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Narradora: 'Entendi que deveria continuar quando só vi homens ao meu redor'

Renata Mendonça

24/09/2019 09h17

Isabelly Morais foi a primeira mulher a narrar um jogo de Copa do Mundo no Brasil (Foto: Reprodução/Fox Sports)

Até dois anos atrás, não se tinha notícias de nenhuma mulher narrando jogos de futebol. Foi no dia 7 de novembro de 2017 que a ousadia de uma rádio mineira "revolucionou" esse cenário. Quando a Inconfidência anunciou que Isabelly Morais narraria a partida entre América-MG e ABC pela série B do Campeonato Brasileiro, a repercussão foi enorme nos quatro cantos do país. A partir dali, houve muito barulho – vindo daqueles que insistiam em dizer que "narração de futebol não era coisa para mulher" – e houve também uma transformação: mais veículos (tanto de rádio, como de TV) começaram a abrir espaço para vozes femininas nos microfones.

Isabelly Morais, uma estagiária de apenas 20 anos de idade, foi a escolhida para levar essa responsabilidade nas costas. Ela aceitou o desafio proposto por José Augusto Toscano, coordenador de esportes da rádio Inconfidência, que queria ver uma mulher narrando jogos de futebol. No estádio Independência, a estudante de Jornalismo fez sua primeira transmissão em 2017, ouviu muitas críticas e também muitos elogios de mulheres que, pela primeira vez, se sentiram representadas ao ouvir um jogo de futebol. E diante da avalanche de comentários preconceituosos, uma coisa a fez ter a certeza de que precisava continuar.

"Eu olhava ao meu redor e pensava: eu vou parar de narrar? E vai continuar só homem narrando aqui? Eu entendi que eu precisava continuar quando olhei ao meu redor e só vi homens e achei que isso não era certo pra gente", afirmou a narradora em entrevista às dibradoras concedida exatamente na cabine onde ela costuma narrar as partidas no Mineirão.

Não foi só a vida de Isabelly que mudou daquele dia em diante. Mudou também, de certa forma, as perspectivas para mulheres que sonham em atuar no Jornalismo Esportivo. A narração se tornou um caminho possível. Ainda faltam oportunidades, mas alguns espaços já foram conquistados desde então. Naquele mesmo ano, por exemplo, a web rádio Esportivas trouxe uma transmissão de Campeonato Brasileiro 100% feminina, com Elaine Trevisan na narração de São Paulo e Bahia no Morumbi. Em 2018, foi a vez da ESPN convidar Luciana Mariano, narradora da TV Bandeirantes por alguns meses em 1997, a voltar aos microfones no 8 de março (hoje ela é contratada do canal). Depois, Fox Sports e Esporte Interativo criaram processos seletivos e trouxeram mulheres para narrar a Copa do Mundo – Isabelly foi a primeira mulher a narrar um jogo de Copa no Brasil – e a Champions League, respectivamente.

Vanessa Riche, Isabelly Morais e a goleira Bárbara fizeram a transmissão de Brasil x Suiça pela Fox Sports 2 (Foto: Fox Sports/Divulgação)

Atualmente, a Fox tem Renata Silveira como narradora fixa, a ESPN tem Luciana Mariano e a Rede Vida tem Elaine Trevisan. A CBF TV também costuma fazer transmissões com mulheres narrando, com Natália Lara e a própria Isabelly Morais.

"As bobagens que um cara vem falar pra mim não podem ser maiores do que aquilo que eu conquistei. É muito difícil ter de lidar com pessoas que não querem sua presença ali, mas quando a gente tira o nosso pé, a gente dá mais espaço para o machismo, e quando a gente volta o nosso pé, a gente escanteia ele", diz.

"Hoje, se falar que eu não posso narrar um jogo, eu vou narrar dois, três quatro e vou seguir na minha contagem. Já tenho mais de 100 jogos".

Veja os principais trechos da entrevista:

~dibradoras: Você já tinha imaginado em algum momento que poderia ser uma narradora de futebol?
Isabelly Morais: Eu imaginava que seria jornalista, mas narrar não. Procurei o chefe de esportes na Inconfidência pra pedir um estágio. Aí ele falou: você topa ser narradora de futebol? No desespero que eu estava, eu topava qualquer coisa. Aí comecei na rádio e fui tudo, repórter, comentarista, apresentadora, produtora, até ele falar: 'para de me enrolar, você vai narrar'. Eu narrei o jogo do América e foi simbólico. Hoje eu não gosto de ouvir essa narração, mas foi muito importante pra mim. Eu coloco um marco muito claro no dia 7 de novembro de 2017. Se eu queria ser jornalista, eu percebi ali que eu poderia ser muito mais.

Foto: Arquivo Pessoal

~dibradoras: Como foi a repercussão daquele dia e o seu processo de se entender como narradora?
Isabelly: Teve uma repercussão muito grande. Ao mesmo tempo que foi uma repercussão positiva, teve uma parte muito complicada de lidar, porque eu tinha 20 anos quando narrei e eu vi gente me xingando gratuitamente porque eu estava narrando um jogo. Coisas complicadas de se ler, de se ouvir. Minha mãe leu. Coisas do tipo 'Tira essa puta daí'. Teve rádio parceira da Inconfidência que cortou a parceria porque tinha uma mulher narrando, tiveram várias coisas. Aí eu ia narrar jogos aqui no Mineirão ou no Independência, eu olhava ao meu redor e pensava: eu vou parar de narrar? E vai continuar só homem narrando aqui? Eu entendi que eu precisava continuar quando eu olhei ao meu redor e só vi homens e achei que isso não era certo pra gente.

Meu primeiro jogo na rádio foi o primeiro da vida mesmo. Eu não gosto por causa disso. Mas depois, eu passei a me entender enquanto narradora e esse é um processo muito bonito. É uma descoberta muito grande que você faz. De segurança de você mesma, do espaço que você está, até olhando ao seu redor. E no meu redor não tinha ninguém que fazia o que eu estava fazendo.

Nos primeiros jogos que eu ficava aqui a minha presença era estranha para as pessoas. As pessoas me olhavam estranho. Eu percebia muito esses olhares. Depois acostumaram. Até porque eu também liguei o foda-se.

~dibradoras: Aí você participou do processo "Narra Quem Sabe" da Fox e foi narrar a Copa do Mundo. Como foi isso?
Isabelly: Quando vi a notícia da Fox, pensei: vou participar. Eram 300, depois foram 6, depois foram 3. Desde o início do projeto, o trato deles com a gente foi muito legal. Foram 9 jogos, desde a abertura até a disputa do terceiro lugar. Eu não sei explicar o que eu vivi.

A exposição na Fox foi também muito grande. E foi legal também o que a gente deixou para o meio. Porque foram transmissões muito sérias, muito boas, e a gente estava ali pra mostrar que a gente poderia fazer tão bem quanto qualquer pessoa, e era o nosso trabalho, sabe? Não tinha distinção. Ver um jogo de uma mulher ou ver o de um homem narrando tinha o mesmo peso de qualidade. A diferença é que a gente estava muito acostumado com homens e não estava acostumado com mulheres – agora vamos ter que acostumar porque é uma realidade.

Vanessa Riche, Isabelly Morais, Eugênio Leal e Nadine Bastos (Foto: Reprodução/Twitter)

Acho que de pontos negativos, o que sempre é uma questão complicada é a reação das pessoas. Mas a grandeza do que a gente fez foi tão incrível que pode falar o que quiser comigo, pode falar que eu não posso narrar, aliás se falar que eu não posso narrar um jogo, eu vou narrar 2, 3, 4, e vou chegar na minha contagem. Tem uns 100 jogos que eu fiz até hoje.

~dibradoras: Qual foi a coisa mais legal que você já ouviu depois que começou a narrar jogos?
Isabelly: Uma vez, eu fui fazer uma palestra na PUC e veio uma aluna de Jornalismo falar comigo que ela estava muito chateada com os posicionamentos do time dela, que ela não se sentia representada. Mas que quando ela me viu narrando a Copa do Mundo, eu devolvi ela para o futebol. São coisas assim que fazem valer a pena.

As bobagens que um cara vem falar pra mim não podem ser maiores do que aquilo que eu conquistei. Eu sei das coisas que eu faço, do quanto eu estudo, me preparo, trabalho, então uma pessoa que eu não conheço não pode menosprezar tudo o que eu vivo. Cada vez que uma mulher tira o pé, a gente perde um espaço. É muito difícil ter de lidar com pessoas que não querem sua presença ali, mas quando a gente tira o nosso pé, a gente dá mais espaço para o machismo, e quando a gente volta o nosso pé, a gente escanteia ele.

Foto: D.A. Press

~dibradoras: Como você vê o futuro da narração feminina?
Isabelly: Acho que falta um pouco mais de espaço. Nesses espaços de grande visibilidade, eu quero mais. Eu senti falta de uma narradora na Copa do Mundo feminina como eu sinto falta em todas as competições. A gente não se vê representada assistindo ao Campeonato Brasileiro, por exemplo. O meio do Jornalismo Esportivo parece que se desenvolveu ao longo dos tempos para não ser um espaço pra gente. É muito difícil lidar com pessoas que não querem a sua presença ali. A gente tem que fazer de tudo pra não sair. Acreditar em si mesmo. Se eu tivesse desistido lá em novembro, eu não teria vivido tanta coisa maravilhosa que eu vivi depois da minha primeira narração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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