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Ela quebrou barreiras e sonha com NFL: “gosto de provar que estão errados”

Renata Mendonça

05/02/2019 06h13

Quem olha para Toni Harris andando na rua de saia e terninho, com salto à meia altura, não faz a menor ideia que, nas horas vagas – e nas horas de trabalho também -, ela é, na verdade, uma jogadora de futebol americano. 

Fofo: Divulgação Toyota

Do alto do seu 1,70 metros, ela não impõe tanto respeito num esporte que chama a atenção também pelos jogadores estilo "brutamontes". Mas a jovem de apenas 22 anos já fez história no futebol americano: ela é a primeira mulher a conseguir uma bolsa de estudos para representar um time universitário nos Estados Unidos. O pioneirismo dela vem justamente por ser de uma posição de contato, e não de "kicker", que é a função que normalmente as mulheres que conseguem espaço em um time de futebol americano ocupam. No caso de Harris, ela atua como safety, posição da última linha que envolve cobrir os passes em profundidade e fazer tackles. Uma função que exige uma intensidade física muito grande.

No ano passado, a jogadora recebeu a oferta do Bethany College, do estado do Kansas, para representar o time na NAIA (National Association of Intercollegiate Athletics). Agora, uma universidade do Colorado, outra de Ohio e outra de Kentucky também tentam ofertar bolsas para Toni Harris, que ainda está decidindo para onde vai na temporada. O caminho da atleta ainda será longo, mas o sonho que ela persegue é o de jogar a NFL, principal liga de futebol americano. Pode até soar utopia, mas para uma menina que viveu num orfanato dos 4 aos 9 anos, que descobriu um câncer no ovário aos 18 e que passou a vida ouvindo que era "muito pequena", "muito fraca" e que nunca seria capaz de atingir o nível de excelência, nada mais parece impossível.

"Eu sinto que todos os obstáculos que surgem eu posso superar e deve ser por isso que consegui chegar até aqui", afirmou ela.

"Meu plano e ser a primeira mulher a jogar na NFL", afirma, de maneira categórica. 

Claro que quando começou a gostar de chamado "football" nos Estados Unidos, Toni Harris não poderia imaginar que um dia teria como objetivo ser a primeira mulher a disputar a NFL. Mas aos 4 anos já sentia os olhares de reprovação dos familiares por verem o interesse da menina naquele esporte tão truculento. Depois, veria varias portas se fechando por ela estar "quebrando as regras" e se arriscando em algo considerado "exclusivamente masculino".

"Eu amo provar que as pessoas estão erradas. Fui expulsa de uma equipe quando era mais nova  porque eu era uma menina, e lá eles não permitiam. As dificuldades continuaram, mas eu simplesmente tentei trilhar meu caminho sem dar ouvidos a essas coisas porque era isso que eu queria (jogar futebol americano). Jogar na NFL é meu sonho e vou fazer de tudo para conseguir isso", disse.

Foram anos e anos atuando no futebol americano e provando que seus críticos estavam errados. Sem dar ouvidos a quem dizia que ela "nunca chegaria lá", Toni Harris seguiu fazendo o que gostava até se tornar a primeira mulher a conseguir uma bolsa de estudos na universidade jogando em uma posição de defesa do futebol americano. 

"Uma vez ouvi uma frase que me alertou muito. Era algo assim: 'Seja tão bom que as pessoas simplesmente te ignorem'. Essa frase me marcou muito, sempre me lembro. E vira e mexe fico pensando nisso. Seja bom o suficiente para que ninguém ao seu redor consiga negar seu talento, aí você sempre conseguirá seu espaço", destacou a jovem de 22 anos, que agora sonha em se tornar a primeira mulher a atuar em um time da NFL.

Enquanto não alcança seu objetivo, pelo menos Harris já pode dizer que, de alguma forma, participou de um Super Bowl. No intervalo do jogo do último domingo, aquele que é um dos eventos esportivos mais assistidos em todo o mundo (e o mais visto nos Estados Unidos), ela foi protagonista de uma propaganda bastante impactante da Toyota, que usou a história de superação de Harris para divulgar um de seus carros. No discurso, a marca usou todas as frases que a jogadora ouviu ao longo do tempo e que tentaram fazê-la desistir.  

"Eles disseram muitas coisas sobre Toni Harris. Disseram que ela era muito pequena. Disseram que ela era muito lenta. Muito fraca. Disseram que ela nunca chegaria ao próximo nível. Esse 'Nunca' inspirou uma nova geração. Esse 'Nunca' conseguiu uma bolsa de estudos na universidade. As pessoas tinham várias suposições sobre Toni Harris", diz o texto da propaganda, que termina com a atleta dizendo: "eu nunca gostei de suposições".

Não estava entre seus objetivos no esporte protagonizar uma propaganda no Super Bowl, mas ter sua história contada ali é algo que pode inspirar muitas meninas a perseguirem seus sonhos no futebol americano.

"Se eu tivesse visto algo assim quando era criança, teria significado muito. Teria sido uma grande inspiração para mim. Há muitas consequências que podem vir quando você faz algo assim, como ser uma mulher jogando futebol americano. Não é todo mundo que consegue persistir apesar de tudo. Sinto que Deus me colocou ali para ser forte, para quebrar as barreiras e ser um exemplo para todas as meninas que passam a vida ouvindo que isso é algo que elas não podem fazer. Seja futebol, basquete, qualquer coisa que elas querem fazer, nada é impossível. Você só precisa manter sua fé e seguir perseverando em busca do seu sonho", afirmou Harris.

Ainda é muito difícil dizer se Harris conseguirá atingir seu objetivo de jogar a NFL. Mas até hoje não houve nada que a parasse em busca de seus objetivos – e só o fato de sua história ter sido contada no dia em que o mundo para pra ver o futebol americano já pode inspirar milhares, milhões até de garotas que se viam fazendo algo "errado" por insistirem em estar num esporte que "não é para elas". Harris é o exemplo de que elas podem ser o que quiserem. Não há (ou não deveria haver) limites de gênero para os sonhos. 

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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