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Mulheres finalmente estão sob holofotes, mas ainda convocadas por homens

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16/05/2019 17h00

(Foto: Laís Torres/CBF)

Por Renata Mendonça e Roberta Nina 

Falta menos de um mês para a estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo Feminina e, nesta quinta-feira, o técnico Vadão convocou as 23 jogadoras que irão para a França em busca de uma conquista inédita. O treinador, que também foi o comandante do Brasil na Copa de 2015, mudou poucos nomes com relação ao torneio de quatro anos atrás: apenas oito jogadoras diferentes.

O que também não mudou foi a gestão do futebol feminino na CBF, que segue comandada por homens – e homens que não haviam atuado no futebol feminino antes de chegar à seleção. Algo impensável de acontecer, de maneira contrária, no futebol masculino. Assim como em 2015, as mulheres foram convocadas para a mais uma Copa por homens.

O anúncio das convocadas

Este ano, o anúncio das jogadoras que irão representar o país no Mundial foi bem diferente do que aconteceu em 2015, quando o anúncio das atletas foi feito apenas pelo site da CBF, sem a necessidade de qualquer coletiva de imprensa com o treinador. Na época, não havia tanto interesse da mídia nessa cobertura. Além disso, o Brasil chegou ao Canadá quatro dias antes de sua estreia e não fez qualquer aclimatação no país da Copa.

Desta vez, tudo foi diferente. Uma coletiva de imprensa foi organizada pela CBF em sua sede e muitos jornalistas marcaram presença. De quatro anos para cá, o futebol feminino cresceu bastante, despertando interesse cada vez maior do público, como se viu na Olimpíada de 2016, quando duas das 10 maiores audiências da Globo vieram da modalidade, com as quartas-de-final e semifinal da seleção feminina. Sendo assim, essa Copa terá mais visibilidade, cobertura inédita até mesmo da maior emissora do país e, consequentemente, muito mais cobrança em cima da CBF com relação à seleção feminina.

Auditório da CBF no Rio de Janeiro estava lotado. Edu Gaspar, coordenador técnico da seleção masculina também compareceu (Foto: dibradoras)

Marco Aurélio Cunha, diretor de futebol feminino na entidade, abriu o evento dando um panorama sobre a modalidade e sobre como será o planejamento da equipe feminina nos próximos dias até a estreia, no dia 9 de junho contra a Jamaica em Grenoble. Na sequência, Vadão anunciou os nomes das atletas que representarão o Brasil em sua oitava Copa do Mundo.

Com o auditório lotado e participação massiva dos jornalistas de grandes veículos do país, o dirigente e o treinador responderam as perguntas da imprensa por quase uma hora. A reportagem do dibradoras esteve presente na coletiva de imprensa e questionou o técnico sobre a queda de rendimento da equipe, já que 15 das 23 jogadoras que irão disputar o Mundial da França são as mesmas que jogaram o último Mundial em 2015, no Canadá.

Vadão e Marco Aurélio Cunha durante o anúncio das 23 convocadas na CBF (Foto: Laís Torres/CBF)

"Realmente mantivemos uma base, uma base que acreditamos muito. Houve muitas atletas novas, até mais jovens como a Letícia (goleira), a Andressa e a Camilinha da sub-20, e esse ano puxamos a Geyse da sub-20. Então a gente também tem uma mescla boa de atletas diferentes. A Adriana foi a gente que trouxe quando ela ainda jogava no Rio Preto. A gente investiu em atletas mais jovens, mas essa é uma base que é significativa para nós e achamos interessante manter o maior número de jogadoras em condições", afirmou.

Vadão completou sua resposta dizendo que os últimos resultados negativos já são parte do passado. "Temos entender que agora é um momento de correção. Lá na Olimpíada, tínhamos aquela base com seleção permanente que a CBF bancou tudo para que a gente chegasse forte, da maneira como chegamos, taticamente e fisicamente bem treinados, então tivemos o privilégio de estar juntos e treinando. Nesse período desses resultados negativos, a gente jamais treinou. A gente se apresentava e em dois dias jogava. Às vezes treinava um ou dois dias e às vezes não, dependendo da viagem", recordou.

Reconhecimento às pioneiras

Durante a coletiva, questionamos também sobre o pouco reconhecimento que a Confederação demonstra pelas ex-atletas que começaram a defender o Brasil em competições oficias há 30 anos. Marco Aurélio Cunha foi quem respondeu essa pergunta, afirmando que jamais esqueceram as atletas do passado. "Quando cheguei em 2015, a Marcia Tafarel esteve conosco no Mundial,a Sissi esteve também como assistente pessoal em jogos nos Estados Unidos, a Duda esteve também em Tampa, recentemente a Pretinha e Michael Jackson também estiveram presentes. Nunca deixamos de reconhecê-las dentro das possibilidades. As pessoas que moram fora do país e têm seus trabalhos localizados em outros pontos, também tem seus compromissos. E nós, dentro do possível, lembramos sim da história de cada uma. O que falta talvez seja uma matéria, fazer um filme, coisas assim. Mas dentro do conceito de lembrança, elas jamais foram esquecidas", afirmou o dirigente.

Primeira seleção feminina formada em 1988 (Foto: Acervo pessoal/Museu do Futebol)

Para efeito de comparações, às vésperas de mais um Mundial, a seleção norte-americana homenageou a equipe campeã na Copa de 1999 durante um amistoso na Califórnia, apresentando ao público cada uma das atletas que fez parte desta conquista. A seleção alemã lançou um vídeo especial para esta Copa reforçando a mensagem sobre como o futebol das mulheres começou a ser praticado no país e a Inglaterra escolheu algumas personalidades para anunciar os nomes das convocadas, entre os destaques estavam as ex-jogadoras Kelly Smith e Alex Scott.

Aqui no Brasil, um vídeo simples e bonito foi produzido com a participação de jogadoras das categorias de base do Fluminense no Rio Janeiro e outros torcedores que anunciavam o nome das 23 jogadoras que irão para o Mundial.

Só homens falando de mulheres

Uma das perguntas que chamou a atenção foi feita por um jornalista (homem) e deixou claro – mais uma vez – como faz falta a presença feminina dentro de uma comissão técnica. "Vadão, tem uma pergunta que só você é capaz de responder. O que dá mais trabalho, um vestiário com 23 homens ou com 23 mulheres?"

(Foto: Laís Torres/CBF)

A resposta foi aquela dentro dos padrões e para ilustrar sua fala, Vadão citou um jogo onde a arbitragem não estava apitando muito bem e as jogadoras brasileiras ficaram exaltadas com isso no vestiário. "Existem características diferentes, mas no masculino não tem tanto isso (de ficarem nervosos). Às vezes uma discussão ou outra, mas é muito raro. Com as mulheres é com frequência. Quando elas estão nervosas, a frequência é maior. Às vezes é um pouco mais difícil acalmar as mulheres naquele momento, homem é um pouco mais fácil. Esse tipo de característica feminina não tem como você mudar, você tem que aprender a lidar. Acho mais difícil na hora do conflito acalmar as mulheres", opinou.

Quem assiste futebol feminino percebe que a dinâmica do jogo é bem diferente do masculino. Não se vê as jogadoras dando muitos carrinhos durante as partidas, não acontecem entradas maldosas e nem brigas com expulsões dentro de campo, bem diferente do que ocorre com o sexo oposto. E ainda assim, o treinador caiu no clichê dizendo em alto e bom tom que é difícil acalmar as mulheres na hora do conflito.

Nomes contestados e ausências 

Durante a coletiva e pelas redes sociais, muita gente questionou a não convocação de atletas que atuam pelo Santos. Vadão citou a convocação de Tayla, que agora defende o Benfica, mas foi convocada em outras situações quando jogava pelo time santista. Acreditamos que ausência dessas jogadoras tenha acontecido porque foram pouco testadas durante o período pré-Copa. Em nossa avaliação, a volante Maria é uma das opções que poderia ter ganhado mais chances na equipe brasileira.

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Veja a convocação da #SeleçãoFeminina para a Copa do Mundo da França! #GuerreirasdoBrasil #JogaBola

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Além das jogadoras do Santos, nenhuma atleta do Flamengo/Marinha – que também se destaca no cenário nacional – apareceu na lista. Entre as 23 selecionadas, apenas seis jogam no Brasil, mas cinco delas são remanescentes do outro Mundial: Bárbara, Fabiana, Erika, Mônica e Cristiane – as quatro últimas voltaram a jogar no Brasil recentemente. Portanto, a única jogadora que foi convocada atuando no Brasil foi Adriana, atacante do Corinthians.

Rafaelle e Bruna Benites ficaram de fora por conta de lesões. Camilinha, do Orlando Pride, se recuperou recentemente e ganhou uma chance na equipe. A lateral Letícia é uma novidade e nomes que participaram de algumas convocações, como Darlene e Thaisinha ficaram de fora da lista. A ausência de Gabi Zanotti (camisa 10 do Corinthians) também foi questionada durante a coletiva e o técnico Vadão afirmou que apenas usou seu critério de escolha. "É engraçado porque a imprensa tem preferência, a torcida tem preferência, às vezes o dirigente tem preferência, mas o treinador não pode ter", declarou.

Preparação para a Copa

A equipe do Brasil terá uma preparação específica para o Mundial que começará já no próximo dia 22 de maio em Portugal. As jogadoras treinarão por lá até o dia 05 de julho para aclimatação ao fuso horário e clima europeu antes da estreia.

Confira abaixo os nomes convocados em 2015 e agora, em 2019: 

Convocação de 2015:

Goleiras: Bárbara, Luciana e Leticia
Zagueiras: Géssica, Mônica, Tayla e Erika
Laterais: Fabiana, Poliana, Rafaelle e Tamires
Meio-campo: Andressa, Formiga e Thaisa
Meias-atacantes/atacantes: Andressa Alves, Maurine, Bia Zaneratto, Darlene, Gabi Zanotti, Marta, Rosana, Raquel e Cristiane.

Convocação de 2019

Goleiras: Aline (Tenerife -ESP), Bárbara (Avaí/Kindermann) e Letícia (Corinthians)
Laterais: Fabiana (Internacional), Letícia Santos (Sand-ALE), Tamires (Fortuna-DIN) e Camila (Orlando Pride-EUA)
Zagueiras: Érika (Corinthians), Kathellen (Bordeaux-FRA), Mônica (Corinthians) e Tayla (Benfica-POR)
Meio-campistas: Andressinha (Portland-EUA), Formiga (PSG-FRA), Adriana (Corinthians) e Thaísa (Milan-ITA) Atacantes: Bia Zaneratto (Incheon Steel Red Angels-COR), Cristiane (São Paulo), Raquel (Huelva-ESP), Debinha (North Carolina-EUA), Geyse (Benfica-POR), Ludmilla (Atlético de Madri-ESP), Marta (Orlando Pride-EUA) e Andressa Alves (Barcelona-ESP).

Atualização: A atacante Adriana, do Corinthians, acabou cortada na tarde desta quinta-feira por conta de uma lesão sofrida no jogo desta quarta-feira, contra o Santos.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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