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Quem é a primeira mulher a comandar um time campeão brasileiro de futebol

Renata Mendonça

28/09/2019 11h09

Técnica Tatiele comemora com as jogadoras a classificação (Foto: Divulgação)

A Ferroviária foi campeã brasileira de futebol feminino em 2014 e sempre teve uma tradição grande na modalidade. Mas desde que os times de camisa surgiram investindo mais em equipes femininas, a equipe do interior passou a ter mais dificuldade para disputar os títulos com os grandes. O time não chegava à decisão da principal competição nacional há cinco anos e, nesta temporada, não só conseguiu chegar lá, como derrubou o favorito Corinthians na final em pleno Parque São Jorge. No comando desse time, uma treinadora que já há alguns anos pede passagem.

Tatiele Silveira se tornou, neste domingo, a primeira mulher a comandar uma equipe campeã brasileira de futebol.

"É um sonho que eu achava que ia demorar tanto pra virar realidade, mas fui tão bem acolhida em Araraquara, que cada vez a gente foi vendo que era possível. Um grupo de mulheres fantásticas, com profissionalismo acima da média, e quando fechou, ninguém segurou mais", afirmou a técnica às dibradoras após a final.

"Espero que essa conquista inspire outras mulheres, ex-atletas, profissionais, que sonham em trabalhar com futebol. Que sirva de inspiração pra todas elas e eu vou estar sempre aqui para ajudar. Esse é o melhor legado que eu tenho pra deixar", disse.

Foto: Dibradoras

Tatiele foi jogadora de futebol, fez carreira no Internacional e teve seu início justamente por lá, na escolinha de futebol que o clube mantém para as meninas. Aos poucos, ela foi se especializando e galgando seu espaço até ser contratada para comandar a equipe principal do Inter. Foram dois anos lá e apenas duas derrotas nesse período todo (34 vitórias em 41 jogos), mas seu contrato não foi renovado para 2019. Foi aí que ela ganhou a oportunidade de ir para a Ferroviária e lá estrear no comando de um time na primeira divisão nacional. Deu tão certo, que a treinadora é hoje finalista do Campeonato Brasileiro.

"Acredito muito no meu trabalho, nas minhas ideias, na minha capacidade de trabalhar. Penso que é isso que vem evoluindo ao longo da minha temporada e foi isso que me trouxe até a Ferroviária. Quando eu recebi o convite, fiquei muito feliz por ter um reconhecimento do meu trabalho exatamente por tudo o que eu já tinha feito na temporada passada com uma campanha muito vitoriosa", disse Tatiele às dibradoras.

A técnica foi a segunda mulher a chegar numa final nesta posição – a primeira foi Emily Lima em 2015, com o São José. A conquista dela é ainda maior considerando que o Corinthians tinha uma temporada quase perfeita, com 34 vitórias consecutivas, até esbarrar na Ferroviaria na decisão. Com 1 a 1 no primeiro jogo e 0 a 0 no Parque São Jorge, a equipe de Araraquara conseguiu o título nos pênaltis.

Histórico

Tatiele começou a carreira de técnica ainda quando era jogadora. Na época, curiosa com o planejamento dos seus próprios treinadores com relação à temporada para as atletas, ela sempre os enchia de perguntas e buscava entender a lógica pensada para cada treino. Essa curiosidade a fez ir atrás da faculdade de Educação Física, já vislumbrando um futuro trabalhando na beira do gramado.

Foto: Divulgação

"Eu era atleta profissional, sempre fui muito curiosa com os meus treinadores, preparadores físicos de saber como eles pensavam os treinamentos, como era criado aquela sessão. Isso me estimulou a procurar a faculdade.  Comecei paralelamente tentando adequar as duas coisas, ao mesmo tempo que eu era atleta, comecei a fazer faculdade. Sempre gostei muito da área técnica, de planejamento dos treinos, e cada treinador que foi passando por mim eu sempre buscava tirar algumas dúvidas, tenho eles ainda em contato até hoje, contou.

O início de Tati foi justamente trabalhando com a "base" na escolinha do Inter. Depois, ela teve a oportunidade de trabalhar no Grêmio, foi coordenadora técnica no Canoas e, ao mesmo tempo, foi buscando cursos para se especializar cada vez mais. Hoje, ela é uma das únicas mulheres a ter todas as licenças de técnico da CBF, faltando apenas a Pro. Em 2017, foi auxiliar na comissão que levou a seleção feminina sub-17 ao Mundial, e depois começou a trabalhar no Internacional. Lá ficou dois anos, conquistou um título do Campeonato Gaúcho e acabou perdendo a semifinal do Brasileiro na segunda divisão para o Vitória no ano passado.

Neste ano, recebeu o convite para ir para a Ferroviária e conseguiu resultados impressionantes. O início ainda foi um pouco irregular, e o time de Araraquara só conseguiu a classificação para o mata-mata do Brasileiro no sufoco, em sétimo lugar. Mas na fase final, a Ferroviária cresceu, eliminou o poderoso Santos (segundo lugar na tabela) nas quartas, depois o Avaí/Kindermann (terceiro lugar na primeira fase) nas semis e pegando o Corinthians na decisão arrancando um empate muito comemorado no primeiro jogo.

"Nossa temporada começou da maneira mais lenta, mas muito pelo entendimento do grupo, era um grupo que estava se formando, eu também estava chegando, fizemos pré temporada de preparação, mas nada melhor do que o jogo pra trazer o entrosamento, as características. Ao longo da temporada, eu consegui ter um time base, buscar as características das atletas dentro daquilo que eu imaginava que era o ideal pra Ferroviária, a gente foi criando corpo, criando confiança, e isso funcionou muito nessa fase mata mate em virtude do crescimento das atletas individualmente e como grupo. Nós crescemos e evoluímos no momento certo", avaliou.

Desafio

Aos 39 anos, Tatiele disputa pela primeira vez um título brasileiro e, mais do que isso, tenta se manter no topo em um mercado que ainda é bastante preconceituoso com as mulheres. Elas ainda são minorias até mesmo no comando de times femininos e muitas vezes sofrem uma pressão ainda maior pelo simples fato de serem mulheres.

"Penso que as maiores dificuldades sempre vêm do preconceito pelo futebol ser um esporte voltado para o público masculino. Mas isso de repente está ficando no passado. Algumas situações acontecem na nossa carreira, mas nunca tive uma situação grave de não poder trabalhar ou de ter sido reprimida de alguma forma. Sempre tive pessoas que abriram muitas portas pra mim e clubes que me deram oportunidade pra iniciar minha trajetória. Ainda tem preconceito, mas a partir do momento que as mulheres têm uma porta aberta, não tenho dúvidas de que elas vão conseguir desempenhar seu papel. Acho que falta oportunidade só", concluiu.

 

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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