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Time demitido, choro e improviso: o descaso do Sport com o futebol feminino

Renata Mendonça

2019-03-20T19:04:00

19/03/2019 04h00

Foto: Divulgação

*Por Juliana Lisboa, para a coluna ~dibres com dendê

Envolvido até o pescoço numa crise financeira, com uma nova diretoria e com dificuldades em fechar o planejamento de 2019, o Sport já acabou com o time feminino, teve que voltar atrás e até procurou uma equipe baiana para formar uma parceria, na última semana, como forma de preservar a vaga na Série A1 do Campeonato Brasileiro, no qual continua inscrito.

Desde que divulgou o fim da equipe feminina, o Sport vem enfrentando problemas. Primeiro com parte da torcida e da imprensa, que criticaram o fim de uma equipe que vinha dando resultados muito satisfatórios. E, mais recentemente, com a CBF.

E é aí que a situação complica: a CBF já tinha divulgado a tabela de jogos do Brasileirão Feminino Série A1 com a presença do Sport – que estreia contra o baiano São Francisco, fora de casa. E por isso a saída do time estaria descartada, ou o time seria penalizado.

Essa punição poderia afetar, diretamente, o time masculino, já que o clube – e não apenas o departamento feminino – responderia pela retirada do time do campeonato sem aviso prévio.

De acordo com a CBF, o Sport deveria ter avisado a entidade sobre a desistência até o dia 22 de fevereiro, o que não aconteceu. O Sport alegou que entregou, no dia 20 do mesmo mês, um ofício à Federação Pernambucana de Futebol (FPF-PE), mas a entidade disse que não cabe a ela encaminhar documentos.

A sanção imposta seria a vigente no artigo 61 do regulamento geral de competições: se uma equipe abandonar competições, ficará automaticamente suspensa durante dois anos de qualquer outra competição coordenada pela CBF.

"Art.  61  –  Se  uma  equipe  abandonar  uma  competição  ficará  automaticamente  suspensa durante  2  (dois) anos  de  qualquer outra  competição  coordenada  pela  CBF. Parágrafo  único  –  Entende-se  como  abandono  aquele  Clube  que  desistir  de  disputar  uma competição  após  a  publicação  oficial  da  tabela  e  regulamento  correspondente  do  prazo  legal estipulado  pelo  EDT", é o que diz o regulamento.

Foto: Marlon Costa – pernambucanopress

Para evitar as perdas ao time masculino, o Sport correu atrás na última hora para improvisar qualquer equipe feminina que pudesse inserir na disputa do Brasileiro e, assim, evitar a punição. Uma bagunça completa que envolveu até mesmo uma tentativa de parceria com um time da Bahia (!).

De acordo com a coordenadora de futebol feminino do Sport, Nira Ricardo, a estratégia era de buscar uma equipe já pronta, com treinadores que ela conhecia, para que o Sport pudesse 'emprestar a camisa'.

"A gente estava sem atletas, porque, um dia depois da diretoria anunciar o fim da equipe feminina, todas as minhas jogadoras estavam empregadas em outros times. Então quando a FPF determinou que o Sport jogaria, precisamos sair correndo atrás de meninas para jogar".

Nira citou a dificuldade que tem de encontrar novas atletas porque, no Recife, são poucas as jogadoras que podem treinar. "A maioria delas trabalham, não podem treinar, só poderiam ir ao jogo. E isso é horrível, especialmente porque são várias equipes qualificadas", ponderou.

Por isso, Nira procurou Mario Augusto Filgueiras, ex-São Francisco e ex-Lusaca (equipes baianas), para ajudá-la. E ele sugeriu uma parceria com o Flamengo de Feira, time tradicional da Bahia que revelou a zagueira Solange Bastos, ex-seleção brasileira. Para todo mundo estava ok. Mas a CBF vetou porque uma parceria entre equipes de estados diferentes não é permitida pelo regulamento.

"Queria muito ajudar Nira, porque sei o quanto ela se esforça pelo time feminino no Sport. Não é à toa que a equipe que ela comandou antes tinha conquistado tantas coisas".

Curiosamente, o primeiro jogo do Sport no Brasileirão feminino será contra a equipe baiana São Francisco, e está marcado para a próxima quarta-feira, em São Francisco do Conde.

Descaso

O que mais ficou marcado nessa história toda foi o descaso com que a nova diretoria do Sport tratou o futebol feminino. Mesmo com a mudança de gestão, os dirigentes do clube haviam dado aval para a comissão técnica do time feminino de que haveria equipe em 2019. Houve uma redução de orçamento planejada, mas todas as jogadoras receberam a informação de que vestiriam a camisa do Sport na temporada.

Só que, de um dia para o outro, uma reunião foi agendada com alguns dos membros da diretoria, e as atletas foram dispensadas. Tudo tão inesperado que o choro foi inevitável. Exigiram ali que elas deixassem o alojamento onde moravam e retornassem para as suas casas porque o Sport não manteria o futebol feminino em 2019 – e, para coroar tudo isso, todas elas estavam sem receber salário desde novembro de 2018.

Equipe feminina tinha excelentes resultados com Jonas Urias no comando e uma estrutura adequada para as mulheres trabalharem

Responsável pelo então departamento da base, Nira fez questão de ajudar as meninas a conseguirem outros clubes, mas pouco tempo depois se viu precisando caçar jogadoras para compor a equipe improvisada que o Sport decidiu fazer para evitar a punição ao time masculino. Uma bagunça generalizada.

E o que vai acontecer com o time feminino do Sport? Uma coisa é certa: não será o bicampeão pernambucano que fez boa campanha na Série A1 no ano passado. "Não temos condição de trazer atletas renomadas porque o clube não tem dinheiro. Não temos estrutura de alojamento, de nada. O que o Sport poderá oferecer será a camisa e ajuda de custo", explicou Nira. O time agora será feito em parceria com o Ipojuca Atlético Clube.

Não dá para esperar muito de 2019, mas, se o Sport souber aprender com os erros, vai se preparar melhor para os próximos anos. E que essa 'novela' sirva de lição para os demais clubes: a CBF está levando a sério a cobrança do futebol feminino no Brasil.

*Colaborou Renata Mendonça

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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