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Futebol feminino deve ter gol menor? Goleira de 1,63m da seleção responde

Renata Mendonça

2024-01-20T19:04:00

24/01/2019 04h00

Aline Reis tem 1,63m, mas costuma voar no gol (Foto:Ricardo Stuckert/ CBF)

São pouco mais de sete metros que separam uma trave da outra no futebol – 7,32m para ser mais precisa -, e quase dois metros e meio de altura entre o chão e o travessão (2,44m exatamente). São essas as distâncias que os atacantes sonham em furar e os goleiros sofrem para impedir. Mas quando são mulheres no campo, há quem defenda que essas medidas deveriam ser menores. Só que não é bem essa a opinião da goleira da seleção brasileira de futebol feminino, Aline Reis.

O principal argumento de quem diz que seria necessário abaixar o travessão ou encurtar a distância entre as traves é o de que as mulheres, em geral, são mais baixas do que os homens e, sendo assim, seria "justo" que houvesse uma adaptação para elas no futebol, assim como há no vôlei, por exemplo, em que a rede do feminino é mais baixa (2,24m) do que a do masculino (2,43m). Mas a opinião das mulheres que efetivamente jogam no gol costuma ser o de que a mudança das medidas não seria necessária – e por um motivo simples, preparo físico e técnico supririam a eventual falta de tamanho.

Foi o que nos disse Aline Reis, goleira do time espanhol UDG Tenerife e da seleção, do alto dos seus 1,63m. "Eu acho que a gente consegue jogar muito bem, não precisa ter gol menor, campo menor. Muitas vezes as pessoas falam que eu sou baixinha e tal. Mas eu consigo chegar numa bola no ângulo. Tenta achar uma bola que eu levei gol de cobertura. Não tem. Não é questão de ser grande, é questão de saber fazer a leitura da jogada", afirmou a jogadora em entrevista às dibradoras durante a preparação da seleção para a Copa do Mundo deste ano na Granja Comary.

Apesar da pouca altura, Aline sempre gostou de jogar no gol e, desde cedo, demonstrou excelente impulsão e leitura de jogo. Ela começou a jogar bola em quadras de areia de um clube da cidade onde cresceu e ali dava para se jogar à vontade nas bolas. "Você se sente um super-herói na areia", diz.

Na juventude, Aline chegou a ir para os Estados Unidos com uma bolsa para jogar enquanto fazia faculdade e, logo em seguida, acabou virando treinadora de goleiros de uma das principais faculdades americanas, a UCLA. Mas em 2015, aos 26 anos, decidiu dar mais uma chance à carreira de atleta e voltou ao Brasil para jogar pela Ferroviária, onde chamou a atenção da comissão técnica da seleção brasileira e, a partir daí, não saiu mais de lá – ela foi reserva da goleira Bárbara na Olimpíada de 2016, mas chegou a atuar em amistosos no ano passado como titular.

É claro que ao entrar em campo no final da fila das jogadoras, Aline chama a atenção pelo tamanho – ou falta dele. Mas ela reforça que jogar bem no gol não é uma questão de altura (nem de gênero), mas sim de preparo. E ressalta outro motivo que ainda faz com que os tais "gols bizarros" aconteçam com maior frequência no feminino do que no masculino.

Ao lado das goleiras, Aline aparece no centro, quando havia acabado de retornar dos EUA e serviu a seleção brasileira (foto: CBF)

"A gente ainda vê gols no feminino que não acontecem no masculino, só que no masculino os goleiros começam a ter treino específico quando eles têm seis anos, oito anos. No feminino, as goleiras começam muito mais tarde. Não é uma questão física, é uma questão técnica e de leitura de jogo", pontuou ela.

Aline começou a frequentar uma escolinha de futebol somente aos 10 anos de idade. Os clubes de base também praticamente inexistiam na sua época – agora, inclusive, é que eles estão começando a ser formados por conta da regra da Conmebol, que exige que equipes masculinas que vão disputar suas competições mantenham equipes femininas na categoria profissional e de base. Sendo assim, os trabalhos técnicos específicos tão exigidos no futebol acabam chegando às mulheres tardiamente, só quando elas já estão atuando no profissional.

Há um outro ponto a ser levado em consideração. É verdade que a média de altura das mulheres costuma ser menor do que a dos homens, mas há muitas mulheres altas que alcançam os 1,80m, 1,90m e até 2m. Não à toa elas são muito comuns no vôlei. Essa é outra questão: com a falta de estrutura, de investimento, e de oportunidades no futebol feminino, as mulheres mais altas que praticam algum esporte acabam sendo incentivadas a irem para uma modalidade que está mais desenvolvida no país (como é o vôlei)

A própria atacante da seleção brasileira, Bia Zaneratto, deixou o futebol por um tempo para investir no vôlei e só retornou à modalidade de origem por insistência da prefeitura de Araraquara, que apostava nela como destaque do time da Ferroviária.

Então não é que seja impossível termos goleiras altas que se imponham pela altura embaixo das traves, como acontece no masculino. Esse, inclusive, é o caso de Tainá, terceira goleira da seleção de apenas 23 anos, que tem 1,87m – dois centímetros a menos que Weverton, goleiro campeão brasileiro pelo Palmeiras, e um a menos que Diego Alves, goleiro do Flamengo. Mas não é a altura que vai determinar se um goleiro (a) será bom (a) ou não – e Aline é prova disso.

Tainá é a da esquerda, goleira da seleção de 1,87m (Foto: Divulgação)

Sem falar que "frangos" acontecem em todos os níveis do futebol. A própria Série A do Campeonato Brasileiro coleciona alguns lances assim protagonizados até mesmo por goleiros consagrados.

Por tudo isso, diminuir as medidas do gol não é uma solução viável – nem sequer pode ser chamado de "solução", porque o "problema" dos tais gols bizarros não está na falta de altura das mulheres, mas sim na falta de estrutura oferecida ao futebol feminino em todas as categorias (desde a iniciação, que acontece muito tarde, até o profissional).

"O que acontece no feminino, principalmente nessas seleções que estão muito atrasadas no futebol, é que você vê muita goleira despreparada, não é porque não é um homem, é por falta de capacidade técnica.

E se as mulheres já têm tantos obstáculos para conseguirem jogar futebol, o preconceito, a falta de lugar pra jogar, de clube pra treinar, de campeonato para disputar, imagine então se tivesse que existir um campo específico para o futebol feminino, com gols de medidas específicas e tudo mais?

Sendo assim, antes de discutir mudar as medidas do campo ou do gol, o melhor é discutir como dar as condições para as goleiras do futebol feminino chegarem ao futebol profissional no mais alto nível, como aconteceu com Aline, que hoje até brinca com as atacantes: "Olha, do jeito que está, posso falar uma coisa? Se diminuir o gol, coitada das atacantes".

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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