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Campeã olímpica em xeque com troca de técnicos: como Alemanha chega à Copa

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2021-05-20T19:06:29

21/05/2019 06h29

Foto: Fifa

*Por Juliana Arreguy

Duas Copas do Mundo, oito Eurocopas, três medalhas de bronze e o ouro olímpico da Rio 2016. A lista de títulos da Alemanha deposita altas expectativas sobre a seleção no Mundial da França, que se inicia em menos de um mês. Apesar do currículo polpudo, a realidade da equipe envolve três mudanças no comando técnico em pouco mais de dois anos e coloca o time à prova com apenas quatro amistosos sob a batuta da nova treinadora, Martina Voss-Tecklenburg.

A saída da técnica Silvia Neid, em 2016, representou o fim de uma era. Para contextualizar, é importante entender o histórico dela na seleção: como jogadora, foi capitã nas Copas de 1991 e 1995 e, como treinadora, comandou o bicampeonato em 2007, o bronze na Olimpíada de Pequim (2008) e o ouro na Rio-2016. É a treinadora que esteve mais vezes no comando de uma equipe feminina em Mundiais e, não bastasse, é quem tem mais prêmios da Fifa como melhor técnica da modalidade (2010, 2013 e 2016).

O trabalho de Steffi Jones, que assumiu o posto logo após a conquista olímpica, não surtiu efeito a longo prazo: foi dispensada em março de 2018. A Federação Alemã justificou a mudança por uma "questão de resultados"; a lista envolve a eliminação da Eurocopa de 2017 nas quartas (com derrota para a Dinamarca), atuações abaixo da média nas eliminatórias da Copa (incluindo uma derrota para a Islândia) e a participação no torneio amistoso She Believes, em 2018, sem nenhuma vitória.

"A grande diferença entre a equipe que venceu a Olimpíada e o time eliminado na Eurocopa está na atitude das jogadoras. Com a Steffi Jones, o time não tinha plano de jogo definido, enquanto o grupo que foi campeão olímpico, mesmo com limitações em algumas partidas, sabia como se superar dentro de campo", observa Bruno Bezerra, que acompanha a modalidade no país desde 2007 e é colaborador do site Planeta Futebol Feminino.

Cara nova

A Alemanha passou o restante de 2018 com Host Hrubesch, que também já treinou a seleção olímpica masculina, como técnico interino; foi sob o seu comando que as jogadoras garantiram a classificação para o Mundial na França.

Ao fim de novembro, foi anunciada a contratação de Martina Voss-Tecklenburg, outra ex-jogadora da seleção (1991-1999), para treinar a equipe. Seu histórico como técnica da Suíça entre 2012 e 2018 rendeu, em 2015, a primeira participação das suíças em uma Copa do Mundo. O estilo de jogo de Tecklenburg, na visão de Bezerra, segue a filosofia usada por Neid e pode render bons frutos.

"Com Silvia Neid, o time parecia mais definido em suas iniciativas em campo, diferente do que ocorreu com Steffi Jones. Agora, com Martina Voss Tecklenburg, a equipe volta a ter um estilo de jogar semelhante ao da Neid, inclusive utilizando o mesmo 4-2-3-1 que ela utilizava. O time passou a ser mais agressivo quando não tem a posse de bola, pressionando a saída das adversárias, e com as laterais subindo mais ao ataque", avalia.

Silvia Neid ganhou tudo com a seleção alemã (Foto: Getty)

O que pode dar errado?

Conduzida por Tecklenburg, a Alemanha chega para a Copa com apenas quatro amistosos disputados em 2019 — o último deles, contra o Chile, será no dia 30 de maio. Até o momento, as três partidas disputadas envolveram duas vitórias (contra a França, por 1 a 0, e diante da Suécia, por 2 a 1) e um empate por 2 a 2 com o Japão.

Segundo Bezerra, as poucas demonstrações do coletivo são minimizadas pelo fato de quase todas as atletas da seleção jogarem no próprio país. "Sem o entrosamento necessário isso pode ser prejudicial, mas elas atuam em sua grande maioria em clubes da Frauen Bundesliga, então se conhecem bem", explica.

Em contraponto, Bezerra aponta que houve uma queda na qualidade do campeonato nacional, o que pode ser um problema para as atletas; na Copa, algumas adversárias vêm de ligas competitivas que ganharam força e investimento, como nos casos de França, Inglaterra e Estados Unidos.

"A Frauen Bundesliga tem perdido o prestígio de temporadas anteriores: o nível técnico deu certa decaída e os públicos tornaram-se decepcionantes. Mas, de toda a forma, continua sendo uma das principais ligas europeias do velho continente", diz.

O peso da camisa

Vitoriosa nas Copas de 2003 e 2007, em dobradinha única no histórico dos Mundiais femininos, a Alemanha integra um seleto grupo de campeãs que inclui também os EUA (com três títulos), Noruega e Japão (um título cada). Na Copa de 2015, foi eliminada pelas americanas na semifinal e ficou com o quarto lugar após derrota para a Inglaterra.

Se a aposta da seleção que levou o bicampeonato era na força do elenco, para o Mundial de 2019 o maior trunfo da equipe está nas atuações individuais.

"O grande diferencial da equipe bicampeã mundial em 2003 e 2007 era um coletivo muito forte. Além disso, era uma seleção que não sofria tantos gols e era bastante eficiente no ataque. Na atual equipe, a defesa já não é tão forte como a dessa geração, mas o time possui mais talentos individuais que nos times de 2003 e 2007. Nenhuma característica evidente se repete, já que essa seleção alemã usa menos jogo direto e mais jogadas trabalhadas", comenta Bezerra.

Nova técnica assumiu recentemente a seleção alemã (Foto: Fifa)

Da lista das 23 convocadas, divulgada nesta terça-feira (14), despontam nomes conhecidos como a atacante Alex Popp (Wolfsburg) e a meia Dzsenifer Marozsán (Lyon). A jogadora mais experiente, Lena Goessling, é a única com mais de 30 anos no elenco.

Sem ver nenhuma surpresa no elenco que vai à França, Bezerra cita outros dois nomes como destaques.

"A meio campista Giulia Gwinn e a atacante Lea Schuller podem ser as grandes surpresas desse time e principais apostas para esse mundial. Gwinn é do Freiburg, mas irá ao Bayern de Munique temporada que vem, já a Schuller joga no SGS Essen", alerta.

A estreia da Alemanha pelo grupo B será diante da China, no dia 8 de junho. As outras adversárias serão Espanha (12/06) e África do Sul (17/06).

"Com um time renovado, a seleção deve passar de fase e é favorita no caminho até as semifinais, apesar de ter jogos duros pela frente. A Espanha tem um bom time, assim como China e África do Sul. São três equipes bem organizadas", completa.

É importante destacar também o vídeo feito pela seleção alemã para promover a equipe feminina no Mundial da França. Com o intuito de contar uma história ainda desconhecida pela maioria dos alemães, a campanha fala sobre os preconceitos que as mulheres enfrentaram para jogar futebol na Alemanha e termina com a frase emblemática: "está tudo bem, vocês não precisam saber quem somos, só precisam saber o que queremos. Queremos jogar nosso próprio jogo".

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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