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As desculpas de sempre e a falta de ambição que assolam a seleção de Vadão

Roberta Nina

28/06/2019 09h34

Gol de Henry na prorrogação eliminou o Brasil da Copa 2019 (Foto: Getty Images)

Em mais uma passagem pelo comando da seleção brasileira, o treinador Vadão e a equipe feminina se despediram da Copa do Mundo nas oitavas-de-final – assim como aconteceu em 2015 diante da Austrália. Desta vez, a derrota foi por 2×1 para a equipe francesa. 

Muito antes da Copa começar, o trabalho do treinador já vinha sendo contestado pelos maus desempenho e resultados negativos acumulados pela equipe nos amistosos preparatórios. Vadão e o time brasileiro foram disputar mais um Mundial levando com eles uma sequência de nove derrotas consecutivas, a pior marca da história da seleção.

E, enquanto a maioria da pessoas não enxergavam um padrão tático no time e faziam questionamentos sobre escalações, lesões e análise dos adversários, o discurso do treinador e da comissão técnica seguiam exatamente iguais ao de anos atrás. Elencamos alguns pontos aqui:

Seleção permanente

Com o intuito de preparar bem a equipe para o Mundial e 2015 e Jogos Olímpicos de 2016, a CBF implantou o projeto da seleção permanente meses antes de começar a Copa realizada no Canadá. Dessa maneira, a entidade custeou os salários das jogadoras que serviram, por cerca de um ano, apenas a seleção feminina.

O resultado foi bem satisfatório, já que as atletas puderam se preparar muito bem fisicamente e se entrosar dentro de campo. Mas essa foi uma medida pontual que buscava um desempenho melhor para a equipe nas duas principais competições da modalidade O Brasil acabou eliminado na Copa do Mundo de 2015 nas oitavas e perdeu a disputa pelo terceiro lugar para o Canadá na Rio-2016.

(Foto: Rafael Ribeiro / CBF)

A seleção permanente acabou há quase dois anos, mas Vadão ainda a utiliza como exemplo para justificar a falta de preparo físico das atletas e explicar as lesões recorrentes que elas apresentaram. "Na minha primeira passagem, a gente tinha a seleção permanente e era muito mais fácil administrar as lesões e deixá-las melhor fisicamente", justificou o treinador em uma das coletivas pré-jogo na França.

Antes disso, em entrevista às dibradoras em março, o técnico já havia usado a mesma desculpa para a queda de desempenho de suas atletas nos amistosos. "Acho que na Olimpíada nós estávamos melhor do que nesse momento. Um dos grandes motivos era que naquela realidade, a gente tinha a seleção permanente. A gente tinha tudo, a preparação física, força, tudo aquilo que as atletas brasileiras precisavam, nós fizemos. A gente tinha um controle muito grande. Que controle a gente tem hoje? Nenhum."

É claro que era muito mais fácil cuidar das atletas naquele época. Muitas abriram mão de contratos em clubes para se dedicarem somente à seleção – como foi o caso de Formiga, Andressinha, a goleira Bárbara e outras tantas. A CBF bancou os rendimentos das atletas e depois da Olimpíada de 2016, o projeto terminou, justamente porque as jogadoras receberam propostas e a maioria delas foi jogar em clubes de fora.

A seleção permanente foi uma iniciativa interessante, mas que precisava ser pontual mesmo, porque não existe nenhum lugar do mundo onde as principais atletas de um país abrem mão de jogar em clubes para ficar somente treinando na seleção. Para que o futebol feminino possa crescer no Brasil, é imprescindível fomentar o desenvolvimento dos clubes por aqui, em vez de concentrar as melhores jogadoras somente na seleção, sem jogar os principais campeonatos do mundo. Sendo assim, não adianta reclamar da ausência de um projeto que não era mesmo viável para ser mantido.

Atualmente com as jogadoras disputando torneios no Brasil e com o fim do calendário europeu, é de se esperar que as atletas não cheguem 100% fisicamente para disputar uma Copa, mas isso faz parte. As outras seleções – tanto masculinas, quanto femininas – também passam por isso, e recorrer à seleção permanente para justificar preparo físico não cola mais.

Clichês justificando a derrota

A comissão técnica de Vadão nunca admite quando não faz um bom jogo. Sempre que possível, o treinador afirma que "as equipes jogaram de igual para igual", como se fosse esse o objetivo a ser alcançado pela nossa seleção: jogar de igual para igual com as favoritas. O treinador esquece que o Brasil já esteve no topo, construiu uma tradição no futebol feminino, tem alguns dos principais nomes da modalidade na história e não deveria se contentar em ficar apenas fazendo jogos "de igual pra igual".

Brasil foi eliminado na Copa do Mundo de 2015 pela Austrália (Foto: Reprodução/Globoesporte.com)

Além disso, as derrotas são sempre justificadas por "aconteceu uma fatalidade", "a adversária achou um gol", "tivemos mais chances claras". Só que nada disso adianta quando é necessário vencer.

É claro que fatalidades e acasos acontecem, mas as desculpas são as mesmas, independentemente do jogo e do adversário. Nunca se ouve "o nosso jogo não encaixou" ou "nosso desempenho foi abaixo do esperado". É preciso vencer para ter confiança. E é preciso querer muito mais do que apenas fazer jogos "de igual pra igual".

Resultados ruins, desempenhos bons

Na mesma linha do tópico anterior, essa justificativa também é usada frequentemente pelo treinador e também pelo coordenador do futebol feminino da entidade, Marco Aurélio Cunha. Questionado pelo blog em abril deste ano sobre o que ainda justificaria a permanência de Vadão no cargo, Marco Aurélio respondeu: "A confiança que possa melhorar e o trabalho que faz, a proximidade da Copa e tudo que já observou aliado à sua experiência como treinador. Não considero o desempenho tão ruim, e sim os resultados. Vários jogos que perdemos jogamos bem".

Brasil x Japão na She Believes Cup em 2017 (Foto: Laura Zago/CBF)

Não foram tantos os jogos que o Brasil perdeu jogando bem, falando especificamente do pré-Copa. Pelo contrário, até mesmo nas vezes em que ganhou – do Japão na She Believes Cup e contra o Canadá em jogo-treino no ano passado –  o Brasil penou. Viu as japonesas tentarem reverter o placar e quase não tiveram chance de ampliar o resultado (foi 2×1 para as brasileiras) e contra o Canadá, Ludmila aproveitou uma bobeada da equipe adversária  fez o único gol do confronto faltando poucos minutos para o jogo acabar. 

A seleção precisa de um comandante mais crítico e que almeje grandes conquistas. Vemos esse tipo de postura em diversas treinadoras – inclusive de equipes melhores que o Brasil – que afirmam, sem nenhum problema, quando sua equipe peca.

A própria Corinne Diacre, em coletiva de imprensa pré-jogo contra os Estados Unidos revelou, sem nenhum pudor, que sua equipe ainda não atingiu o nível que ela esperava na competição. "Temos que focar no jogo, sabemos que não estamos perfeitas desde o início da competição, e amanhã temos que chegar o mais próximo da perfeição. Nosso objetivo é melhorar o que nós já fizemos até agora", revelou a treinadora francesa. 

Sinceramente, não me lembro de ter visto Vadão, comissão técnica e coordenação da CBF fazerem apontamentos desse tipo para falar sobre o desempenho do time feminino. No jogo contra a Austrália nesta Copa, por exemplo, o Brasil chegou a abrir 2 a 0 e tomou três gols e erros defensivos – o técnico, no entanto, considerou essa virada como um "erro acidental" e demonstrou certo conformismo com a derrota. Diante da Itália, recuou o time após o 1 a 0 e não foi buscar o segundo gol que poderia dar a classificação em primeiro lugar do grupo, pegando um adversário menos complicado nas oitavas.

Falta autoanálise, senso crítico e justificativas plausíveis para analisar derrotas, lesões, esquema tático e outros assuntos. A seleção feminina precisa ser comandada por pessoas com ambições e gana de vencer. Jogar de igual para igual, no fundo, não faz diferença nenhuma.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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