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Várzea resgata futebol raiz: mulheres também são protagonistas no terrão

Roberta Nina

10/09/2019 04h00

(Foto: Divulgação / Copa Rainha)

O futebol de várzea é tradição em São Paulo e reúne milhares de meninos, homens, idosos e todo o tipo de apaixonado por esse esporte nos campos de terra espalhados pela cidade. A origem do termo vem do tipo de campo em que o jogo era disputado, sempre em lugares de terra batida, como na margem do rio Tietê. Não deixa de ser uma modalidade da popular "pelada", praticada em todo o país.

Segundo dados do IBGE e PNAD, mais de 15 milhões de pessoas praticam o futebol de forma amadora no Brasil e só na capital paulista existem mais de 400 campos de várzea, cerca de 3.000 times e mais de 75 mil jogadores amadores. A maioria dos praticantes pertencem à classe C.

(Foto: Divulgação / Copa Rainha)

O mais interessante é que, se um dia a várzea também foi ocupada quase que exclusivamente por homens, já há algum tempo o terrão também tem sido um território feminino e, cada vez mais, as mulheres têm tido destaque por ali, tanto dentro, como fora de campo.

Longe dos holofotes da mídia e dos prêmios milionários dos campeonatos renomados, a várzea vem abrindo espaço para elas, que reportam, apitam, treinam e jogam nos campos de periferia da cidade de São Paulo.

Repórter raiz

Vicky Pinheiro é uma delas, que cresceu prestigiando o futebol do pai, goleiro varzeano da equipe de Caieiras e hoje é repórter e comentarista de jogos da várzea. Tudo começou no ano passado, de brincadeira, quando o amigo e narrador Ron Borges a convidou para comentar as partidas enquanto ele narrava. E com um som ligado ali na beirada do campo, Vicky começou a analisar os times que estavam jogando.

Vicky é repórter de várzea desde o ano passado (Foto: Reprodução/Instagram)

Palmeirense e frequentadora assídua de arquibancada, comentar sobre futebol sempre foi algo muito natural para ela e, por conta disso, levar esse conhecimento para a várzea não foi difícil, mesmo que não seja tão simples conhecer os jogadores e esquemas táticos de cada time. "Às vezes nem eles têm uma posição única definida. Para comentar, tem que prestar bastante atenção no posicionamento, quem atua mais no meio-de-campo, quem rouba mais a bola", revelou.

O jornalista Marcelo Mendez, da TVila Sports se encantou ao ver Vicky comentando os jogos da várzea na beira do gramado. Achou muito corajosa e de muita personalidade aquela garota ali, falando alto e em bom som o que via dentro de campo. "Me chamou muito a atenção quando a vi comentando futebol de várzea com microfone aberto pro estádio inteiro ao lado do Ron Borges. Ela tem muita determinação e é uma mulher inteligente. Me propus a ajudá-la em se tornar uma repórter e eu não tinha dúvidas de que daria certo", afirmou Marcelo. 

Aos 26 anos, Vicky participa ativamente de alguns programas, como na web rádio Bate Fundo Esportivo onde é repórter de campo, na rádio Voz do Esporte onde é comentarista sobre o futebol de elite, na TVila Sports onde é colaboradora como repórter de campo e, desde abril deste ano, atua também na reportagem do Desafio ao Galo, tradicional torneio de várzea paulista e que é exibido todo domingo, às 10h da manhã, pela Rede Brasil.

Vicky é formada em Administração, mas cada vez mais tem atuado com comunicação e deseja se especializar na área. Para trabalhar no Desafio ao Galo, a comentarista acredita que conseguiu a vaga por ser habituada com a várzea e por ter uma linguagem com uma pegada mais descontraída.

"Tenho uma sintonia bacana com o Joseval Peixoto (narrador) e eles queriam resgatar aquela nostalgia do torneio, mas de uma maneira reformulada. Durante a transmissão, eu dou opinião sobre a partida, sobre tática, faço brincadeiras, é bem bacana!", revelou.

Vicky vê a várzea como porta de entrada para alcançar vôos mais altos na profissão e espera, um dia, trabalhar em uma grande emissora de TV. É fã de Ana Thaís Matos e admira muito a postura da jornalista analisando esquemas táticos e dando opinião nos programas e transmissões. "Ela não é uma personagem. Ela tem opinião formada e consegue se impor ao lado dos homens."

Além de trabalho, a várzea é também um escape que seu lado torcedora encontra para fugir da atual elitização do futebol brasileiro. "Sempre que vou ao estádio torcer pelo Palmeiras eu sinto falta do Palestra Itália. Não havia barreiras na rua, a arquibancada era de cimento, os ingressos eram baratos. Hoje, até mesmo em alguns setores do estádio, o torcedor é mais quieto, ninguém canta. O público mudou e é isso que acaba me aproximando da várzea, onde ainda existem bandeiras e sinalizadores."

Copa Rainha

Tradicional entre os homens, os campeonatos de várzea também estão surgindo para as mulheres e, pelo segundo ano consecutivo, Fabio Santos de 42 anos tem se empenhado para realizar a Copa Rainha. Começou como um projeto social e com arrecadações e parcerias, o campeonato feminino deste ano terá 24 equipes femininas participando, 10 times a mais do que no ano passado.

Equipes participantes (Foto: Divulgação)

"Na periferia as pessoas não têm muitas oportunidades e o esporte resgata a disciplina e a educação. As meninas ficam longe de bebidas, de cigarros, não ficam ociosas. Dentro de campo, elas jogam umas pelas outras e depois colhem os frutos", afirmou Fábio.

A jogadora Thaisinha, do Red Angels da Coréia do Sul e que já vestiu a camisa da seleção brasileira é madrinha da Copa Rainha e, no ano passado, colaborou com os custos da competição. Apelidado de "Paulo Nobre da Várzea", o empresário do ramo de alimentação, Fábio Loiola, é também um grande apoiador do futebol feminino de várzea e investe anualmente na competição.

Thaisinha é madrinha da Copa Rainha (Foto: Divulgação)

Os jogos acontecem sempre aos domingos e meninas a partir de 14 anos já podem participar. Este sábado (14/9) será a abertura do torneio e o atual campeão, PS9 (equipe da Casa Verde) enfrentará o Real Atlético do Parque Santo Antônio.

"Todas as 24 equipes estarão presentes na abertura e vai ser um grande evento. Para este ano, esperamos premiar o vencedor com R$ 3.500 mil reais e o vice com R$ 1.500. Além disso, vamos fornecer fardamentos para os quatro finalistas", revelou Fabio que está em vias de fechar o Estádio do Pacaembu para acontecer a grande final no dia 10 de novembro com direito a trio de arbitragem feminino também.

A taça da Copa Rainha (Foto: Divulgação/Copa Rainha)

Além disso, a competição conta com um aplicativo disponível para download que leva o nome do campeonato para as pessoas acompanharem os resultados e taça especial para as campeãs. "O troféu é uma réplica da Premiere League, a coisa mais linda", revelou Fabio.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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