Topo
Dibradoras

Dibradoras

Essa foto chocou o mundo há 20 anos e marcou a história do futebol dos EUA

Renata Mendonça

2025-04-20T19:04:00

25/04/2019 04h00

(Foto: FIFA)

Foi um gesto natural de explosão de quem havia acabado de marcar o gol do título dos Estados Unidos na Copa do Mundo de futebol feminino de 1999. A zagueira Brandi Chastain foi para a última cobrança de pênalti e, ao ver a bola estufando a rede chinesa, extravasou. Saiu correndo, tirou a camisa, caiu no gramado e celebrou com os braços enrijecidos para o ar.

O registro dessa imagem rodou o mundo. Aliás, não só rodou, chocou. O gesto daquela mulher de tirar a camisa num jogo de futebol e deixar seu top à mostra era uma ousadia, o rompimento com todos os padrões "femininos" que existiam à época. Entre as mais de 90 mil pessoas que estavam no estádio Rose Bowl, em Los Angeles, nenhuma esperava ver aquela cena ao final do jogo. E, no entanto, todos ficaram em êxtase com a vitória e com a cena da comemoração.

"Sempre vai ter alguém dizendo: 'por que você fez isso? É desrespeitoso'. Mas eu fico grata por esses comentários porque eles me deram espaço para falar sobre tudo que o futebol me deu", pontuou a agora ex-jogadora em entrevista à BBC em 2014.

Foi essa a foto que estampou a capa de todos os jornais no dia seguinte. Chastain era zagueira, e é difícil ver uma zagueira ser protagonista de uma conquista, mas ela foi eternizada como o símbolo do bicampeonato dos Estados Unidos na época. Depois do título, a jogadora viveu momentos de celebridade, deu entrevistas para os principais veículos de imprensa do mundo, foi a todos os programas de TV e, dali em diante, passou a sempre ter de responder a pergunta: o que você fez com o aquele top?

(Newsweek Magazine, 1999)

"Aquele foi um momento de insanidade…e acho que por isso foi tão extravasado e tão alegre. Esse foi o resultado de muito trabalho que culminou naquele momento. Foi incrível", descreveu em entrevista à famosa apresentadora norte-americana Oprah Winfrey em 2016.

"Fizeram até ofertas para comprar o top. Ofereceram  bastante dinheiro. Mas eu não queria que pensassem que aquele momento não havia sido espontâneo. Hoje, está orgulhosamente na minha casa".

Um gesto histórico

É pretensioso comparar o gesto de Brandi Chastain com um outro momento que ficou eternizado no nosso futebol – o de Bellini levantando a taça de campeão do mundo para o alto em 1958. Mas, guardadas as devidas proporções (claro, são coisas bem distintas), a cena da zagueira americana na Copa de 1999 é uma das mais famosas da história do esporte dos Estados Unidos. E olha que para um país que investe tanto e que é tão bem-sucedido nessa área, isso não é pouca coisa.

Ela é frequentemente procurada pela imprensa para falar de mais um "aniversário" daquela conquista e do seu gesto tão único na comemoração. A capa da Sports Illustrated com a foto dela em 1999 ficou em segundo lugar em uma votação recente entre o público americano sobre as capas mais icônicas da publicação. E o fatídico top chegou a ser exibido em um museu americano – o Sports Museum of America, em Nova Iorque – em homenagem àquele título que estava prestes a completar 10 anos à época (isso foi em 2008).

Brandi na capa da USA Sports Illustrated (Foto: Pinterest)

O mais interessante é que um dos momentos mais épicos da história do futebol feminino no mundo esteve muito perto de não existir, na realidade. Porque não era para Brandi Chastain ter batido pênaltis naquela final. Para se ter ideia, Chastain foi campeã com os Estados Unidos na primeira Copa do Mundo de futebol feminino em 1991. Mas uma série de lesões a deixaram mais lenta e ela precisou mudar de posição – primeiro para o meio-campo e depois para a defesa.

A jogadora ficou fora da Copa de 1995 e voltou para o Mundial em casa em 1999. E por um bom tempo, foi conhecida como uma excelente batedora de pênaltis. Mas na preparação para a Copa, ela ouviu do técnico Tony DiCicco uma sugestão inesperada: "Brandi, você consegue chutar com a esquerda?". Ele achava que suas cobranças de pênalti já tinham ficado previsíveis.

A zagueira aceitou o desafio e passou a treinar assim. Mas, na final de 99, não esteve entre as cinco primeiras opções da comissão técnica. Eles ficaram na dúvida em colocá-la ou não na lista – no entanto, sua experiência na seleção e a capacidade de lidar com pressão pesaram para que fosse a sexta batedora, para ser utilizada caso fosse necessário.

A história colocou a zagueira americana frente a frente com a goleira Gao Hong e ela evitou trocar olhares com a chinesa porque conhecia sua velha tática de tentar desestabilizar as adversárias. Concentrou na bola, no seu momento. Ouviu "o maior silêncio que 90 mil pessoas poderiam fazer" como descreve hoje em dia, e a partir daí tudo foi só alegria.

(Foto: Jed Jacobsohn / Getty Images)

Conquista histórica, comemoração também

A imagem daquela comemoração é considerada o maior momento da história do esporte feminino dos Estados Unidos. O peso que aquilo teria foi sentido por Chastain logo após a Copa, quando ela se tornou uma das maiores celebridades do país na época.

"Foi um furacão da mídia, foi difícil. Eu sentia como se estivesse morando em aviões e estava em todos os lugares contando a história – o que foi maravilhoso e fez tudo valer a pena porque a oportunidade e a experiência foram muito positivas. Mas em algum momento você fica exausta. Fica maravilhada e exausta", relatou em entrevista à ESPN americana 10 anos depois da conquista.

Naquela época, o futebol feminino não era algo que chamasse a atenção da mídia, nem mesmo nos Estados Unidos. As jogadoras não tinham vidas badaladas, nem nada parecido. E, de repente, com o título em casa, Brandi Chastain começou a sentir na pele o preço da "fama".

(AP Photo)

"Uma das coisas mais incríveis que aprendi com isso, e a coisa mais esquisita também, foi que, de repente, eu era uma pessoa que jogava futebol. É isso que eu fazia, eu era uma atleta. Talentosa, ok, mas não era uma 'sabe-tudo'. E de repente, literalmente de um dia para o outro, as pessoas passaram a pedir minha opinião sobre coisas que eu provavelmente não tinha nem o direito de estar falando sobre. As pessoas acham que só porque você é 'famosa', sua opinião é mais importante do que a de outras pessoas. E aí eu tinha que dizer que não sabia ou que não era qualificada o suficiente para responder perguntas sobre coisas que eu não fazia", relatou.

Brandi Chastain jogou pela seleção americana até 2004, foi ouro nas Olimpíadas de Atlanta e Atenas, prata em Sidney, e bicampeã mundial em 1991 e 1999. Recentemente, ela foi homenageada pelos 20 anos daquela conquista ao lado das jogadoras de sua geração em um amistoso dos Estados Unidos disputado no país.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

Mais Dibradoras