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Jogadora argentina processa clube e Federação por más condições de trabalho

Roberta Nina

07/02/2019 14h27

Macarena Sanchéz (Foto: Handout)

São anos exercendo uma profissão que não a reconhece como profissional, não lhe oferece salário compatível com o mercado e estrutura necessária para desempenhar seu trabalho.

Esta é a história da argentina Macarena Sanchéz, de 27 anos, ex-jogadora de futebol do UAI Urquiza e que está processando na justiça seu antigo clube e a Federação Argentina de Futebol (AFA).

No feminino, o time que Macarena defende é um dos mais fortes do cenário. Já o Urquiza masculino, disputa a terceira divisão e, mesmo assim, são mais reconhecidos e valorizados pelo clube. "É frustrante. Eles têm melhores salários, condições e podem viver sendo jogadores de futebol. Nós, infelizmente, não podemos. Temos melhores resultados, mais campeonatos e disputamos inclusive torneios internacionais, mas somos vistas como inferiores por sermos mulheres", revelou em entrevista ao jornal britânico The Guardian. 

Jogadoras pedem igualdade no futebol feminino (Foto: Instagram/Macasanchez)

O cenário vivido por Macarena e demais jogadoras de futebol na Argentina não é nem um pouco justo e respeitoso. A atleta declarou que ganhava cerca de R$ 40,00 para fazer viagens com o clube e enfrentava péssimas condições condições de trabalho. "O tratamento para nós era muitas vezes indiferente e desinteressado. As instalações não eram as melhores, muitas vezes treinávamos em péssimas condições ou não dispúnhamos dos materiais necessários para o desenvolvimento profissional", contou.

Cansada de tanta falta de reconhecimento, ela moveu uma ação para que possa ser ressarcida pelos sete anos que defendeu o clube e não foi valorizada como profissional e isso, segundo ela, vai muito além de dinheiro. "A maior compensação para mim seria conseguir que meu pedido fosse ouvido e que as mulheres fossem reconhecidas como futebolistas profissionais. No caso de ter uma compensação econômica, certamente darei parte desse dinheiro para o desenvolvimento do futebol feminino na Argentina", afirmou.

Futebol feminino sul-americano

É de se admirar a coragem de Macarena em expôr as dificuldades enfrentadas e bater de frente com seu antigo clube e com a Federação. Muitas são as jogadoras – especialmente aqui, na América do Sul – que acabam se contentando com que recebem de salário, condições e estrutura por medo de perderem o pouco que tem. "Se está ruim assim, pode até ficar pior", é o pensamento daquelas que se omitem.

(Foto: Instagram/Macasanchez)

Macarena fez diferente. Deixou o medo para trás e soltou a voz. "A liga feminina da Argentina é precária. Embora o futebol na Argentina seja o esporte mais popular, as mulheres não são consideradas profissionais. Os clubes e a Federação Argentina de Futebol não nos reconhecem como trabalhadores e nos negam direitos básicos como um salário, algo que os homens recebem por jogar futebol, e outras coisas básicas que qualquer atleta de alta performance precisa: lugares para treinar, chuteiras, cobertura médica e roupas, para citar alguns."

Sole Jaimes, jogadora argentina que passou por Boca Junior e River Plate, se consolidou como uma grande centroavante aqui no Brasil e sempre fez questão de frisar o quanto era ruim era a estrutura que seu país oferecia às atletas. 

No começo de 2018, disputou um amistoso pela seleção argentina contra o Uruguai e revelou que as jogadoras estavam com dois meses de salários atrasados por parte da AFA. "Elas estavam numa situação que estavam treinando há dois meses, mas não pagavam os 150 pesos de remuneração. Em Santos, vivia normal, viva de aluguel e encontrei essa situação em Argentina e fiquei triste. Já passei por isso quando jogava na Argentina. E hoje seguem pedindo 150 pesos de remuneração. Fiquei triste", revelou ao blog Donas do Campinho. 

Sole Jaimes fez história vestindo a camisa do Santos FC (Foto: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/ Santos FC)

Aqui no Brasil, Sole defendeu a equipe do Foz Cataratas em 2013, passou pelo São Paulo em 2015, mas foi no Santos que fez história, de fato. Defendendo a Sereias da Vila, marcou 47 gols em 66 jogos, foi artilheira do Campeonato Paulista e do Brasileirão Feminino A1, além de ter sido campeã e melhor jogadora do torneio e eleita a melhor atacante no Prêmio Bola de Prata de 2017. Em janeiro de 2018, Sole se transferiu para Dalian Quanjian FC, da China e, neste ano, defenderá o Lyon, uma das equipes mais fortes do cenário mundial do futebol feminino. 

A reivindicação de Macarena Sanchéz passa por aí. "Precisamos parar de sofrer esse tipo de abuso diário pelos clubes e pela AFA. É importante que sejamos reconhecidos como trabalhadoras esportivas, porque é isso que somos. Precisamos ter cobertura médica, precisamos de uma salvaguarda legal que nos proteja, precisamos fazer parte da união dos futebolistas trabalhadores da Argentina (Futbolistas Argentinos Agremiados). Precisamos que nossos direitos deixem de ser violados. E é importante porque queremos viver do futebol, queremos jogar futebol e aproveitar. "

Protesto da seleção argentina em 2018 (Foto: HERNÁN CONTRERAS/CAMILO CONTRERAS/DIVULGAÇÃO)

Vale lembrar que as jogadoras da seleção argentina protestaram durante a Copa América no ano passado, pedindo mais apoio da Federação. Antes de entrar em campo, as argentinas posaram para a foto oficial da partida com uma mão no ouvido, pedindo para serem escutadas.

O grande motivo do protesto foi a escolha da modelo Alexia Ortiz como representante feminina no lançamento da camisa da seleção argentina de futebol. 

UAI Urquiza disputando a Libertadores Feminina no Brasil(Foto: RuiCosta Iranduba)

O UAI Urquiza – antigo clube defendido por Macarena – participou da Copa Libertadores feminina no ano passado, aqui no Brasil e ficou na segunda colocação na fase de grupos da competição com 5 pontos, o mesmo número de pontos feitos pelo time brasileiro, Iranduba . Não disputou o mata-mata porque se classificava apenas o melhor segundo colocado.

Mas, o time campeão da Libertadores foi o Atlético Huila, equipe colombiano que derrotou o Santos nos pênaltis. Após a conquista do título, a atleta Yoreli Rincón denunciou que o prêmio recebido em dinheiro pela Conmebol para a equipe feminina, seria destinada ao masculino. Ou seja, o problema é sempre o mesmo, só muda de endereço. 

Time colombiano, campeão da Libertadores 2018 (Divulgação/Atlético Huila)

O cenário brasileiro, apesar de estar longe do ideal, tem muitas vantagens em comparação a outros países, como Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai e etc. Não são todos os clubes que tratam as jogadoras como profissionais – com carteira assinada e direitos garantidos – mas o caminho para a profissionalização é uma realidade, ainda mais depois da exigência da Conmebol que obriga clubes masculinos a manterem times profissionais e de base entre as mulheres para poderem disputar competições como a Libertadores e a Copa Sul-Americana.

(Foto: Guillermo Larroquette/Instagram/Macasanchez)

Mesmo com melhores condições para as brasileiras, a luta de Macarena deve servir de exemplo para todas as jogadoras. O machismo e as proibições de antigamente atrasaram demais a prática do futebol feminino em todo o mundo e é preciso conhecer o passado e se posicionar, só assim o futuro será melhor para as próximas gerações.

"Acho que os clubes não querem que sejamos reconhecidas como profissionais porque incomoda que uma mulher possa ocupar lugares historicamente ocupados por homens. O pensamento 'machista' das pessoas que têm poder é a única coisa que impede a profissionalização", opinou a jogadora argentina.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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