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1ª medalhista olímpica no boxe perdeu apoio e retoma carreira em Mundial

Roberta Nina

17/10/2019 14h51

Adriana Araújo, a primeira brasileira a conquistar uma medalha olímpica na modalidade (Foto: REUTERS/Murad Sezer)

Na madrugada de sexta-feira (18) para sábado, em São Paulo, Adriana Araújo, a primeira medalhista olímpica do boxe feminino entra no ringue pela sétima edição do Boxing For You para a disputar o cinturão do Mundial Silver, do Conselho Mundial de Boxe.

O combate será a principal luta da noite entre a brasileira e a argentina Claudia Andrea Lopez, na categoria super-leves (até 63,5kg), terá 10 rounds e transmissão ao vivo da TV Bandeirantes.

"Minha carreira no boxe começou com a transmissão do Verão Vivo por Luciano do Valle no início dos anos 2000. Fico feliz por fazer a luta principal num evento transmitido ao vivo para todo País e poder trazer o cinturão mundial silver pra casa. Isso mostra o ressurgimento do boxe", contou Adriana Araújo, bronze em Londres 2012.

Aos 37 anos – e tentando se restabelecer agora como lutadora profissional e não mais amadora -, a boxeadora precisou derrotar inúmeros adversários até chegar ao ápice de sua carreira – ao conquistar uma medalha olímpica -, e mesmo no topo, não parou de lutar. 

Das porradas no futebol até o boxe

Acompanhamos a boxeadora em um bate-papo realizado pelo projeto Boxe Autônomos, na Casa do Povo, em São Paulo, há cerca de um mês, onde diante de uma platéia formada por lutadores (mirins e adultos) e amantes da luta, Adriana relembrou sua carreira e as dificuldades enfrentadas.

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Ontem foi lindo! #boxeautônomo @adriana_araujoboxe 📸 @cassimanofotos

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"Como uma boa piveta, como diz na Bahia, comecei a fazer esportes muito nova e, de início, comecei no futebol. Foi um dos esportes que mais me identificava. Comecei aos 10 anos e meus pais não gostavam, diziam que era esporte de homem, mas como eu era ousada, me mandava pro campo ou pra rua para jogar, mas sempre com os meninos", declarou. 

Aos 11 anos, Adriana tinha traçado como meta representar o Brasil por meio do esporte e ela achava que isso aconteceria jogando futebol. Se o preconceito por parte de seus pais já existia quando a filha jogava futebol, imagine só quando ela decidiu se tornar lutadora de boxe.

Foi uma colega do futebol que fez o convite para Adriana lutar. "Eu disse 'você tá maluca? Vou ficar tomando murro na cara? Já basta aqui na rua as brigas que arrumo com os meninos'. Eu não era briguenta, mas os homens não aceitavam quando levava vantagem em cima deles e aí me davam canelada, chute nas pernas. E eu dava uma mãozada na cara deles também, mas não tinha noção de boxe, eu tinha era coragem pra enfrentar qualquer um que viesse com gracinha", contou.

Adriana tinha acabado de fazer 17 anos quando conheceu o boxe e se apaixonou. Seu primeiro treinador – e que segue com ela até hoje – percebeu que ela tinha talento e foi como sparring de lutadores homens que a boxeadora aprendeu a levar e dar "porrada".

(Foto: Valterci Santos/ AGIF COB)

No início dos anos 2000, as mulheres não disputavam a modalidade nos Jogos Olímpicos (somente em Pan-Americanos e Mundiais) e as grandes competições aconteciam fora do país. Com isso, eram as atletas que precisavam se bancar no esporte.

Adriana não conseguia viver do esporte e, por conta disso, foi Agente de Saúde em Salvador por quase dois anos. "Trabalhava para me manter, pagar minhas viagens, minha alimentação. Muitas vezes eu e minhas colegas fizemos rifas e fomos atrás de empresários em Salvador para ajudar a custear nossas passagens. Era muito difícil."

A boxeadora pensou em desistir várias vezes do boxe e, além da falta de incentivo na carreira, ela ainda enfrentava o preconceito por parte de sua mãe. "Ela era totalmente contra, dizia que era esporte agressivo, que era pra homem. E era pior ainda quando eu chegava em casa com a cara quebrada", relembrou aos risos dizendo que só ouviu algo de positivo por parte de sua mãe em 2005, quando foi campeã Pan-Americana em Buenos Aires – a 1ª vez que a competição abriu espaços para as mulheres.

Vitórias e derrotas

Adriana foi atleta olímpica por 13 anos, participou de cinco edições de Mundiais, foi oito vezes campeã Pan-Americana e 14 vezes campeã brasileira. Como amadora, fez 256 lutas sofrendo apenas 12 derrotas.

Um ano antes dos Jogos Olímpicos de 2012, Adriana foi sondada por um empresário que sugeriu que ela virasse uma lutadora profissional. A atleta recebeu uma proposta de 150 mil na dólares na época, mas recusou a oferta porque desejava lutar em Londres.

Pódio olímpico (Foto: COB)

E foi lá que viveu o grande momento de sua carreira. Foi a 1ª vez que o boxe se tornou categoria olímpica para as mulheres e o sonho de Adriana se tornou realidade. Ela chegou até a semifinal mas perdeu para Sofya Ochigava, atleta russa que, na época, era vice-campeã do mundo. A medalha de bronze conquistada pela brasileira quebrou um jejum de 44 anos do boxe brasileiro. Até então, somente Servílio de Oliveira tinha conseguido o mesmo feito em 1968, nos Jogos do México. 

Com a conquista da medalha, Adriana acreditou que sua carreira iria dar uma guinada, mas não foi o que aconteceu. "Eu era uma atleta medalhista, fodona, cheia de história, mas não tinha o reconhecimento que deveria ter. Os meninos (atletas do boxe), depois de 2012, conseguiram se tornar profissionais porque as empresas chamaram eles. Talvez, se eu fosse homem, eu estaria lá também. Mas eu sou mulher, entendeu?"

Logo após sua maior conquista, Adriana foi punida pela Confederação Brasileira de Boxe por conta das críticas que fez publicamente ao presidente da entidade, Mauro Silva. Suspensa por um ano e oito meses, ela perdeu o salário que recebia por defender o Brasil e o auxílio do Bolsa Pódio (incentivo do Governo Federal). 

Adriana entre Esquiva e Yamaguchi (Foto COB)

"Foi o momento mais triste da minha vida. Esse homem me tirou do boxe no momento mais feliz da minha vida. Expressei sozinha tudo que estava acontecendo na Federação na época. Todos os atletas sofriam com a falta de respeito e com a maneira errada como o presidente nos tratava e eu fui punida por falar", revelou.

Quando o período de suspensão acabou, aproximavam-se os Jogos do Rio, em 2016, e Adriana recebeu uma ligação do então secretário executivo do Ministério do Esporte, Ricardo Leyser, a convidando para retornar à seleção e representar o Brasil no próximo ciclo olímpico.

"Achei uma injustiça o Ministério dos Esportes e o COB serem coniventes com essa situação que passei porque eles sabiam dos desmandos da Confederação. Além de me tirarem da seleção, me tiraram todos os benefícios. Vivi momentos bem difíceis."Ainda assim, Adriana competiu nos Jogos Olímpicos de 2016, mas não teve bom desempenho.

A retomada

Entre os anos de 2017 e 2018, Adriana chegou a cogitar abrir mão da carreira. Trabalhou como Uber por um tempo para poder se manter e ao receber um convite para participar de um Fórum Esportivo na capital baiana, a atleta contou suas dificuldades para Olívia Santana, que na época era Secretária de Esporte. Com a ajuda da assessora da política – que já era amiga de Adriana e conhecia sua trajetória -, ela conseguiu um patrocínio de uma empresa de gás da Bahia e conseguiu voltar aos treinos.

(Foto: Divulgação)

Adriana decidiu fazer a transição para o boxe profissional e recebeu o convite para voltar a lutar pelo Boxing For You. "Foi uma retomada, uma superação na minha vida. Hoje eu tenho o maior tesão de estar treinando, eu precisava desse empurrão. Ainda continuo sem patrocínio master, mas já fui campeã latino-americana pela WBC (Conselho Mundial de Boxe) e hoje estou em 12ª do ranking."

Adriana segue treinando em Salvador e como profissional fará sua quinta luta. Hoje, ela tem a dimensão do grande feito que alcançou e se sente extremamente orgulhosa de tudo que conseguiu. 

"Pra mim, o orgulho, o reconhecimento e o fato de olhar pra trás e ver que consegui superar tudo e ser o que sou hoje depois de tanta dificuldade, é o que me faz ser feliz. Tudo que fiz foi mirando meus sonhos e conquistei cada um deles. Ainda sigo conquistando os que faltam. Hoje eu tenho noção do que eu fiz, foi inédito, foi maravilhoso, mas infelizmente nosso país não reconhece os feitos dos atletas do alto rendimento."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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