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Elas são apenas 3% do quadro: FPF cria curso de arbitragem só para mulheres

Roberta Nina

05/09/2019 10h00

Árbitra paranaense, Edina Alves Batista, realiza teste físico ao lado dos homens para conseguir apitar a Copa do Mundo Feminina em 2019 (Foto: Acervo pessoal)

Atualmente, quatrocentos profissionais fazem parte do quadro de árbitros da Federação Paulista de Futebol (FPF). Um número até bastante expressivo, mas quando o recorte de gênero é feito, o resultado não é nada animador: apenas 14 mulheres fazem parte desse grupo.

Esse número representa pouco mais de 3% do total de homens nessa área e foi justamente pensando em fomentar a participação feminina nos quadro da entidade que a FPF lançou turma exclusiva para mulheres em seu curso de arbitragem. Depois de mais de um mês de inscrições abertas, a nova turma feminina irá iniciar as aulas no dia 21 de setembro.

"Pela 1ª vez, este ano, a gente dividiu as turmas para chamar a atenção das mulheres. Até então o curso sempre foi misto e as elas representavam 5 a 10% de presença. Dessa vez abrimos vagas exclusivas e tentamos fazer uma captação diferenciada. Em menos de um mês, apareceram 70 interessadas e 20 mulheres já haviam confirmado a participação", afirmou ao dibradoras, Carlos Augusto Nogueira Junior, diretor da Escola de Árbitros Flavio Iazzetti que realiza anualmente – desde 1953 – o curso de arbitragem na sede da Federação Paulista de Futebol.

Com essa iniciativa a procura feminina aumentou e, para participar da próxima turma, 53 mulheres se inscreveram. Nas edições anteriores, o número de mulheres nas salas de aula não passava de seis.

A árbitra Edina Alves Batista e as assistentes Neuza Back e Tatiane Sacilotti foram escolhidas pela FIFA para trabalharem na Copa do Mundo FIFA Sub-20 Feminina 2018 (Foto: Kin Saito/CBF)

Divididos em três módulos, o curso tem duração de um ano e meio com aulas práticas, teóricas, simulados físicos, palestras e por fim, o estágio. "A metodologia inclui regras do jogo e outros assuntos importantes inerentes à função da árbitra de futebol, como psicologia esportiva, noções específicas de preparação física, nutrição aplicada ao esporte, gestão financeira, mídias sociais e imagem do árbitro e treinamento físico de alta performance", explicou Carlos Augusto. 

As aulas acontecem aos sábados (das 8h às 12 e das 14h às 18h) e depois de passar pelos modos teóricos (A e B), a árbitra passa a fazer um estágio aos domingos atuando em jogos do sub-11 e sub-13  por cerca de nove meses. Essa primeira turma se formará no final de 2019 e estará apta para trabalhar em 2020.

A FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro) também incentivou mulheres a realizarem o curso de arbitragem (Divulgação)

Para Carlos, o ideal é que as turmas sejam mistas, mas ele entende que o atual momento pede uma atenção maior para a inclusão das mulheres na arbitragem. "Queremos fomentar o futebol feminino, assim como o mundo inteiro está tentando dar mais visibilidade para a modalidade, na arbitragem não é diferente. Nesse momento estamos dando esse primeiro passo para abrir possibilidades e chamar a atenção para essas mulheres que talvez já que quisessem fazer o curso, mas por ser misto, ficavam na dúvida. Agora as oportunidades são exclusivas. Quem sabe com isso, mais pra frente, a gente tenha um número maior de mulheres naturalmente", afirmou.

Inspiração feminina na arbitragem 

A primeira árbitra de futebol reconhecida pela FIFA é brasileira. Ela se chama Léa Campos e no final da década de 60 já havia concluído o curso de arbitragem, mas não tinha tido a oportunidade de apitar uma partida.

Depois dela, foi Silvia Regina quem fez história na arbitragem brasileira. Ela foi a primeira mulher a apitar jogos da elite do campeonato brasileiro masculino, clássicos e competições internacionais, como a Sul-Americana. Em 2008, quando se aposentou, Silvia Regina foi convidada para trabalhar na FPF e para fazer cursos especializados pela FIFA para atuar como instrutora de árbitros e de instrutores também. Ela estará presente durante todo o curso voltado ao público feminino. 

Léa Campos se tornou a primeira árbitra mulher do futebol mundial (Foto: Acervo Pessoal)

"Fiz meu primeiro curso nos anos 80 por curiosidade e fui gostando, participando de jogos amistosos e apresentações. Naquela época era uma coisa extraordinária uma mulher ser jogadora de futebol ou árbitra. Ver uma mulher no campo de jogo era um espetáculo apenas para atrair a curiosidade das pessoas", contou ao blog.

Final da Supercopa da UEFA será apitada pela 1ª vez por uma mulher

Por mais de 20 anos, Silvia Regina apitou jogos amadores e, pela FPF começou a fazer partidas oficiais. Daí em diante, a carreira se projetou muito rápido. Ela relembra que, naquela época, entrava em campo buscando fazer o melhor, sem pensar que se tornaria pioneira ou um exemplo para tantas outras mulheres. E somente quando se aposentou dos gramados é que percebeu que se tornou uma referência.

Ana Paula Oliveira, Silvia Regina e Aline Lambert durante Guarani e São Paulo, em 2003, pelo Brasileirão (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

"Depois que parei de apitar foi que comecei a refletir. Revi meu currículo, as partidas que fiz e parecia que não era eu. Vi aquela mulher apitando clássicos, como São Paulo e Corinthians, com grandes jogadores em campo e aí eu pensei: 'olha o que eu fiz, olha o legado que vou deixar para as pessoas que querem ser árbitros de futebol.' É possível, é só você gostar muito e se dedicar a isso", afirmou.

Além de Sílvia Regina, as mulheres do curso de arbitragem também contarão com a participação especial das árbitras Edina Alves, Neuza Back e Tatiane Sacilotti (que trabalharam em quatro jogos da Copa do Mundo Feminina) nas aulas sobre práticas de jogo e compartilhando situações que já viveram. "Vai ser um diferencial dessa turma", destacou Carlos Augusto.

Primeiro trio de arbitragem de brasileiras na Copa: a juíza Edina Alves e as auxiliares Neuza Back e Tatiane Sacilotti (Foto: CBF)

A própria Silvia Regina, inspiração para muitas mulheres que desejam arbitrar, revelou que admira muito o trabalho que Edina vem desempenhando. Foi a própria Edina quem quebrou um hiato de quase 15 anos, quando voltou a ocupar o posto de árbitra principal em um jogo da elite do futebol brasileiro. Foi em maio deste ano, no estádio Rei Pelé, em Maceió, que a paranaense comandou o jogo entre CSA e Goiás, pela Série A do Brasileirão. 

"Estava na cabine do VAR no primeiro jogo que ela fez e pensei: 'nossa, como essa menina é 800 vezes mais competente do que eu fui, como ela apita bem!' Ela tem todas as características de um excelente árbitro. Vai passar por muitas dificuldades ainda, mas ela tem muita competência para estar lá", opinou.

E são muitas as dificuldades que os árbitros – homens e mulheres – enfrentam na profissão. Mesmo com o incremento do VAR, apitar jogos não é uma tarefa simples e um erro cometido pode marcar pra sempre a vida de um profissional. Se estamos falando de uma mulher então, o peso fica ainda maior e muitas acabam adotando uma postura mais rígida para conseguir impor respeito em campo.

"Sempre falo para as alunas que a maneira como eu fazia não era o correto. E como eu fazia: olhou feio era amarelo, olhou feio duas vezes, era vermelho. Mas não é assim que se deve fazer. Lógico que estou dando apenas um exemplo, mas eu fazia daquela forma porque naquele tempo eu era sempre afrontada e tinha que usar métodos para fazer o jogo correr bem. Os jogadores tinham mais medo do que respeito e não pode ser assim!"

Silvia Regina na FPF (Foto: Rodrigo Corsi/FPF)

Trabalhar o psicológico da árbitra também é fundamental e hoje Silvia Regina transfere suas experiências para as alunas deixando claro que durante a partida não se pode titubear. "Não pode ter medo, tem que saber das regras e controlar o jogo, que é o principal. Você não está lá para afrontar jogadores ou aparecer mais do que eles. Você precisa ter uma força mental muito grande para não estragar o jogo e fazer com que todas suas decisões sejam justas", destacou.

Para Silvia Regina, as mulheres de hoje têm consciência de que é possível exercer a profissão de árbitra, mesmo que a aceitação ainda não seja maior do que anos atrás. "A procura tem sido maior e a preparação delas para estar nesse ambiente também. Hoje elas estão melhores preparadas do que nas décadas passadas."

E justamente pensando nesse preparo ela vê a iniciativa de uma turma exclusivamente feminina como positiva, principalmente no curso introdutório da mulher na arbitragem. "A linguagem vai ser diferente. Vai ser 'de mulher pra mulher', concluiu.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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