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As mães recordistas que superaram Bolt e fizeram Mundial histórico em Doha

Renata Mendonça

07/10/2019 11h06

Foto: Getty

O Mundial de Atletismo em Doha terminou neste domingo e coroou uma nova recordista. Se antes Usain Bolt reinava absoluto com a maior quantidade de ouros já conquistada em Mundiais – com 11 -, Allyson Felix superou o jamaicano e agora assume esse posto aos 33 anos com 13 ouros e 18 medalhas no total em todas as suas participações na competição.

Mas o que mais chama a atenção nesse resultado dela é o momento em que ele foi construído. Há 10 meses, Felix estava correndo risco de morte juntamente com sua filha, que nasceu prematura em uma cesariana de emergência quando a mãe completava 32 semanas de gravidez e foi ao médico para um exame de rotina. Ali, constatou que estava sofrendo de pré eclâmpsia, uma condição de pressão arterial alta que pode ameaçar a vida da mãe e do bebê. Foi preciso fazer um parto de emergência, e Camryn nasceu com menos de 2 quilos (1,6kg), precisando ser levada à UTI infantil.

Foi assim que Felix passou seu último Natal, dormindo todos os dias na sala de espera de um hospital, aguardando boas notícias sobre sua filha recém-nascida. Ali, ela não poderia sequer sonhar em estar correndo no Mundial de Doha, em outubro deste ano, e muito menos ganhando medalha. O ano que começaria em seguida seria, porém, o mais importante e histórico de sua vida.

Com Camryn recuperada, Felix voltou aos treinamentos com o desafio de lidar com a vida de atleta e mãe ao mesmo tempo. Noites mal-dormidas (ou não dormidas por completo), amamentação, e uma rotina que, sem a corrida, já era exaustiva, e com os treinos ficava ainda mais desafiadora. Para completar tudo isso, a americana recebeu uma proposta de renovação de seu contrato de patrocínio com a Nike com um valor 70% menor do que o que costumava receber. Seria uma penalização por ela ter se tornado mãe?

"Se eu, que sou uma das atletas mais comercializadas da Nike, não consigo assegurar uma proteção à maternidade, quem conseguirá?", questionou a atleta em texto publicado no jornal The New York Times.

Foto: Reprodução Instagram

Sua reivindicação se juntou a de outras atletas que tinham sido mães recentemente, e a Nike anunciou em maio uma mudança de postura com relação aos contratos garantindo que "mulheres não seriam mais financeiramente penalizadas por terem filhos".

Mais do que mudar a maneira que patrocinadores viam as atletas que optavam pela maternidade, Felix também deixou uma lição enorme com suas conquistas neste Mundial (ouro no revezamento misto 4x400m e ouro no revezamento feminino 4x400m): é possível ser uma das atletas mais vitoriosas da história e também formar uma família.

"Eu espero que nós possamos ver uma mudança e que mulheres possam decidir quando querem começar uma família. Se elas escolherem esperar, está ótimo, e se elas escolherem ter uma família mais cedo, também está ótimo. Mas isso deve ser uma escolha delas, que não deve ser tomada por conta de demanda de patrocinadores ou por penalizações financeiras", afirmou a corredora à BBC.

"Para mim, isso é muito maior do que o atletismo. Correr é minha paixão, eu amo o esporte, mas eu amo que esse esporte também me deu uma plataforma para falar sobre questões que podem mudar vidas. É nisso que encontro o real significado de tudo. Eu nunca poderia imaginar que estaria vivendo isso nesse momento, mas fico muito feliz que tenha acontecido", completou.

Mãe, atleta, ativista

Allyson Felix tem uma carreira invejável no atletismo, colecionando 18 medalhas em Mundiais (13 de ouro, 3 de prata e 2 de bronze) e nove medalhas olímpicas (6 ouros e 3 pratas). Mas ela se define hoje para além das pistas como mãe, prioritariamente, atleta e também ativista.

Principalmente após a sua gravidez e as penalizações que sofreu por ela, Felix percebeu a importância de questionar o "status quo" e lutar por seus direitos como mulher negra e mãe.

Nia Ali foi campeã dos 110m com barreiras e celebrou com seus dois filhos (Foto: Getty)

"Desde criança, quando estava começando no esporte, eu só via silêncio. Tanto das minhas companheiras de equipe, quanto de outras mulheres, ninguém falava nada. Elas só anunciariam uma gravidez publicamente depois que tivessem um contrato de patrocínio garantido. Eu vi isso acontecer inúmeras vezes e chegou ao ponto de eu nem mais questionar. Só pensava: é assim que é. Até que eu me vi nessa situação. E aí pensei: as coisas não deveriam ser assim, isso não está certo", contou.

"Quando imagino Camryn crescendo, eu só penso que eu quero que as coisas sejam diferentes pra ela".

Nesta edição do Mundial de Atletismo, houve alguns sinais de que há mudanças em curso para as mulheres no esporte. Foram três "mães" medalhistas, mulheres que tiveram filhos recentemente e já estavam de volta às pistas não só correndo, mas também vencendo provas. Foi assim com Allyson Felix, e também com a jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, de 32 anos, que conquistou seu quarto ouro nos 100m rasos, ultrapassando Bolt (que é tricampeão na mesma prova) e fazendo tudo isso após o nascimento de seu filho no último ano.

Foto: Getty

"Consegui um feito que muitas mulheres sonham: ser bem-sucedida aos 30, ter meu filho presente torcendo por mim. Foi realmente especial. Eu quero inspirar jovens atletas que nós podemos conquistar o que quisermos. É trabalhar duro, estar comprometida, que você consegue. Muitas pessoas dizem que depois da gravidez a mulher desacelera, acho que pra mim ter desacelerado me fez mais rápida", brincou a tetracampeã mundial.

Além dela, outra americana, mãe de dois filhos, garantiu um ouro neste Mundial. Nia Ali fez o melhor tempo de sua carreira nos 110m com barreira e faturou o ouro em Doha, sua primeira medalha em um Mundial ao ar livre.

"Allyson Felix e Shelly-Ann Fraser-Pryce, que são mães e foram campeãs aqui em Doha, serviram de inspiração para mim. Estou muito, mas muito feliz mesmo com esse título", afirmou ela após a conquista.

Um Mundial que ficará para sempre marcado na história pela superação dessas mulheres que provaram que a maternidade não precisa ser um ponto final na carreira – ela pode, na verdade, ser um novo ponto de partida. E, por causa delas, os desafios das novas gerações de atletas na gravidez com certeza serão mais suaves.

"Sinto que ser atleta e ativista têm a mesma prioridade para mim. Ser atleta é meu trabalho, mas sinto que ser ativista é minha responsabilidade. Qualquer oportunidade que eu tenha de falar sobre isso, eu vou falar", finalizou a maior campeã de Mundiais da história.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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