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Só o Real Madrid de Di Stéfano conseguiu feito de Lyon na Champions

Renata Mendonça

2018-05-20T19:17:20

18/05/2019 17h20

Foto: Reuters

O Lyon foi mais uma vez campeão da Champions League, desta vez vencendo o Barcelona na final com direito a "chocolate" (4 a 1 no placar), e confirmou sua hegemonia absoluta na Europa. Esse foi o tetracampeonato consecutivo do clube francês na competição e o sexto na história. Não há nenhum clube entre as mulheres que tenha conseguido o feito. E, entre os homens, só o Real Madrid do lendário Di Stéfano fez algo parecido.

Na década de 1950 e 1960, o Real Madrid reinou absoluto no continente europeu. Mais precisamente de 1955 a 1960 foram cinco títulos consecutivos do time espanhol na Champions League. O Lyon, no feminino, está trilhando o mesmo caminho e, até aqui, já garantiu o tetra de 2016 até 2019. Contra Wolfsburg e PSG nas temporadas 2015-2016 e 2016-2017, o título veio com vitória apertada nos pênaltis. Mas nos últimos dois anos, foram goleadas – e exatamente pelo mesmo placar, 4 a 1, primeiro sobre o Wolfsburg na prorrogação no ano passado e agora sobre o Barcelona, com os 4 gols franceses tendo sido marcados no primeiro tempo.

E olha que o time catalão não fica tão atrás assim do Lyon em termos de investimento. O Barcelona tem pelo menos sete jogadoras que têm boas chances de estarem na Copa, como por exemplo a goleira espanhola Paños, a atacante Pina e a meio-campista Putellas, todas da Espanha, a meia-atacante Andressa Alves, do Brasil, as atacantes Toni Duggan, da Inglaterra, e Oshoala, da Nigéria, além da meia holandesa Lieke Martens. Mas mesmo com esse timaço, o Barça não viu a cor da bola no primeiro tempo e foi engolido pelo Lyon.

Foto: Getty

Há que se explicar o fenômeno do time francês, que tem a jogadora bola de ouro, Ada Heherberg como principal destaque – ela fez três gols nessa final, que constrói uma hegemonia aparentemente inabalável no cenário europeu. Claro que o elenco é fortíssimo, com pelo menos nove jogadoras selecionáveis – a maioria da França. Craques absolutas que representarão o país sede da Copa do Mundo, como a zagueira Renard, a meia Amandine Henry e a atacante Le Sommer. Ainda tem a lateral inglesa Lucy Bronze, a zagueira canadense Kadeisha Buchanan, a meia japonesa Saki Kumagai, a camisa 10 alemã Marozsán, a atacante argentina Sole James e, claro, a artilheira absoluta, a norueguesa Ada Hegerberg.

Mas não é só o plantel de qualidade que faz o Lyon disparar na frente dos outros no cenário do futebol feminino. O que ajuda também a explicar essa hegemonia é que esse investimento não começou ontem. A capitã do Barça explicou um pouco por que a equipe francesa se tornou "o time a ser batido" na Europa de uns tempos para cá.

"Nos últimos anos, eles foram um dos primeiros clubes a investir no futebol feminino. Por isso eles estão no topo. Eles têm uma série de qualidades, mas não são invencíveis", afirmou Vicky Losada, na véspera da partida.

O Lyon nasceu oficialmente em 2004 como "Olympique Lyonnais" feminino e de lá para cá conquistou 13 títulos do Campeonato Francês consecutivos -, 9 Copas da França, sendo seis consecutivos, e seis Champions League (4 consecutivas). Mais do que isso, o Lyon perdeu apenas DOIS JOGOS nas últimas nove temporadas da liga nacional francesa. 

Foto: Getty

O investimento e atenção com o futebol feminino é tanto  por parte do Olympique Lyonnais que os principais jogos da Copa do Mundo deste ano serão em Lyon.  Semifinais e final serão sediados no Parc Olympique Lyonnais, com capacidade para mais de 59 mil pessoas.

Todo esse domínio no futebol feminino fez até mesmo um dos principais jornais do mundo, o "The New York Times" fazer uma reportagem na última sexta-feira com o título "O time mais dominante do mundo não é o que você pensa". A matéria faz um comparativo do Lyon com Real Madrid dos últimos anos (tricampeão da Champions, mas que não manteve o mesmo alo nível nas competições locais), o Barcelona (conquistou 8 dos últimos 11 títulos espanhóis, mas não é campeão europeu desde 2015), o New England Patriots, com três vitórias nos últimos 5 Super Bowls disputados, o Golden State Warriors, que pode ser tricampeão da NBA neste ano de maneira consecutiva. E todos eles não chegam à supremacia absoluta do Lyon.

Isso fez com que o clube francês atingisse um outro nível no futebol feminino. Hoje, ele é objeto de desejo das melhores jogadoras do mundo. Não se diz não ao Lyon. E, ainda assim, jogadoras como Lucy Bronze descrevem o ambiente interno como "bastante tranquilo", sem qualquer briga de egos. Ela diz que "nunca conheceu pessoas com tanta humildade", como viu as jogadoras superestrelas do time francês. Tudo isso vai alimentando um clube que se sobressai a todos os outros.

"Alex Morgan foi para a França para crescer como jogadora todos os dias. Ela conseguiu isso jogando com as melhores jogadoras do mundo todos os dias. Conquistar campeonatos era maravilhoso, a estrutura de treino era de primeira, mas o segredo do sucesso ali é justamente acumular tantas jogadoras incríveis. Elas criaram o ambiente perfeito de treino", relatou o empresário de Morgan, Dan Levy, ao "The New York Times.

Foto: Reuters

No Lyon, há exatamente a mesma estrutura de treino e preparação física para a equipe masculina e feminina. Elas têm acesso aos mesmos equipamentos que eles e recebem do presidente e dos dirigentes a mesma atenção que eles.

"O Lyon não é perfeito, mas tem muita coisa que outros clubes não têm. Os meninos e as meninas crescem e aprendem juntos na escolinha da base, então os jogadores acabam mais integrados. O sucesso de um dos times não é visto como uma ameaça ao outro. Eu nunca vi isso em outro lugar. Em geral, os homens são vistos em um time de futebol como os 'superstars' enquanto as mulheres não são encaradas com a mesma importância", afirmou a lateral Lucy Bronze.

Não é à toa que o Lyon consegue a maior hegemonia da Europa no futebol após a era Di Stéfano no Real Madrid. É difícil saber por quanto tempo isso vai continuar, porque cada vez mais clubes europeus estão investindo no futebol feminino com o objetivo de derrubá-lo do topo. Mas o exemplo dado pelo clube francês é o melhor possível.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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