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Por que Fernando Diniz incomoda tanto no futebol brasileiro?

Renata Mendonça

19/08/2019 14h56

Foto: AGIF

Quando o Fluminense anunciou Fernando Diniz como técnico da equipe para 2019, logo imaginei que não daria certo. Um clube que vem de uma grande instabilidade política e financeira, que raramente termina o ano com o mesmo técnico que começou – o último a conseguir completar quase um ano no cargo foi Cristóvão Borges entre abril de 2014 e março de 2015 – e que tem uma cobrança por resultados muito acima do que sua realidade econômica e de elenco hoje poderia trazer. E todos sabíamos muito antes do Diniz assumir o Fluminense que ele não é exatamente conhecido por ser um treinador de resultados.

Aliás, no currículo de Fernando Diniz, não são os títulos que chamam a atenção. O que realmente sempre o diferenciou é a forma de pensar o jogo. Um técnico que tem ideias que não deveriam, mas parecem revolucionárias diante do contexto limitado que o futebol brasileiro vive hoje. Um treinador que é criticado justamente por priorizar aquele que deveria ser o principal objetivo do jogo – fazer gol -, em detrimento da estratégia favorita dos times por aqui (não tomar gol).

Diniz foi demitido com um aproveitamento de pouco mais de 49%, após um jogo em que seu time bateu o recorde de finalizações em um único jogo: 33. Mas o resultado que veio disso foi uma derrota para o CSA em casa, a gota d'Água para a diretoria sentenciar seu trabalho a menos de quatro dias de uma partida decisiva contra o Corinthians pela Sul-Americana.

Se for pra discutir resultado, é lógico que a conclusão óbvia seria a demissão de Diniz. E talvez seja justamente essa nossa cultura resultadista que tenha puxado tão para baixo o nível do nosso futebol de clubes aqui. O Palmeiras, que briga pela liderança do Brasileiro e passou pelas oitavas da Libertadores com goleada, teve ameaça de morte da torcida às vésperas de um clássico. Um resultado ruim nas quartas da competição já pode ser o bastante para pedirem a demissão do técnico Felipão.

E talvez seja esse conjunto de fatores – a cobrança pelos resultados imediatos, a pressão da torcida, as ameaças de demissão (e de morte às vezes) – que tenha contribuído para que se exaltasse tanto por aqui o estilo de jogo defensivo, que primeiro não toma gols, para depois eventualmente achar um e conseguir a vitória. Não há como negar que, para os torcedores brasileiros, é melhor ganhar jogando feio do que perder jogando bonito. Talvez seja uma herança maldita da Copa de 1982, mas fato é que se tornou tão raro ver um técnico no futebol brasileiro priorizando o estilo ofensivo, que quando surge alguém fazendo isso, logo vira notícia, vira discussão em mesa de bar, assunto frequente na TV. Fernando Diniz provavelmente não é um gênio do futebol. Ele só é fiel a uma ideia de jogo diferente da que estamos acostumados – e, talvez por isso, incomode tanto.

Quem olhava para o elenco do Fluminense no início deste ano e apostaria que o time ficaria lá em cima na tabela? Também não dá para dizer que esse elenco tem que brigar para não cair, mas as perspectivas reais do clube hoje estão muito mais para isso do que para beliscar uma vaga lá no topo. O Fluminense não consegue pagar os salários dos jogadores em dia, acumula processos trabalhistas, precisa renegociar dívidas para evitar a penhora de bens do clube e, como consequência dessa instabilidade toda, perde muitos jogadores – seja porque eles querem sair, ou porque o Fluminense não tem dinheiro para mantê-los.

Considerando o time que entrou em campo para eliminar o Flamengo na semifinal da Taça Guanabara, o Fluminense perdeu seis titulares: os laterais Ezequiel e  Marlon, o meia-atacante Calazans, os atacantes Everaldo e Luciano, e o volante Bruno Silva. A defesa, setor menos eficiente do Flu (que já era ruim antes dele, diga-se) foi a que menos se reforçou. O Fluminense trouxe Ganso e Nenê, mas ainda não repôs a perda do artilheiro do início da temporada, Luciano, e também tem sofrido com a ausência de Pedro por lesão. Foram 21 contratações no ano, mas já houve também 13 saídas. Tudo isso precisa ser levado em consideração porque, sinceramente, olhando para o elenco do Fluminense, eu esperava bem menos neste ano. Não falando de resultados, mas falando de futebol. O time fazia jogos medonhos em 2018, duríssimos de assistir. A defesa era extremamente frágil, e o ataque sobrevivia com os lampejos de craque de Pedro (não à toa, o time sofreu quando ele se machucou). Neste ano, o Flu fez jogos incríveis para o que se poderia esperar desse elenco – como aquele inesquecível 5 a 4 de virada em cima do Grêmio e os 5 a 2 no agregado contra o Peñarol pelas oitavas da Sul-Americana.

Foto: Lucas Merçon/ Fluminense F.C.

Claro que o resultado pesa. Perder para o CSA, que não havia ganhado um jogo sequer fora de casa em pleno Maracanã, pesa. A zona de rebaixamento pesa e tudo isso deve servir para Diniz refletir sobre como seu time consegue ser tão instável, ceder tanto gols e, mesmo criando inúmeras oportunidades, ser efetivo em pouquíssimas delas.

Mas o que se discute principalmente aqui é por que Fernando Diniz gera tanto desconforto por aqui. Toda semana ele virava assunto, tanto de torcedores do Flu, quanto dos rivais, questionando por que ele seria tão "endeusado" pela imprensa. Minha impressão é que Fernando Diniz tem uma legião de amantes do futebol resultadista torcendo contra ele, comemorando cada derrota e celebrando em êxtase a demissão. O diferente choca, gera desconforto, incomoda.

Se Diniz cumprisse o papel mais comum do técnico brasileiro, de tentar não perder jogos em vez de tentar ganhá-los, provavelmente sofreria bem menos. O que não há dúvidas é que o Fluminense seguirá sofrendo ao longo do ano, venha quem vier para comandar a equipe. O time é bastante limitado e deverá cumprir seu roteiro desenhado para este ano, que é o de brigar lá embaixo e terminar no meio da tabela. Com sorte, vai beliscar algo no mata-mata da Sul-americana – mas com a mudança brusca na semana do jogo, isso fica ainda mais difícil.

Desejo, do fundo do coração, que Fernando Diniz encontre um caminho vitorioso no futebol e cale os tantos críticos que acumulou nos últimos anos. Pela sua coragem e ousadia, ele merece.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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