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Pela primeira vez em 16 anos, final da Copa feminina terá duas técnicas

Renata Mendonça

03/07/2019 18h40

Getty Images

A Holanda conseguiu garantir pela primeira vez uma vaga na decisão da Copa do Mundo feminina ao vencer a Suécia na prorrogação nesta quarta-feira. Com isso, a final do Mundial de 2019 terá duas técnicas se enfrentando em busca do título: Sarina Wiegman pela seleção holandesa e Jill Ellis pelos Estados Unidos. É a primeira vez que isso acontece nos últimos 16 anos.

Poderia parecer mais comum que, em edições de Copas do Mundo femininas, mais mulheres ocupassem os cargos de treinadoras e chegassem a decisões no comando de suas seleções. Mas ainda é raro ver equipes nacionais com representantes femininas neste cargo. No início deste Mundial, eram 9 técnicas entre as 24 seleções. Nas quartas-de-final, elas viraram maioria, com cinco delas chegando a essa fase entre os oito classificados. E agora, na decisão, pela segunda vez na história, está garantido que o campeão da Copa do Mundo terá uma mulher no comando. Será Jill Ellis, dos Estados Unidos, ou Sarina Wiegman, da Holanda. Perguntamos à treinadora holandesa na coletiva após a semifinal o que isso representa para as mulheres.

"Estou feliz por estar na final. Acho muito bom que duas mulheres treinem os finalistas, provando que podem ocupar postos de comando, que podem ter coragem para ousar, tomar decisões difíceis. É muito bom ver mais mulheres envolvidas em posições de poder. Mas as mulheres também precisam ter coragem e arriscar estar nessas posições", disse.

A primeira vez que isso aconteceu foi no Mundial de 2003, quando Alemanha e Suécia fizeram a final, ambas comandadas por técnicas. No lado alemão, campeão daquele ano, a comandante era Tina Theune, a primeira mulher a obter licença de treinadora na Alemanha em 1985. Ela antecedeu a lendária Silvia Neid no cargo, conquistou o primeiro título de Copa do Mundo da seleção alemã, dois bronzes olímpicos (2000 e 2004) e três Eurocopas, em 1997, 2001 e 2005.

Já a Suécia era dirigida por Marika Domanski-Lyfors, que foi jogadora da seleção e depois assumiu o cargo de treinadora entre 1996 e 2005. Ela teve uma passagem considerada bem-sucedida, mas acabou batendo na trave na conquista de títulos – ficou com o vice da Euro em 2001 e da Copa de 2003, perdendo a final justamente para a Alemanha. 

Técnica Sarina Wiegman comemora vitória da seleção holandesa (Bernadett Szabo/Reuters)

Desta vez, a final da Copa do Mundo da França terá duas técnicas campeãs e muito admiradas no mundo todo. Jill Ellis é a atual detentora do título com os Estados Unidos, tendo levado a seleção americana à conquista de um Mundial após 16 anos de "jejum". Sarina Wiegman conseguiu um feito inédito e incrível para a seleção holandesa, que tinha pouca expressão no cenário mundial do futebol feminino até 2017, quando conquistou a Eurocopa em casa. Essa é só a segunda participação da Holanda em Copas e, desta vez, a equipe comandada por Wiegman conseguiu o feito de chegar à decisão.

Conheça um pouco das duas treinadoras:

Jill Ellis – Britânica por nascimento, Jill Ellis não teve a oportunidade de jogar bola desde criança. Na Inglaterra, esse ainda era um esporte muito restrito aos meninos, então ela ficava muitas vezes assistindo aos garotos e ao pai, que era técnico de futebol na época, mas tudo isso sem poder "entrar em campo".

Foto: Getty

Quando sua família se mudou para os Estados Unidos, Jill começou a jogar na escola e chegou a ganhar um campeonato sub-19 no time em que o pai era técnico. Sua carreira de treinadora começou nas universidades dos Estados Unidos e foi um pouco por acaso.

Isso aconteceu em 1994. Ficou até 1999 atuando no futebol universitário e aí teve a chance de trabalhar com as seleções de base dos Estados Unidos.

"Ela foi galgando passo a passo e esta onde está por méritos. Não caiu de paraquedas lá", disse às dibradoras Marcia Tafarel, ex-jogadora da seleção brasileira que mora há mais de 10 anos nos Estados Unidos, onde atuou como treinadora e hoje é coordenadora de um clube de base.

O grande mérito de Jill é ter conseguido fazer uma renovação na seleção americana, mesclando os nomes já consagrados e experientes, como os de Carli Lloyd e Megan Rapinoe, com os de jovens promessas do país, como Rose Lavelle que ganhou titularidade nessa Copa. Se em 2017, algumas das atletas pediram a saída da treinadora por algumas divergências, hoje ela parece ter o grupo na mão, promovendo mudanças de posicionamento entre as jogadoras que dão ainda mais velocidade para o time americano.

Sarina Wiegman: A holandesa esteve na primeira Copa do Mundo feminina experimental organizada pela Fifa em 1988. Em seu país, enfrentava bastante preconceito e dificuldades por ser uma mulher jogando bola, e se mudou para os Estados Unidos para jogar lá por um ano. Foi ali que descobriu um lugar que realmente apoiava o futebol feminino e, quando voltou, tinha o desejo de fazer essa ser também a realidade de seu país.

Foto: Matthew Lewis – FIFA/FIFA via Getty Images

Formou-se em Educação Física, começou a trabalhar como técnica de equipes de meninas e, em 2007, ganhou a chance de treinar o ADO Den Haag, onde conquistou Campeonato Holandês e a Copa da Holanda. Aí recebeu o convite para ser assistente do técnico Roger Reijners na seleção holandesa em 2014.

Fez os cursos de licença da Uefa e buscou se preparar para um dia poder subir mais um nível na carreira. Teve oportunidades como interina entre a saída de um e outro treinador, mas foi no início de 2017 que ficou frente à frente com seu maior desafio.

A técnica diz que se sentia preparada para o desafio e finalmente conseguiu levar sua equipe ao tão sonhado título internacional. Não poderia ter sido melhor, a conquista da Euro veio dentro de casa com uma legião de torcedores enchendo estádios e ruas para apoiá-las.

Depois desse título, Sarina elevou o patamar de sua carreira. Foi eleita a melhor treinadora do ano pela Fifa em 2017 e chega a essa Copa credenciada em busca do título.

Histórico de técnicos e técnicas finalistas da Copa do Mundo feminina

Copa do Mundo 2015
Técnica dos EUA (campeão): Jill Ellis
Técnico do Japão: Norio Sasaki

Copa do Mundo 2011
Técnica dos EUA: Pia Sundhage
Técnico do Japão (campeão): Norio Sasaki

Copa do Mundo 2007
Técnica da Alemanha (campeã): Silvia Neid
Técnico do Brasil: Jorge Barcellos

Copa do Mundo 2003
Técnica da Alemanha (campeã): Tina Theune
Técnica da Suécia: Marika Domanski-Lyfors

Copa do Mundo 1999 
Técnico dos Estados Unidos (campeão): Tony DiCicco
Técnico da China: Ma Yuanan

Copa do Mundo 1995 
Técnico da Noruega (campeã): Even Pellerud
Técnico da Alemanha: Gero Bisanz

Copa do Mundo 1991
Técnico dos Estados Unidos (campeão): Anson Dorrance
Técnico da Noruega: Even Pellerud

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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