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O que a seleção feminina precisa fazer para ganhar da Austrália

Renata Mendonça

12/06/2019 16h28

Foto: CBF

A pergunta que não quer calar. A seleção brasileira não vence a Austrália desde a Olimpíada de 2016, quando eliminou as australianas nos pênaltis, com direito a duas defesas de Bárbara nas cobranças. Nos amistosos que se sucederam, tanto em 2017 sob o comando de Emily Lima, quanto em 2018 sob o comando de Vadão, foram só derrotas. E podemos dizer que a rivalidade recém-criada entre as duas seleções se acirrou.

A principal diferença entre os dois times é que o Brasil chegou a essa Copa do Mundo feminina muito mais pressionado pela sequência de maus resultados, enquanto a Austrália, mesmo tendo trocado o técnico em fevereiro deste ano, chegou empolgada por uma melhora nas performances em campo, fazendo frente a seleções favoritas como os Estados Unidos – o amistoso entre os dois times em abril acabou com a vitória americana por 5 a 3, mas teve as australianas na frente por algumas oportunidades.

Analisando de fora os últimos jogos, a Austrália parece um time mais pronto que o Brasil, em que os acertos costumam superar os erros. Vendo os jogos da seleção brasileira em 2019 e também o Torneio das Nações no ano passado e os amistosos que fecharam a temporada, o que se percebe é que os erros ainda não estão sendo minimizados. Por exemplo, os erros de passe. A comissão técnica afirmou antes do embarque da seleção para a França que os erros de passe tinham chegado a 27% – na época da Olimpíada, não costumavam passar de 10%.

Isso implica em duas coisas: primeiro num ataque que não consegue chegar, porque algum passe sai errado antes das atacantes chegarem mais perto do gol; e segundo numa defesa que acaba muitas vezes exposta, porque quando se erra um passe, isso gera uma oportunidade de contra-ataque para as adversárias em uma situação mais fácil para elas, já que a nossa defesa ainda vai precisar se recompor.

O esquema que Vadão tem usado (4-2-4) costuma deixar a defesa ainda mais exposta porque tem quatro jogadoras no ataque e só duas no meio. Um dos problemas até mesmo do jogo contra a Jamaica foi justamente esse: ver as adversárias roubarem a bola, saírem em velocidade, enquanto a defesa brasileira tenta correr atrás do prejuízo.

A ideia de jogo do treinador é baseada na velocidade pelos lados do campo. Por isso, o time costuma trabalhar com passes mais longos, saindo da defesa e já conectando com o ataque, sem passar muito pelo meio-campo. Na Copa de 2015, quando o Brasil tinha a seleção permanente com as jogadoras treinando sempre juntas, isso funcionava bem, porque a margem de erro de passe era baixa. Mas recentemente, a equipe tem errado demais esses passes, e perdendo a bola numa região perigosa.

Contra a Jamaica, o Brasil conseguiu chegar mais no ataque não só pela fragilidade do adversário, mas também porque colocou a bola no chão e foi armando a jogada com calma, de pé em pé, da defesa até o ataque. Passes mais curtos costumam ter uma porcentagem de acerto maior, e isso permitiu que a seleção fosse mais efetiva no ataque.

Para o jogo contra a Austrália, Vadão afirmou que deve mudar de estratégia pelo fato de as adversárias pressionarem mais a saída de bola.

"Contra a Jamaica, nós podíamos sair jogando, romper as linhas de pé em pé porque não havia uma pressão grande. A Austrália pressiona muito mais. Hoje a gente treinou alguma coisa em relação a sair jogando. Mas vai ter momento em que não vai dar pra fazer isso", disse Vadão.

Só que forçando passes mais longos, o Brasil tem maior tendência a errar (como estava errando nos amistosos pré-Copa) e a perder a bola para as australianas, que também contam com um estilo veloz de jogo, usando passes longos (porém precisos) para se aproximar da área  adversária.

E o problema de jogar contra uma seleção forte e veloz é que ela costuma ser muito eficiente nas oportunidades que tem. Por isso, o segredo para vencer a Austrália passa muito por diminuir a quantidade de erros que têm sido cometidos nos passes. E para diminuir o erro de passe, uma boa estratégia seria parar de forçar os mais longos e apostar no toque de bola, que sempre foi característica da seleção brasileira, ainda mais com jogadoras do calibre de Marta, Cristiane e Andressa Alves em campo. Além disso, ainda tem uma meio-campista de qualidade vimo-nos Andressinha no banco, e as opções de Geyse e Ludmila para acelerar o jogo pelas pontas no segundo tempo, quando as australianas tendem a estar mais cansadas pelo ritmo que vão imprimir na etapa inicial.

Seleção brasileira foi derrotada pela Austrália nas oitavas de final da Copa de 2015 (Foto: Reuters)

Diminuindo os passes errados, o Brasil diminui também os riscos de deixar a defesa exposta para as velozes australianas chegarem ao gol. Além disso, a Austrália também comete erros defensivos e dá para se aproveitar disso com a nossa qualidade de ataque.

No aspecto da defesa, é preciso ainda diminuir os espaços no campo – que já foram muitos contra a Jamaica. Do lado direito, Letícia acaba subindo para apoiar o ataque e o lado dela fica sem cobertura – vamos lembrar que são só duas jogadoras no meio para dar conta de tudo, Thaísa e Formiga. Com isso, alguma zagueira tem que subir pra cobrir e isso vai deixando os buracos em toda a defesa.

Se são 4 atacantes, o ideal seria que as laterais subissem menos e fizessem uma maior proteção do meio para trás. No esquema que Vadão escolhe para jogar, precisa de uma organização melhor na linha defensiva para que o time não fique completamente exposto.

Barbara foi a heroína da vitória sobre a Austrália nos pênaltis em 2016 (AFP PHOTO / GUSTAVO ANDRADE)

E, para terminar, alguns erros graves que o Brasil cometeu nos últimos jogos contra a Austrália (e contra outros adversários fortes) foram na marcação das bolas paradas. Isso é um ponto forte da Austrália, e a seleção tomou dois dos três gols na derrota por 3 a 1 para elas no ano passado assim.

Nesta quarta-feira, a goleira Bárbara esteve na coletiva e disse que o foco desse último treino da seleção foi justamente nos erros que o Brasil tem repetido em campo.

"A Austrália é um time muito bom, agressivo, e foram nossos erros que nos fizeram perder nos últimos confrontos contra elas. Então trabalhamos pra consertar isso no treino. Fizemos os últimos ajustes para minimizar esses erros", pontuou a goleira.

Com esses erros minimizados, dá para acreditar que podemos ter melhor sorte que as australianas desta vez e terminar a quinta-feira com a classificação garantida.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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