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Para sair da fila, São Paulo precisa ouvir conselho de Muricy

Renata Mendonça

2015-04-20T19:10:44

15/04/2019 10h44

Foto: Getty

O São Paulo não conquista um título desde 2012. E falando em Paulista, são 14 anos de "fila". Isso porque a última conquista foi em pontos corridos. Fazia 16 anos que o clube do Morumbi não disputava uma final do campeonato estadual.

Depois do empate no primeiro de jogo em 0 a 0, o São Paulo precisará vencer na Arena Corinthians para conquistar o título, feito que o tricolor nunca conseguiu no estádio do rival. Mas a receita para isso acontecer pode estar num conselho que o ex-técnico Muricy Ramalho.

"O jogador, o dirigente, o treinador eles têm que sentir o que é jogar no São Paulo. O cara tem que sentir quando perde o jogo igual torcedor, que não sai na rua. Senão fica assim uma coisa muito cômoda. Você perde o jogo, vai pra casa, o torcedor que se dane. Tenho um amigo em São José do Rio Preto. Todo jogo do São Paulo eles têm uma van lá que eles alugam que cabe 15 ou 16 caras. Eles vêm de lá aqui pra ver o São Paulo jogar. Sai de lá, quando o jogo é tarde da noite, vem para São Paulo, acaba o jogo, vai pra Rio Preto de novo chegando lá de manhã e tem que trabalhar, cara. Você tem que respeitar essas coisas", observou o ex-técnico em entrevista às dibradoras e ao Uol Esporte* em março, quando o São Paulo ainda tentava se recuperar de uma crise após a eliminação precoce na Libertadores.

"Eu ando pra tudo que é lugar e você não tem ideia de como é que é. Você não tem ideia o que que é o torcedor. O torcedor é apaixonado. O cara para na minha frente e começar a chorar do nada. Porque eles são agradecidos. Eu sou um treinador de futebol, mas ao mesmo tempo também gosto desse clube. Eu acho que esse é o segredo, por isso eu sei o que é o torcedor do São Paulo, então, eu passo isso para os jogadores. Eu passo o que é o torcedor do São Paulo para os jogadores porque eles têm que saber quem é o São Paulo. Eles não podem vir só pra fazer um contrato e está tudo certo. Eles têm que saber como é o sofrimento dos caras quando eles perdem, faz dez anos que não ganha".

Talvez o maior símbolo dessa reconstrução do São Paulo do time que só se classificou na última rodada para surpreender e chegar na final sejam os garotos de Cotia: Antony, Igor Gomes, Luan, Liziero. E o protagonista do time na classificação contra o Ituano foi justamente o camisa 39, que como Cuca definiu neste domingo, é um "torcedor que está disputando o maior jogo da sua vida".

"O Antony é um dos jogadores mais importantes na nossa criação de jogadas, mas não estava bem, estava com alguma fraqueza. Nos primeiros quinze minutos tentamos dar uma vitamina, uma glicose para ele, e até surgiu a dúvida se era melhor ele sair. Ele jogou debilitado, por isso foi abaixo da expectativa. Ele é um jogador de arquibancada, e hoje jogou com o maior público da vida dele. A gente não sabe se isso às vezes influencia também. Temos que ver", afirmou Cuca.

Para conseguir superar o maior rival e grande algoz de muitos mata-matas nos últimos anos, o São Paulo precisa de mais do que técnica, precisa de coração. E para isso, é preciso retomar a confiança. Uma coisa que Muricy ressaltou no papo que tivemos ainda era a insegurança que o time mostrava em campo.

"O time do São Paulo não está com confiança nenhuma, eles estão inseguros demais. Tem muita troca, muita mudança no comando. O jogador do São Paulo fica desfocado, perdido. Chega um momento que não é culpa mais do jogador. Ele está sentido, perdido. Não é coisa tática, coisa técnica, é uma coisa mental. Aqui é um gigante e esse gigante está bravo, está uma pressão danada", pontuou Muricy.

E do outro lado, o que acontece é o oposto. O Corinthians tem mostrado um amadurecimento grande para ganhar – principalmente clássicos – mesmo quando não faz bons jogos. Demonstra em campo a frieza e a segurança de quem conquistou um bicampeonato Paulista até mesmo quando era chamado de "quarta força". Para vencer um adversário desses na sua casa, será preciso colocar nos pés a cabeça e o coração.

Os conselhos de Muricy servem principalmente para a diretoria são-paulina, que o técnico considera ter cometido erros demais recentemente.

"O São Paulo está errando demais em todos os sentidos. Agora, uma coisa que é pior, que não tem o reconhecimento que está errando. Isso é o pior. E aí continua. É um erro atrás do outro. Por quê? Porque o cara fala: 'não sou eu. Quem é? Ah, tira o técnico'. Faz dez anos que está tirando o técnico e não acontece nada. Mas o pior é isso, você tem que reconhecer essas coisas e não está sendo reconhecido", alertou o ex-treinador.

"Eles têm que, primeiro, reconhecer que está errado, porque senão vai continuar no erro. O São Paulo ganhou muito no passado, ainda estão presos a isso. Isso já acabou. Outros clubes estão passando por cima. Pararam no tempo no São Paulo."

O resgate dessa grandeza passa com certeza pelo jogo do próximo domingo, diante do Corinthians, na partida que definirá o título do Paulista deste ano.

*A entrevista completa com Muricy Ramalho irá ao ar em forma de especial no Uol Esporte ainda neste mês.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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