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A força de Ingrid Oliveira, a atleta que revelou ao mundo: mulheres transam

Renata Mendonça

26/02/2019 04h00

Foto: Divulgação COB

Conheci Ingrid Oliveira há quatro anos. Foi a primeira vez que ouvi falar dela, uma promessa dos saltos ornamentais e com boas chances de medalha no Pan Americano de Toronto. Mas não foi sobre nada disso as notícias que li nas vésperas da competição em 2015. 

"Ingrid Oliveira posta foto de bunda e causa polêmica nas redes sociais", essa era uma das manchetes envolvendo o nome dela. As palavras "promessa" e "medalha" não apareceram em nenhum desses títulos. Por outro lado, "polêmica" e "bunda" estavam em todas. Engraçado porque nada disso eram matérias de jornais ou sites de fofoca. Eram todos de veículos esportivos. 

Aí depois que todo mundo conhecer Ingrid pela tal "foto polêmica", vem a primeira notícia esportiva relacionada ao nome dela: uma nota zero na execução de um salto. Sempre acompanhado daquela palavra-chave: "musa do Pan"…um rótulo que ela não pediu e também não teve a opção de escolher. 

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Ela é atleta dos saltos ornamentais, mas desde a primeira notícia que saiu com seu nome, não se falou de esporte, só se falou de bunda. E depois de sexo. Nenhuma matéria com o nome de @ingrid.oliveira96 citava que ela havia começado no esporte muito cedo, porque a mãe tinha medo de que se envolvesse com as coisas erradas na periferia do Rio de Janeiro. Nenhuma matéria mencionava que ela foi para os saltos ornamentais por causa da irmã. Nem que ela apanhava feio da mãe com pedaço de pau. E que perdeu seu porto seguro aos 17 anos. A trajetória de Ingrid ficou de lado, sua conquistas no esporte também. A única coisa "relevante" para a mídia e para a sociedade foi descobrir que, pasmem, ela é uma mulher que transa. A lição que fica de tudo isso é a hipocrisia de julgar e condenar mulheres sempre em primeira instância. Ingrid paga até hoje o "preço" por ter transado uma noite na Vila Olímpica. Todos os outros homens que já o fizeram (e a lista é imensa) não viraram nem notinha de rodapé nas publicações. Aliás, falando no jornalismo esportivo, não dá pra negar que houve um exagero sem tamanho na cobertura desse caso. Bastava um exercício jornalístico simples para entender que o episódio não merecia tanta atenção: se fosse um atleta homem, você se importaria? Então deixem as mulheres transarem em paz. #saltosornamentais #olimpiadas #mulheresatletas #mulheresfortes #mulheresempoderadas #girlpower #respeito #igualdadedegenero

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E aí cabe um mea culpa porque já fui obrigada a fazer muita galeria de musas nessas competições para os veículos esportivos onde trabalhei. Quando questionei, ouvi de um chefe: "então faz a galeria de musos também". Como a única mulher em uma redação com 20 e poucos homens, era difícil explicar por que não fazia sentido nenhuma das galerias e por que não era nosso papel, como jornalistas esportivos, fazer a cobertura de bundas em vez de cobertura de esportes. Mas hoje, ainda bem, muita coisa evoluiu nesse sentido. Perdemos as musas, ganhamos as atletas, uma baita vitória, diga-se.

Mas há três ou quatro anos, ainda não era assim. E Ingrid passou toda a preparação para a sua primeira Olimpíada em 2016 sendo referenciada como "musa do Pan". Até que veio um fator mais "relevante" e completamente chocante para este mundo: a musa do Pan transa também. 

Não só ela, aliás. Não seria ousado estimar que umas 80% ou mais das mulheres do mundo acima de 18 anos transam. A mesma porcentagem vale para os homens. O que não vale para os dois nessa situação é o respeito: geralmente, esse tende a ficar do lado masculino por seu "mérito" em conseguir transar com essa ou aquela garota, enquanto o julgamento fica do lado feminino, condenando a mulher pelo "demérito" em ter aberto as pernas em vez de as fechar, como manda o protocolo. Bela, recatada e do lar que fala, né? 

A "polêmica" foto do Pan (Foto: Arquivo Pessoal)

Pois bem, Ingrid transou na Vila Olímpica. Assim como ela, outras milhares de pessoas fizeram o mesmo. Eram 10 mil atletas na Vila, e 450 mil preservativos foram distribuídos. É só fazer as contas pra entender o óbvio: transar é normal e todo mundo transa. 

Aí você procura o nome dela no Google ao lado de "Olimpíada 2016", e vem a enxurrada: "Ingrid foi expulsa da Vila Olímpica por maratona de sexo"; "Maratona de sexo encerra carreira conjunta de dupla de brasileiras"; "O caso da atleta que trocou salto ornamental por salto na vara". Manchetes como essa foram estampadas em jornais e sites do mundo todo repercutindo o caso. 

Em nenhuma dessas matérias, a história de Ingrid no esporte foi contada. Ninguém disse que ela começou na ginástica olímpica cedo, porque a mãe tinha medo que ela se envolvesse com algo errado no bairro de periferia onde morava no Rio de Janeiro. Ou que ela mudou para os saltos ornamentais por causa da irmã. Ou que ela apanhava feio da mãe, daquelas surras com taco de sinuca que não paravam nem quando ele quebrava. Nem que ela perdeu essa mãe aos 17 anos, seu porto seguro. E que ela conquistou a medalha de prata do Pan de 2015, mostrando por que a chamavam de promessa da modalidade. A única coisa que todos esses jornais apuraram a respeito de Ingrid foi sobre o sexo que ela fez na vila olímpica.

Interessante que o sexo com consentimento que aconteceu no quarto de Ingrid foi mais noticiado que os próprios casos de abuso que surgiram naquela Olimpíada, como o de um boxeador da Namíbia com uma camareira da Vila. Choca-se mais com um caso de uma mulher transando por vontade, no quarto dela, do que se chocou com o caso de abuso de centenas de meninas da ginástica no Estados Unidos, ou de dezenas de meninos da ginástica aqui. 

Foto: Divulgação

Por tudo isso, Ingrid ficou dias sem sair de casa, chorou o tempo todo, teve vergonha de encontrar amigos, se desconcentrou na preparação para a competição, perdeu patrocinadores e manteve seu rótulo "musa" e "polêmica", duas coisas que não aguentava mais ouvir. O atleta que esteve com ela no quarto naquele fatídico dia? Com ele, não aconteceu nada. Nem mesmo mensagens de críticas ou xingamentos. Tudo bem, homens transam, todo mundo já sabe isso. Mas sobre as mulheres, aí é melhor guardar segredo né? 

A lição que fica de tudo isso é para a sociedade, pela hipocrisia de julgar e condenar mulheres sempre em primeira instância, sem nem se propor a entender o que acontece do outro lado. Ingrid paga até hoje o "preço" por ter transado uma noite na Vila Olímpica. Todos os outros homens que já o fizeram (e a lista é imensa) não viraram nem notinha de rodapé nas publicações.

Aliás, falando nelas – nele, o jornalismo esportivo -, não dá pra negar que houve um exagero sem tamanho na cobertura desse caso. Bastava um exercício jornalístico simples para entender que o episódio não merecia tanta atenção (ao menos não sob o ponto de vista que foi tratado): se fosse um atleta homem, você se importaria? Se a notícia que chegasse fosse que César Cielo levou uma mulher para o quarto, ela seria publicada? E ainda que fosse, seria publicada com esse tom, de polêmica, de absurdo, de "como assim César Cielo esta transando na Vila???"?  Não, né. Então deixem a mulher transar em paz. 

Nota: Para quem não viu, o desabafo de Ingrid foi feito para a reportagem do UOL em um novo projeto chamado "Minha História". Esse é o primeiro capítulo de uma nova série do UOL Esporte em que os próprios atletas vão contar, em suas palavras, fatos que marcaram suas vidas e suas carreiras.

"Minha História" terá publicações regulares até os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020, e contará com relatos de atletas como Esquiva Falcão (medalhista de prata do boxe), Cristiane (medalhista de prata no futebol), Verônica Hipólito (vice-campeã paraolímpica) e Tiago Splitter (ex-jogador da NBA).

Ingrid Oliveira revela apoio de mulheres e pede fim de "julgamento"

UOL Esporte

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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