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Heroína da Ferroviária, goleira Luciana pensou em parar após Copa de 2015

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Roberta Nina

30/09/2019 14h10

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

São muitas as mulheres que protagonizaram o bicampeonato nacional conquistado pela Ferroviária no último domingo (29). Começando por Tatiele Silveira, que se tornou a 1ª mulher a conquistar o Brasileirão Feminino como treinadora, passando pela diretora da modalidade, Ana Lorena Marche, que ocupa o cargo desde 2017 e tem levado profissionalismo ao time de Araraquara, pela meio-campista Aline Milene que rompeu o ligamento pela terceira vez há um ano atrás e foi uma das artilheiras da equipe neste ano até chegar na goleira Luciana, uma das maiores responsáveis pela conquista da Ferrinha.

"Quando a gente classificou em sétimo lugar, muitas pessoas falaram que a gente não ia nem passar do Santos e outros times que viessem. E a gente se blindou de tudo e de todos. Nos fechamos e falamos: 'vamos que dá, a gente acredita'. E foi isso. Muito trabalho aos finais de semana, dia das Mães, Páscoa e hoje a gente entende isso", revelou a jogadora após a conquista do título.

A goleira – que tem torcida particular e bandeira especialmente dedicada a ela na arquibancada – teve participação crucial na conquista do título defendendo pênaltis nas fases decisivas contra Santos, Avaí/Kindermann e Corinthians.

Também foi titular em Copa do Mundo defendendo a seleção brasileira e questionada após a eliminação do Brasil em 2015. Foram tantas as críticas que Luciana cogitou a possibilidade de parar com o futebol, mas não desistiu e hoje é, sem dúvidas, o grande destaque da campanha da Ferroviária.

Bicampeãs do Brasil

E foi assim, desacreditadas por muitos que a Ferroviária disputou o mata-mata do campeonato nacional ao passar para a fase eliminatória como sétima colocada entre os oito times que avançaram. A equipe grená encontrou uma pedreira logo nas quartas-de-final ao decidir a classificação com o Santos e nas cobranças de pênaltis, Luciana fez duas defesas e a Ferrinha avançou para a semifinal.

Comemoração após vencer o Santos (Foto: Site Oficial / Ferroviária)

Novamente a goleira brilhou na decisão da semifinal para levar sua equipe à final do Brasileirão. Em mais uma disputa por pênaltis, a camisa número 1 fez mais duas defesas contra o Avaí/Kindermann e chegou em mais uma disputa pelo título – a terceira de Luciana que já havia levantado o caneco em 2014 pela mesma Ferroviária e em 2016 pelo Rio Preto.

Na final, contra o gigante Corinthians, Luciana foi importantíssima nos 180 minutos de jogo (1×1 na ida e 0x0 na volta) e precisou, mais uma vez, se superar nas penalidades. Ao defender o pênalti de Tamires, diante de um público com mais 6 mil pessoas, a goleira sagrou-se tricampeã do Brasil e ovacionada pelos torcedores, jogadoras e pela mídia que cobriu a partida.

"A gente já tinha perdido pra elas por 4×0 lá em casa, e depois perdemos aqui, por 5×1 pelo Paulista. Depois que acabou aquele jogo, ficamos muito abatidas e no vestiário a gente se fechou. Sabíamos que hoje era nosso último jogo, era tudo ou nada. A equipe do Corinthians é muito qualificada, é muito difícil fazer gol nelas, todo mundo sabe. Tínhamos empatado com elas dentro de casa e sabíamos que poderíamos ganhar aqui, no tempo normal ou nos pênaltis, não importava, mas a gente tinha que ir pra cima delas. Era o último jogo!", revelou emocionada.

Ferroviária foi goleada pelo Corinthians nas duas partidas da semifinal pelo Paulista (Foto: Site Oficial / Ferroviária)

Pelo Brasileirão, a campanha da Ferroviária contou com sete vitórias, nove empates e cinco derrotas. O time marcou 27 gols e sofreu 14 gols. A artilheira da equipe na competição foi Nathane Fabem, com sete gols. 

'Pensei em parar depois da Copa de 2015'

"A melhor goleira do mundo", diz a faixa que os afeanos estendem nas arquibancadas durante os jogos do time feminino. É comum ouvir os gritos de "Luciana é seleção" vindo da torcida e foi justamente por conta de uma falha na Copa de 2015, no Canadá, que fez a goleira quase desistir da profissão.

Torcida da Ferroviária homenageia Luciana (Foto: dibradoras)

Luciana tem 32 anos, nasceu em Belo Horizonte e foi titular da equipe brasileira no Mundial de 2015. Na ocasião, ela defendia a mesma Ferroviária e após falhar em uma defesa nas oitavas de final contra a Austrália, a seleção foi eliminada da competição e, na época, as críticas foram bem direcionadas à goleira.

"Foi bastante difícil o ano de 2015, todo mundo me criticou. Mas futebol é assim e quem é goleiro sabe. Erramos hoje, acertamos amanhã e vida que segue. O atacante erra 50 gols e ninguém fala nada, mas é assim. Graças a Deus, minha família e minhas companheiras me deram força para continuar e dar a volta por cima. Foi um momento bastante triste que até pensei em parar, mas graças a Deus e com minha família do meu lado nunca me deixaram desistir", relembrou em entrevista às dibradoras. 

Luciana em 2015, após derrota para a Austrália (Foto: Matt Kryger/USA Today Sports/Reuters)

As defesas de Luciana não se resumem apenas às decisões por pênaltis. Durante a final contra o Corinthians, a goleira fez cerca de cinco importantes intervenções que garantiram o placar zerado. O sistema defensivo da equipe de Araraquara estava muito fechado e isso dificultou demais a criação e finalização da equipe alvinegra.

Luciana destacou o trabalho e o foco do grupo que, após a goleada sofrida pelo mesmo Corinthians no meio da semana – e causando a eliminação da final do Paulista – se fecharam e ainda treinaram na sexta e no sábado antes do duelo final. "Sabíamos que seria difícil, mas entramos conscientes e concentradas, nada e nem ninguém tirou o nosso foco e fomos coroadas com o título", ressaltou.

Na primeira partida, em Araraquara, a goleira passou mal e chegou a desmaiar no primeiro tempo da partida. Ela recebeu atendimento e a equipe médica revelou que Luciana teve um pico de pressão alta, chegando a 18 por 10. Naquele jogo, às 14h, a temperatura em Araraquara era de 35 graus e muitas atletas sofreram com o calor.

Após atendimento, Luciana se recompôs e quis continuar em campo. "Eu sabia que estava bem e tinha me recuperado, sim. O fato de eu voltar para a partida é porque a gente é guerreira, né? Guerreira grená! E guerreira nunca foge da luta, igual fala o nosso hino. Se não tivesse bem, não colocaria minha vida em risco de maneira alguma. Fiz exames depois e foi só um pico de pressão mesmo", relembrou. 

(Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Antes da decisão, Luciana confidenciou que "estava sentindo uma coisa boa" e chegou a comentar com membros da equipe que pegaria um pênalti na final. "Falei no sábado que pegaria um pênalti, tava sentindo. Comentei com a Vanessa que estava sentindo uma coisa boa. Não era autoconfiança, era uma coisa boa dentro de mim e falei que iria para os pênaltis e pegaria um."

É claro que ela analisou as cobranças das jogadoras adversárias, mas em alguns momentos, o feeling falou mais alto. "Fico muito feliz por ter ajudado minha equipe, mais uma vez, e sair com o título. Agradeço a comissão, as meninas porque sem elas, como eu pegaria os pênaltis? Como eu treinaria? Agradeço também nosso analista de desempenho, ele me mostrou as imagens das cobradoras, mas não é sempre que vou na dele, sempre tem aquele macete de goleiro e eles sempre me deixaram à vontade, então consegui pegar um pênalti que garantiu o título."

Assim, que o jogo acabou, Luciana correu para os braços da pequena torcida de Araraquara que estava nas arquibancadas da Fazendinha. A bandeira com seu nome estava lá, estendida, saudando a grande heroína grená. "Fiquei muito emocionada. No primeiro jogo me mostraram a bandeira e eu chorei bastante porque nunca passou pela minha cabeça receber uma homenagem dessa da torcida. E hoje, novamente, eles vieram com a bandeira aqui e falei que jogaria por eles, porque sair de Araraquara para vir até aqui não é fácil. São 5h de viagem e eles nos deram total apoio. Assim que acabou os pênaltis, fiz questão de correr lá e comemorar com essa torcida maravilhosa."

Luciana dedicou o título para seus familiares que, segundo ela mesma disse, "deram total liberdade, desde pequena, para que ela pudesse ser aquilo que quisesse, inclusive jogar bola". O foco agora está na busca do título que ainda falta para compor seu hall de conquistas. "Agora é descansar e viajar para a Libertadores em busca desse título inédito pra mim. Eu acho que, se eu conseguir esse título, as chuteiras vão pendurar. Não sei, vamos ver o que vai acontecer."

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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