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O polêmico Charlie Hebdo na Copa feminina: ‘Não é engraçado, é irritante’

Renata Mendonça

13/06/2019 06h34

Foto: reprodução

O jornal satírico francês Charlie Hebdo lançou mais uma polêmica nesta semana. Desta vez, para falar da Copa do Mundo de futebol feminino, que acontece na França, a publicação usou uma imagem um tanto quanto controversa.

A capa traz o desenho de uma vulva com uma bola de futebol no meio e os dizeres: "Nós vamos comê-la por um mês". Como não poderia deixar de ser, a repercussão foi grande nas redes sociais do mundo inteiro.

"É incrivelmente vulgar", afirmou a CNews, que decidiu censurar a capa. O assunto dominou também o Twitter com muitas mulheres e homens criticando a abordagem do Charlie Hebdo sobre o futebol feminino. O tenista francês Lucas Pouille se manifestou por lá: "Como pode ser tão burro? Vocês são uma vergonha", escreveu, mas depois acabou apagando o tuíte.

Conversamos com uma jornalista local que e editora do France24 no país para entender o contexto da capa, considerada misógina por muitos.

"É um jornal satírico conhecido por suas capas polêmicas. Essa gerou bastante críticas. Alguns dizem que é sexista, outros dizem que o papel desse jornal é fazer caricaturas políticas e que essa foi apenas grosseira", afirmou Kethevane Gorjestani às Dibradoras.

O Charlie Hebdo já gerou polêmicas antes por sua forma de retratar de forma satírica o profeta Maomé . Em 2015, a redação do jornal sofreu um ataque  que matou 12 pessoas e a justificativa dos extremistas responsáveis pelo massacre foi justamente as sátiras que eram feitas com líderes islâmicos, entre eles Maomé.

Isso acabou sendo usado agora também para "defender" a capa polêmica da vez.

"Também teve gente que apoiou dizendo que 'se eles podem fazer piada com o profeta, as pessoas não deveriam se sentir ofendidas com isso'", contou a jornalista do France24.

O editorial do jornal questiona se "o futebol feminino também vai precisar participar da idiotização das multidões para ser levado a sério igual ao futebol masculino". 

Sexualização

Para Kethevane Gorjestani, o problema da capa é que, para falar de mulheres, ela recorre à sexualização de sempre. A jornalista considera "irritante" que quando o assunto é relacionado ao "feminino" o primeiro recurso de abordagem seja sempre o sexual.

"Não considero nem um pouco apropriada essa capa. Não vejo nenhum valor satírico nela, não acho engraçada e acho que é irritante ver como sempre recorrem ao sexo para falar sobre mulheres", opinou.

Essa foi uma crítica comum que as mulheres fizeram ao jornal. Justamente questionando a forma objetificada com a qual o Charlie Hebdo abordou a temática do futebol feminino.

"É a coisa mais asquerosa que vi em meus seis anos de jornalismo. Uma mulher é muito mais que sua vagina. E considero a Copa do Mundo feminina muito mais interessante que a dos homens", afirmou uma usuária do Twitter.

Em um momento de tamanho sucesso da Copa feminina – tanto na França, quanto no resto do mundo -, uma capa dessa vem para "causar" e gerar polêmica, sem sombra de dúvidas. E, é sempre importante lembrar que uma piada só é engraçada quando todo mundo ri. Se tem alguém constrangido com ela, é porque não é piada, é uma situação inadequada.

Foto: reprodução

Diante dos estádios lotados, os bares franceses enchendo para torcer pela seleção feminina do país, o clima envolvente que se tem criado nos estádios, é triste que o aspecto a ser ressaltado pelo Charlie Hebdo seja esse: um desenho de cunho sexual com uma frase grosseira. A graça a gente está procurando até agora.

Mas é importante dizer que, entre as publicações francesas, essa foi a exceção. Todas as outras estão tratando o futebol feminino com respeito e com a visibilidade que as jogadoras merecem.

Todas as capas desta quinta-feira tratam da vitória francesa sobre a Noruega, a segunda na Copa feminina. O resto deixa pra lá.

Sobre as autoras

Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Renata Mendonça é apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Dibradoras