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Hooker vê reclamação demais sobre Tifanny e avisa: "Tandara é mais forte"

Renata Mendonça

2009-04-20T19:11:02

09/04/2019 11h02

(Foto: João Pires/fotojump)

A oposta do Osasco, Destinee Hooker, e a ponteira do Sesi Bauru, Tifanny Abreu, amanheceram nesta terça-feira com algo em comum: as duas já não estão mais na disputa pelo título da Superliga feminina de vôlei. Mas enquanto a primeira foi protagonista da série da semifinal contra o Minas, a segunda acabou ofuscada e pontuando  apenas 17 vezes somando os dois jogos diante do Praia Clube.

Os números servem exatamente para isso: para mostrar excepcionalidades. Tifanny não chama a atenção por eles – ela não está no top 5 de nenhuma estatística da Superliga 2018-2019 -, mas seu pioneirismo como a primeira jogadora transexual do torneio incomoda e gera questionamentos sobre uma suposta vantagem que levaria sobre as demais.

Nenhum dado estatístico, porém, evidencia isso. E para Hooker, protagonista do Osasco durante toda a temporada (ela chegou a fazer 34 pontos em um dos jogos das quartas-de-final e nunca deixou a quadra nessa fase decisiva sem pontuar pelo menos 20 vezes) há um "drama excessivo" sobre a participação da jogadora de Bauru na Superliga.

"Acho que está tendo uma tensão e um drama exagerados nessa questão de transexuais na liga. As pessoas estão se estressando demais por algo que já está definido. Deixem ela (Tifanny) viver. Ela já enfrentou o bastante. Isso só voltou porque ela estava jogando bem, se ela não estivesse jogando bem, ninguém estaria dizendo nada", observou a jogadora americana em entrevista às dibradoras.

A polêmica sobre a presença de Tifanny na Superliga veio com toda a força no início da temporada passada, quando o assunto era novidade. Depois a poeira baixou um pouco, e voltou à tona recentemente quando Bauru eliminou o poderoso Rio de Janeiro nas quartas-de-final. Tifanny foi destaque nesses jogos, e Bernardinho deixou escapar: "um homem, é f***".

Ele pediu desculpas, a jogadora aceitou e seguiu o jogo, mas a partir daí voltou a discussão sobre a regra que permite que a ponteira do Bauru atue na Superliga feminina. Houve até deputado querendo propor projeto de lei para impedir a presença de transexuais em competições esportivas de alto rendimento. Uma discussão que provavelmente nem teria acontecido, se o time de Tifanny tivesse perdido aquele fatídico jogo para o Rio. A vitória dela e consequente eliminação do favorito foi o que trouxe um julgamento desnecessário de novo aos holofotes, conforme Hooker descreveu.

"Todo mundo tem o direito de jogar, e ninguém teve problemas para defender as bolas dela ou dificuldades para bloqueá-la. Mas agora porque ela está ganhando, isso se torna um problema de novo. Se a Tifanny quer jogar vôlei, qual é o problema? Deixem que ela jogue. Ela passou por uma série de procedimentos, ela toma hormônios e tudo isso para tentar ser quem ela quer ser, então eu apoio a decisão dela para fazer o que ela quiser fazer. Ninguém tem direito de julgar ninguém. Tem muito ódio ao redor dela, mas pra mim as pessoas deveriam deixá-la viver sua vida", afirmou a americana.

(Foto: João Pires/fotojump)

"Eu disse para as minhas companheiras de time no Minas na época: Tandara ataca mais forte que ela. Essa é a minha opinião. E Tandara é uma mulher (cis). Quando joguei contra o Osasco no ano passado, eu vi uma companheira de time que foi atingida no rosto por uma bola da Tandara. Eu pensei: eu teria ido para o vestiário, não iria conseguir jogar mais. Quando a Tifanny joga, eu quero defender as bolas dela. Mas quando Tandara ataca, eu já peço ajuda", diz Hooker, aos risos, agradecendo por não ter tido que enfrentar Tandara nesta temporada, já que a oposta brasileira está jogando na China agora. No ano passado, ela foi a maior pontuadora da história da Superliga em uma só temporada: foram 626 pontos anotados por Tandara pelo Osasco, pelo menos 100 a mais do que a maior pontuadora deste ano, que é a polonesa Skowronska, do já eliminado Barueri, com 520 pontos.

Hooker discorda de manifestações que já vieram de fora – como da ex-jogadora Ana Paula Henkel – sobre o fato de que mais transexuais estariam tentando entrar na Superliga e que isso poderia restringir a participação das mulheres cis no esporte.

"Se tivermos mais transexuais na liga, não tem problema, porque existe uma regra que permite isso. O que você vai fazer? Ficar questionando por que estão permitindo ou vai trabalhar pra que ninguém tire a sua vaga?", sentenciou.

De todas as formas, a suposta superioridade de Tifanny foi vencida nesta segunda-feira com uma marcação perfeita do bloqueio do Praia Clube. A ponteira saiu de quadra com 8 pontos apenas e chegou a ser trocada durante o jogo. O Bauru foi eliminado com duas derrotas por 3 x 0 para o atual campeão da Superliga.

O Osasco também acabou eliminado para o Minas com uma derrota por 3 a 1 em casa. Hooker até tentou reerguer o time, fez 22 pontos na partida, mas não conseguiu evitar a derrota. A americana encerra sua participação na Superliga como a segunda maior pontuadora do torneio, tendo anotado 420 pontos na temporada.

 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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