jogos, entrando na escala de comentaristas, o que gerou certa indisposição de alguns integrantes da equipe esportiva na época, que alegavam que 'uma mulher comentando futebol mancharia a imagem da emissora', o que foi imediatamente rechaçado por mim", nos disse Rogério Barbosa.

Em 2014, a Clairene começou a apresentar um programa de debates esportivos e entrevistas que está no ar até hoje: o "Agora é Que São Elas". A partir de 2015 ela tornou-se comentarista principal da Rádio Estação Web, atuando em praticamente todos os jogos transmitidos pelo veículo.

Clairene e Rogério (de cinza) Foto: Divulgação

Rogério desejava formar uma equipe esportiva totalmente feminina, com narração, comentários e reportagem. E entre testes e desistências das candidatas, Clairene passou a fazer mais cursos de especialização e fez testes para ocupar o posto de narradora. "Eu falei pra ele: 'tu tá louco? Não tenho nem voz pra isso'. Mas aquilo ficou na minha cabeça, fui pra casa pensei e depois decidi topar", disse.

Em novembro de 2016, ela iniciou seus trabalhos como narradora no jogo entre Inter e Ypiranga de Erechim no estádio Beira-Rio, final da Supercopa Gaúcha daquele ano. De lá pra cá, já são muitos jogos narrados em várias competições como Campeonato Gaúcho (masculino e feminino), Copa do Brasil, Brasileirão (masculino e feminino) e até mesmo decisões internacionais, como a Recopa Sul-Americana de 2018.

"A primeira narração que eu fiz, em 2016, pra mim foi dramática e horrível tecnicamente falando. Mas foi emocionante pelo desafio. Depois disso, fiz um jogo do Internacional pela Série B onde recebi muitas críticas e ofensas por ser mulher. Cheguei a pensar em parar, mas de cabeça fria eu falei 'sabe de uma coisa? Eu tenho minha voz aguda, mas vou tentar melhorar e na prática vou evoluir'. E agora tenho conseguido ter mais sequência, estou mais técnica, trabalhando melhor a minha voz para deixá-la mais grave", contou. 

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Persistência e foco sempr!

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Em 2018, Clairene tornou-se a primeira mulher a narrar um clássico Gre-Nal no Estado, ainda que em um veículo não-convencional. E com um curso profissionalizante de narração – onde é a única mulher de sua turma -, Clairene tem feito muitos treinos em casa com exercícios de controle de voz para não elevar tanto o agudo.

"É notório que as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço no jornalismo esportivo e dou apoio total, abrindo espaço na REW. Há que se ressaltar também o clubismo, muito forte aqui no Rio Grande do Sul, em que, se Grêmio ou Inter vencem seus jogos está tudo bem e se perdem está tudo errado. Outro fator é estarmos em um Estado predominantemente machista, além da atual conjuntura do país, em que a polarização política promoveu a intolerância e a antipatia entre as pessoas, revelando a total falta de educação de muitos", declarou Rogério.

Elas resistem

"Já ouvi muita coisa, como 'você não tem voz pra narrar', 'tem que estar na cozinha, limpando a casa', 'mulher não tem que se meter em narração', 'é fraca pra estar no meio dos homens'. De um ano pra cá, isso me incentivou muito a melhorar", contou Clairene. 

Equipe feminina da Rádio Grenal (Foto: Rádio Grenal)

Ainda são poucas as mulheres que se aventuram na narração. No Sul, a Rádio Grenal da Rede Pampa recentemente fez história ao montar uma equipe 100% feminina para atuar em uma jornada esportiva sob a direção de Marjana Vargas enquanto os times femininos de Grêmio e Internacional jogavam.

A narração da partida foi feita por Valéria Possamai, os comentários foram de Ana Aguiar, a reportagem por Bárbara Assman e Paula Cardoso participou como convidada especial.

Outra barreira foi quebrada recentemente por Renata de Medeiros que se tornou a primeira mulher a trabalhar como repórter de campo em 92 anos de Rádio Gaúcha. Ela atuou no jogo entre Internacional e Botafogo, pelo Campeonato Brasileiro deste ano, no estádio Beira-Rio.

Clairene revela que como comentarista, a aceitação de seu trabalho é muito maior do que quando está narrando. "Por conta do meu conhecimento tático, como comentarista senti preconceito no início, mas foi só até verem que eu entendo. Eu tinha que ficar provando, mas eu dava risada e saia natural. Mas na narração é mais difícil, mas eu não desisto."

Suas referências para narrar, claro, são todas masculinas. Mas ela tem gostado bastante de ver o surgimento de novas mulheres na função. "Converso bastante com a Elaine Trevisan. Ela e a Isabelly Morais já participaram do meu programa. Gosto bastante da narração da Renata Silveira e eu espero que todas sigam adiante. Precisamos ter união, porque várias tentaram narrar no passado, mas por conta de críticas e dificuldades, elas não tiveram sequência e acabaram desistindo. E desistir não é meu lema e espero que não seja o delas também."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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