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Vídeo de novo uniforme gera dúvida: que ano é hoje para o Goiás?

Renata Mendonça

23/07/2019 14h40

Foto: Reprodução

Ver o vídeo de lançamento do novo uniforme do Goiás confunde até mesmo as cabeças mais retrógradas. Tenho certeza de que até os que dizem ter achado a ideia maravilhosa pararam para conferir a data da publicação: teria sido essa mesmo a campanha feita pelo clube em 2019?

Tem gente esperando até agora a pegadinha da história. Não foram poucos os comentários de pessoas no Twitter descreditando a campanha e aguardando o clube soltar o novo vídeo dizendo que aquele anterior era só um alerta, uma forma de chamar a atenção antes de passar a mensagem real do lançamento do uniforme.

É claro que a hashtag "Parabéns Goiás" entraria nos trending topics, reunindo críticas e elogios à campanha. E é óbvio que, dos comentários das matérias sobre esse lançamento, 90% são de homens ressaltando a beleza da propaganda e detonando o chamado "mimimi das feministas". Normal, os preconceituosos não são maioria – mas costumam ser mais barulhentos.

Por muito tempo, deixamos que eles dissessem, pensassem, falassem. Mas não agora, não mais. Relutei muito em escrever esse texto porque não queria dar a atenção que o Goiás pedia com essa estratégia ultrapassada de marketing. Mas esse blog é uma voz também para representar as torcedoras e ele não pode se calar diante de mais essa tentativa de restringir as mulheres do futebol ao único papel que interessa aos homens: o de enfeites bonitinhos para serem admirados, desejados. Enfeites não falam, não debatem, não questionam, existem apenas para serem utilizados pelos donos da maneira que melhor lhes convier.

Esse texto não é uma crítica às mulheres que protagonizam o vídeo. Toda mulher tem o direito de ser o que quiser, de estar onde bem entender e é isso que defendemos. A crítica é ao clube, ao Goiás, por não ter entendido que suas torcedoras merecem mais. As esmeraldinas que vão ao estádio, que gritam para apoiar o time até mesmo nas derrotas, que acompanham o clube faça chuva ou faça sol, não estão representadas na mensagem que esse vídeo passa. Aliás, esse vídeo faz a gente checar o calendário algumas vezes pra conferir se estamos no mesmo ano que o Goiás. Porque enquanto se fala tanto do protagonismo das mulheres no futebol, jogando, torcendo, comentando, narrando, enquanto se exalta o sucesso de uma Copa do Mundo feminina, vem um clube da primeira divisão e lança seu novo uniforme com um vídeo que parece teaser de filme pornô. Só dá pra rir mesmo de quem aprovou essa campanha e achou que ela seria certeza de sucesso.

Talvez o Goiás esteja usando a lógica do "falem bem, falem mal, mas falem de mim", uma tática que com certeza esta dando certo dada a repercussão do lançamento de sua nova camisa. Nunca se falou tanto em um uniforme do Goiás como tem se falado agora. Mas eu não tenho dúvidas de que, mais dia, menos dia, o clube soltará uma nota para pedir desculpas às suas torcedoras – que estão inundando as redes do time de mensagens. E talvez aí finalmente aprenda a lição: o ano é 2019, e as mulheres não vão mais aceitar serem vistas como meros objetos. As torcedoras merecem respeito, merecem voz e merecem muito mais do que o Goiás oferece nessa campanha.

Minha aposta é que em até 24 horas, tenhamos que fazer uma atualização nesse texto com a nota do Goiás. Quem dá menos?

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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