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Como a seleção superou fantasmas na maior conquista do rugby brasileiro

Renata Mendonça

2019-04-20T19:10:27

19/04/2019 10h27

Foto: Mike Lee/World Rugby

A seleção brasileira de rugby conquistou neste mês um título inédito da World Rugby Women's Seven Series em Hong Kong (Hong Kong Seven's) que garantiu a vaga na elite mundial da modalidade, além de um troféu histórico para o esporte no Brasil. Nunca uma equipe brasileira – entre homens e mulheres – havia chegado tão longe numa competição deste nível e a conquista teve um significado ainda mais especial para uma seleção que está em reformulação após a saída de algumas veteranas do time.

Para se ter ideia, o mais longe que o Brasil já havia chegado nesse torneio eram as quartas-de-final. Foram anos disputando e batendo na trave na hora de buscar a semifinal. Mas desta vez, uma preparação especial ajudou e muito para superar esse "fantasma". E o segredo não veio de fora, veio justamente de dentro das próprias jogadoras. A barreira psicológica que elas enfrentavam na hora de subir de patamar na competição estava pesando e, como não podiam contar com um trabalho psicológico especializado – por uma questão de verbas limitadas -, as próprias atletas criaram uma forma de enfrentar seus medos juntas.

"A gente sabia que o psicológico era uma questão e que não poderíamos contar com um auxílio profissional agora. Mas a gente não ia deixar isso ser uma desculpa. Então nós contamos com a ajuda do nosso treinador, que é da Nova Zelândia, e estabelecemos reuniões para conversar sobre isso. Falar sobre questões sobre como lidar com pressão, como se preparar para o torneio. Abraçamos esse desafio", contou às dibradoras Isadora Cerullo, que joga como "scrum-half" da seleção brasileira.

"Na nossa programação semanal, temos dias de alta intensidade e um dia de baixa intensidade. E toda quarta-feira, que era um dia de baixa intensidade, definimos que faríamos uma reunião de grupo pra conversar. A comissão estipulava os assuntos. O que ajudou muito foi tomar consciência sobre o trabalho do grupo e sobre suas ações. O que está dentro do seu controle e o que está fora do seu controle. Com isso, o grupo como um todo começou a assumir mais responsabilidades."

Se muitas vezes elas saíram de campo com a sensação de que tinha faltado alguma coisa, dessa vez em todos os jogos deixaram o gramado com o sentimento de dever cumprido. De terem feito o máximo que podiam e até mais do que isso. As vitórias foram consequência, conforme descreveu Isadora. A grande conquista dessa seleção foi ter se encontrado como grupo e tirado o melhor de cada uma.

"Ao longo do processo com o grupo foi interessante ver como isso estava transformando o grupo individualmente. E o efeito que estava tendo no grupo, uma sinergia de todo mundo querendo se empenhar mais", disse a jogadora, que acabou sendo fundamental no trabalho psicológico da equipe, já que virou a tradutora oficial do time. O técnico Reuben Samuel é neozelandês e não fala tão bem o português, então recorria à jogadora que nasceu nos Estados Unidos – mas é filha de brasileiros – para traduzir o que dizia.

"Foi interessante ser a pessoa que estava ajudando a dar significado a isso."

Conquista

Em Hong Kong, o Brasil venceu Polônia, Cazaquistão, Argentina, Quênia e Escócia para garantir o título e a única vaga na elite do Mundial que estava em disputa. Antes disso, as principais conquistas da seleção haviam sido os 14 títulos de Sul-Americano, o bronze no Pan-Americano de 2015, e o nono lugar na Olimpíada do Rio de Janeiro – que também garantiu uma vaga no Mundial. Mas um troféu em um torneio desse nível, é a primeira vez que qualquer seleção de rugby no país consegue conquistar. O peso disso foi sentido pelas atletas logo que elas saíram do pódio e pegaram os celulares. A quantidade de ex-atletas do rugby brasileiro enviando mensagens emocionadas com a conquista surpreendeu as jogadoras.

"Recebemos muitas mensagens de atletas de outras gerações, ou das que fizeram parte da primeira seleção feminina de rugby do Brasil, dizendo que a gente realizou o sonho de muitas delas. Muitas gerações que sonhavam em fazer parte da elite do rugby mundial, foi o momento de perceber que isso não foi só pra gente. Esse posto na seleção é algo que a gente pega emprestado e tenta deixar num lugar mais alto. Ainda esta caindo a ficha do que a gente conseguiu", afirmou Isadora.

Para além da conquista, Isadora acredita que as vitórias em Hong Kong trouxeram a essa seleção que mistura novatas e experientes  confiança de que elas precisavam para alçar voos mais altos na modalidade. Quando passaram das quartas-de-final – aquela fase fatídica que sempre representava o fim da linha para elas -, as jogadoras tiraram o peso das costas e focaram no melhor que poderiam conseguir. E o melhor, no caso, foi o título.

Foto: Divulgação

"Essa conquista e esse processo todo me ensinou muito sobre como não tem como substituir trabalho duro. Ano passado a gente achou que estava bem preparado. Mas tivemos humildade pra entender o que estava acontecendo. Se colocar fora da zona de conforto. E não se esconder. Não ficar complacente com trabalho mais ou menos. Não é ficar dando desculpa, é se adaptar e tentar extrair o melhor que a gente pode. No fim, a gente pode muito mais do que a gente imaginava. É interessante o processo de tentar redefinir o seu melhor", finalizou Isadora Cerullo.

Com a classificação para a elite do Mundial em 2019-2020, a seleção brasileira tem um calendário cheio definido para a próxima temporada, que incluirá uma preparação mais forte visando os Jogos Olímpicos de Tóquio. Os adversários ali serão os mais difíceis do mundo, incluindo Austrália (campeã olímpica em 2016), Nova Zelândia, Canadá, Inglaterra, entre outros. Um teste e tanto para tentar chegar à Olimpíada sem medo – e sem fantasmas pela frente.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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