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Como a França virou potência e favorita contra o Brasil na Copa feminina

Renata Mendonça

21/06/2019 12h30

Seleção da França (Foto: FIFA)

A seleção francesa será a adversária do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo feminina e chega como favorita para a partida. Não só por estar jogando em casa e contar com o apoio da torcida, mas principalmente pelo trabalho que é realizado para o desenvolvimento do futebol entre as mulheres no país.

Não é por acaso que o time comandado por Corinne Diacre está em quarto lugar no ranking da Fifa do futebol feminino e chegou para esse Mundial sob muitas expectativas de finalmente conquistar um título de expressão na modalidade. O investimento da Federação Francesa com programas especiais para incentivar a formação de clubes de base e profissionais entre as mulheres começou há pelo menos 10 anos. A evolução é nítida: se na primeira participação da França na Copa feminina o país sequer avançou da primeira fase – estava no grupo do Brasil, inclusive, conseguiu um empate com a seleção, mas ficou em terceiro da chave e voltou para casa, em 2011, dois anos após o programa de desenvolvimento, as francesas já conseguiram seu melhor resultado ficando em quarto no Mundial.

A brasileira Lindsay Camila, ex-jogadora e hoje treinadora de futebol, vive na França há mais de 10 anos e acompanhou de perto essa evolução. Ela foi treinadora de categorias de base do Lyon de 2006 a 2010 e hoje é técnica do Terville, equipe principal masculina que disputa a oitava divisão.

Lindsay trabalhou na base do Lyon com Amel Majri (a terceira menina de pé da direita para a esquerda) que hoje está na seleção francesa (Foto: Arquivo pessoal)

"Eles começaram uma campanha para evolução no futebol feminino nacional, foram oferecidos alguns incentivos  aos clubes para eles começarem a investir no futebol feminino. Por exemplo, aqui na França existem 14 divisões de futebol masculino , desde nacional "Ligue 1". Nas divisões menores (masculinas), a partir da quarta, existe uma regra que cada clube pode contratar apenas quatro jogadores por temporada. Mas se esse clube tiver categorias femininas, ele pode aumentar esse número. Se ele tiver time feminino adulto, ganha o direito de contratar mais um jogador para a equipe masculina. Se tiver um sub-17 feminino, mais um. E assim sucessivamente até o sub-11. Eles podem dobrar o número de contratações se investirem no futebol feminino", explicou Lindsay às dibradoras.

Desta forma, a França conseguiu multiplicar as equipes femininas existentes em todas as categorias e fortalecer a base. Assim, mais jogadoras promissoras foram surgindo e alimentando a liga nacional, que se fortaleceu ao longo dos anos. É nela que está também o "melhor time do mundo" do futebol feminino, que é o Lyon, hexacampeão da Champions League.

Foto: CBF

"Quando um clube começa uma equipe feminina, eles têm um 'cupom' no final de temporada para compra de material esportivo para a categoria. Isso é só uma das tantas iniciativas da Federação em desenvolver o futebol feminino. A estrutura toda foi montada aos poucos e  trabalhada para que, em campo, as coisas começassem a melhorar e acontecer. Depois dessa iniciação, a seleção Francesa não ficou de fora de nenhum campeonato mundial , europeu ou Olimpíada", pontuou a treinadora.

A maior diferença em relação ao Brasil, por exemplo, é a estrutura que as francesas desenvolveram para o futebol feminino de base. O país tem clubes com categorias desde o sub-7 e campeonatos para as meninas disputarem desde essa idade. No Brasil, o primeiro torneio estadual de base surgiu em 2017, com o Paulista sub-17, e a primeira competição nacional para as mais novas acontecerá neste ano com o Brasileiro sub-18. Abaixo disso, não há competições exclusivamente femininas no campo. E meninas abaixo dos 14 têm pouquíssimas opções de clubes femininos para jogar.

Foto: arquivo pessoal

"Aqui (França) tem campeonatos sub-7, sub-9, sub- 11, sub-16, sub- 18 e adulto. Até o sub-16 são todos regionais, sub-16 e sub-18 são estaduais e sub-19 é nacional. Aí vai para o adulto", contou Lindsay.

No adulto, são sete divisões para as mulheres jogarem. E toda essa estrutura contribuiu para que a França quase quadruplicasse o número de jogadoras registradas nos últimos sete anos. Em 2012, eram cerca de 50 mil apenas. Hoje, esse número ultrapassa os 180 mil.

Já no Brasil, não se tem uma ideia exata da quantidade de mulheres que jogam futebol. Por não existir uma estrutura de base formada, não se sabe ao certo quantas meninas estão registradas em clubes nessa categoria. No profissional, entre as atletas que disputam competições nacionais e estaduais, são 3.600. Não há um controle formal das atletas que disputam ligas municipais ou organização por entidades privadas.

Foto: Getty

Brasil nunca ganhou da França

A organização e estrutura da França para o futebol feminino reflete nos resultados dentro de campo. Dos sete confrontos da seleção francesa contra o Brasil de 2003 pra cá, elas saíram vitoriosas em cinco oportunidades e houve também dois empates. As brasileiras tentarão a primeira vitória nessas oitavas de final diante das donas da casa.

A força da França vem impulsionada pelo entrosamento do time. Seis das 11 titulares jogam juntas no Lyon. E o fato da maioria das francesas da seleção jogar no próprio país também é fruto da estrutura oferecida por lá.

"Tive a honra de pode trabalhar com 4 delas (das jogadoras francesas), no sub-15, sub-17 e sub- 19 do Lyon. Trabalhei com: Amel Majri, Ève Périsset, Pauline Peyraud-Magnin e alguns treinos com Wendie Renard. A seleção Francesa é uma potência sem nunca ter ganho um título de expressão no cenário mundial, tem um dos melhores campeonatos do mundo, tem para mim o melhor time do mundo, e o trabalho da federação Francesa nos últimos anos (até mesmo antes da candidatura para o mundial) tem sido excelente para as mulheres", avaliou Lindsay Camila. 

Foto: arquivo pessoal

"É um time que se conhece MUITO, todo o lado esquerdo joga junto no OL (Olympique Lyonnais).
Elas têm uma variação tática grande durante o jogo, jogando desde 4-3-3 até o 4-2-3-1, conforme a posse de bola e a transição do ataque para a defesa. As laterais atacam bastante sendo que a lateral esquerda Amel joga no seu clube como ponta esquerda e é muito habilidosa, corta muito para o meio fazendo a infiltração ou o 1,2 com Eugenie Le Sommer, e essa formação tem mais de 7 anos.
As atacantes Diani, e Cascarino, são rápidas e podem desequilibrar de uma hora para outra, as meias Bussaglia, e Henry têm uma experiência grande em outros campeonatos e clubes , e estão na seleção há MUITO tempo", analisou a treinadora, destacando que o ponto forte da seleção francesa é também esse entrosamento.

"Para jogar contra elas, é preciso pressionar na marcação para impedir que elas tenham a posse de bola que sempre têm, são jogadoras habilidosas que driblam fácil, então precisa reduzir o espaço delas e antecipar para evitar que elas tenham essa liberdade  para jogar como gostam".

Mas há um ponto fraco destacado também por quem acompanha a seleção francesa há algum tempo. Elas costumam ter uma fraqueza psicológica que muitas vezes custa eliminações, como aconteceu na Eurocopa, diante da Inglaterra, e na Olimpíada contra o Canadá.

Foto: dibradoras

"O fator psicológico atrapalhou nas últimas grandes competições. Mas a treinadora atual traz experiência tanto como atleta de Mundial, quanto como treinadora do futebol masculino, e isso é um elemento a mais para que essa conquista venha. Sem contar no fator casa, que também pode ser  importante nesse aspecto", concluiu Lindsay.

Diante desse cenário, a França chega como favorita por tudo o que fez pelo futebol feminino na última década. Nesse aspecto, o Brasil ainda está correndo atrás. A seleção, porém, tem muitos talentos que podem fazer a diferença dentro de campo. De todas as formas, é preciso aprender com a França para que os talentos nascidos no Brasil se multipliquem e sejam melhor aproveitados.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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