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Com ‘atraso’ de 30 anos, 1ª seleção feminina de futebol de areia é formada

Roberta Nina

03/10/2019 10h02

Foto: Douglas Emmanuel/NB Photopress

Foi preciso esperar por quase trinta anos para que uma seleção feminina de futebol de areia pudesse surgir. Tradicional e campeã entre os homens, a modalidade – também chamada e beach soccer – nunca viu mulheres vestindo as cores do Brasil em competições oficiais, mas esse dia chegou.

Entre 11 e 16 de outubro, dez mulheres irão representar o país nos Jogos Mundiais de Praia (ANOC World Beach Games), que acontecerão em Doha, no Catar. 

Natalie, Lelê Lopes, Jasna, Dani Barboza, Bárbara Colodetti, Noele, Adriele, Lelê Villar, Lorena e Nayara são os nomes das pioneiras que, a partir de agora, cravarão seu nome na história do beach soccer feminino do Brasil e que, sem dúvidas, abrirão portas para uma legião de garotas e mulheres que desejam ser como elas.

"Sinto uma responsa muito grande (em ser pioneira), mas também honrada. Comecei muito nova no esporte e espero que, futuramente a modalidade melhore e que as mais jovens encontrem a modalidade num nível acima. Essa seleção é fruto de um trabalho que estamos fazendo ao longo dos anos, com atletas de muito potencial e que levam a modalidade a sério. Estamos caminhando e esperamos fazer um bom trabalho", declarou a defensora Bárbara Colodetti às dibradoras.

Realidades e oportunidades distintas

A seleção masculina de beach soccer existe desde 1998 e é a maior vencedora de Copas do Mundo: são 14 conquistas no total. A competição é organizada pela FIFA desde 2005 e acontece a cada dois anos. O título mais recente do Brasil aconteceu em 2017, disputado nas Bahamas e, neste formato, o Brasil é pentacampeão.

(Foto: Divulgação/Facebook CBSB)

Entre altos e baixos, a modalidade se desenvolveu, revelou grandes nomes do esporte, as mulheres também passaram a competir, clubes grandes começaram a apoiar a prática, mas ainda é comum ver atletas daqui buscando melhores oportunidades para disputar competições mais frequentes e fortes em outros países.

Segundo dados divulgados pela Confederação de Beach Soccer do Brasil (CBSB), entre os dias 31/5 e 9/6, durante a Euro Winners Cup – competição que reúne os principais clubes das ligas europeias masculinas e femininas – 54 profissionais foram exportados do Brasil, entre atletas, treinadores e membros de comissão técnica.

Dessa lista, 40 eram atletas homens e 9 eram mulheres. O diretor do departamento de futebol feminino da CBSB, Marcelo Mendes, comemorou o cenário favorável para a modalidade praticada por elas. "Vivemos o melhor momento do futebol feminino no esporte. Hoje temos um bom número de atletas de ponta, que são frequentemente contratadas pelas principais equipes europeias, e invariavelmente se destacam entre as melhores do mundo. Ainda necessitamos de mais competições aqui dentro do Brasil, mas já há um avanço significativo em relação a alguns anos atrás", declarou ao site da CBSB. Marcelo é um dos nomes conhecidos do beach soccer e iniciou sua trajetória no esporte na década de 90, justamente como treinador de equipes femininas.

Bárbara é uma das jogadoras que entrou nesta lista quando defendeu a equipe Lady Grembach da Polônia. Ela também disputou competições por clubes da Itália, Hungria e recentemente fez história ao ser a primeira estrangeira a atuar no campeonato russo – um dos mais fortes do mundo – e ser campeã. 

"Bati recordes de jogar em países que nem imaginava. Na Polônia, passei 30 dias treinando em uma temperatura de 9 graus numa areia geladíssima. Nessas situações, eu prefiro queimar o pé nas areias do Brasil do que congelar", declarou rindo. 

Lele Villar, indicada entre as três melhores do mundo em 2017 (Foto: Arquivo pessoal)

Mesmo sem tanta exposição, o Brasil conta com atletas talentosíssimas e referências na modalidade. A pivô capixaba Letícia Villar foi eleita melhor jogadora do Brasileiro de 2017 e esteve entre as três melhores jogadoras do mundo do mesmo ano, eleita pelo Beach Soccer Worldwide. No ano seguinte, foi a vez da maranhense Adrielle Rocha, com apenas 20 anos na época, aparecer no top 3.

Cenário brasileiro

Bárbara é capixaba e, assim como o Rio de Janeiro, o Espirito Santo também pode ser considerado como o berço do futebol de areia. Ela começou a jogar futsal por volta dos oito anos na escola e conheceu o futebol de areia aos 13, incentivada pelo professor de educação física que era dono de uma escolinha em Camburi (praia próxima de Vitória).

A jogadora se apaixonou pela areia, mas por conta das limitações do calendário, por muitos anos ela conciliou o beach soccer com o futsal e futebol de campo. Em 2010, aos 17 anos, defendia o Kindermann e foi convocada para jogar pela seleção de base da seleção brasileira. No time de Santa Catarina, jogou ao lado da goleira corinthiana Lelê e da meia Andressinha. Pela seleção, trocou passes com Andressa Alves e Tayla.

"Nossa modalidade vive uma oscilação de campeonatos e isso acontece em diversos países, mas aqui no Brasil é mais comum. Se nos fortalecemos aqui dentro, conseguiremos caminhar melhor. Existem muitas dificuldades e impeditivos na história da modalidade, o masculino também sofre com tudo isso, imagina então o feminino", disse Bárbara.

Segundo ela, as mulheres começaram a fazer um intercâmbio para jogar no exterior de uns cinco anos pra cá. Com isso, ela pôde abrir mão de praticar outras modalidades para se dedicar somente ao beach soccer, mas ainda assim, ela e tantas outras jogadoras não conseguem se manter financeiramente apenas com o esporte. Bárbara é formada em Arquitetura e Urbanismo, mas trabalha formalmente com a mãe na área de Administração.

"De uns tempos pra cá começou a ter mais campeonatos no Brasil, mas precisamos de maior incentivo das federações locais. Rio de Janeiro e Espírito Santo são cidades dominantes, mas gostaria de jogar no Sul, no Nordeste, com meninas do Brasil inteiro."

Recentemente, a jogadora chegou a disputar o 1º Circuito de Beach Soccer com a presença de times femininos do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Amazonas e Distrito Federal. Além deste, aconteceu um Brasileiro de Clubes, com etapas acontecendo nas regiões Norte, Nordeste e no Espírito Santo e com confrontos das campeãs no Rio de Janeiro. "O caminho é esse, organizar competições com mais regularidade. Só assim o cenário local pode mudar", completou.

Fora do país

Por incrível que pareça, o futebol de areia tem muita tradição em países frios e os atletas brasileiros são muito bem-vindos na Europa. A Itália, por exemplo, foi o destino que abriu portas para brasileiras no Velho Continente e por lá, o campeonato feminino é muito forte. "A Itália é muito receptiva para as estrangeiras, já joguei com francesas, suíças, espanholas e inglesas. O campeonato é um dos melhores, mas as italianas não tem uma seleção pra defender. A realidade do feminino é sempre a mesma, nessa luta", contou Bárbara. 

E, como parte de seu trabalho, Bárbara acaba defendendo times estrangeiros nas principais competições europeias ao longo da temporada. "A gente vai intercalando torneios e viajando para fechar contratos. Por exemplo, uma disputa de campeonato na Itália dura, em média, seis dias corridos. Aí você recebe um valor por jogar. Uma Euro tem em média 20 equipes na disputa e o modelo é uma semana de campeonato. Na Rússia, são cinco jogos seguidos e assim a gente vai competindo. Em breve, irei para a Turquia jogar em um Mundialito de Clubes e vou defender um time italiano", detalhou.

Brasil é seleção!

Com a criação da primeira seleção brasileira para disputar os Jogos Mundiais de Praia, as atletas já sonham em também ter a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo. "Infelizmente, seleções femininas de beach soccer só existem na Europa e em alguns países como Estados Unidos e México. As mais fortes são a Rússia, Inglaterra e Espanha. Nossa intenção é que a América do Sul ganhe força futuramente e que possamos, um dia, jogar um Mundial", afirmou Bárbara.

A brasileira reforçou que o crescimento recente do futebol feminino e o sucesso da Copa do Mundo na França ajudam a impulsionar o futebol de areia também. "Com o Brasileiro passando na TV e com o grande interesse das pessoas pela Copa, outras modalidades femininas também ganham valor. A gente pegou esse ar recente e queremos alcançar essa exposição boa do futebol feminino para recrutar investimentos."

O beach soccer feminino não conta com aporte financeiro de nenhuma marca ou empresa grande. Os patrocinadores das competições são pontuais e geralmente são marcas que atuam nos estados dos torneios. Na 1ª Copa de Seleções Estaduais que aconteceu em agosto, elas receberam apoio de uma empresa de transporte rodoviário que arcou com despesas de passagem. Outras empresas ajudaram a custear hospedagens e alimentação das atletas, mas isso ficou a cargo de cada equipe.

Para disputar essa competição no Catar, as meninas já treinam no Rio de Janeiro com a Confederação Beach Soccer do Brasil e irão viajar com uma delegação composta por mais de 1.200 atletas de diversas modalidades de praia, apoiadas pelo Time Brasil do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

"É um momento novo e temos que aproveitar essa oportunidade. As mudanças estão acontecendo, o relacionamento (com a Confederação) está melhor e temos até um diretor só para o beach soccer feminino. Acreditamos na nossa força para representar o Brasil para que a modalidade siga bem e crescendo. Além de inspiração para novas meninas, espero um bom trabalho da Confederação para integrar mais o país em campeonatos", ressaltou Bárbara, uma das pioneiras de nossa seleção.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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