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Ana Thais estreia em jogo do SporTV: mulher comentando não é mais tabu

Renata Mendonça

22/01/2019 04h00

Ana Thaís participando do programa Bem Amigos do SporTV (Foto: Reprodução/SporTV)

A transmissão da partida entre Ituano e Novorizontino na noite desta segunda-feira pelo Campeonato Paulista no SporTV teve uma novidade. Pela primeira vez em muito tempo, o canal teve uma mulher nos comentários do jogo. Ana Thaís Matos, comentarista fixa do Troca de Passes desde o ano passado, estreou nas análises em uma transmissão de futebol ao lado do narrador Odinei Ribeiro na partida que terminou 1 a 0 para o time de Novo Horizonte.

O feito de Ana Thaís não é exatamente inédito, mas é bastante representativo num momento em que mulheres são raridade – praticamente inexistentes – nas transmissões de futebol. É até comum ouvir e ver repórteres femininas na área esportiva, mas o campo da opinião ainda fica muito restrito ao universo masculino. No entanto, para Ana Thaís esse já é um tabu que tem sido quebrado pelas mulheres hoje em dia e a tendência é que mais e mais delas ocupem esse espaço daqui em diante.

"Se você pensar bem, tudo demorou para as mulheres na sociedade. Não fomos impulsionadas desde criança a nos destacarmos em áreas 'que não eram nossas'. Então acho 'normal' a demora. Anormal seria se em 2019 isso ainda fosse um tabu – e não é mais", afirmou ela em entrevista às dibradoras.

 

No passado, Milly Lacombe chegou a comentar jogos da Champions League em TV aberta, na Record na década passada, e o SporTV teve Clara Albuquerque em transmissões do Nordeste no Premier FC. Em 2018, Monara Marques foi pioneira comentando a Copa do Mundo in loco nas transmissões da Rádio Sagres, de Goiânia.  Mas atualmente, a única mulher que ocupa essa função na TV é Nadine Bastos, comentarista de arbitragem da Fox Sports. Agora, Ana Thaís Matos também terá esse espaço no SporTV, que tem planos de inserir ainda mais mulheres nas transmissões.

"Existe uma agenda feminina no mundo, de equidade e representatividade. Não só pelas mulheres, mas pelo novo, pra quebrar um o 'tradicional'. Eu sei da minha responsabilidade, do lance de ser referência para outras mulheres. Mas não só isso, homens e mulheres precisam parar de achar que 'existe algo para homem e algo para mulheres'", disse a comentarista. 

"Não tem problema em ser a única mulher comentarista no canal hoje, 2019 (por enquanto), anormal será  daqui 10 anos ainda ser a única. Isso é o que a gente como sociedade precisa mudar."

Preparação para a estreia

Ana Thaís atua no jornalismo esportivo há quase 10 anos. Na Rádio Globo desde 2012, foi setorista dos grandes clubes de São Paulo e desenvolveu-se como repórter de transmissões até ganhar um espaço na TV há quase três anos no Seleção SporTV. Aí veio a Copa do Mundo da Rússia e a oportunidade de ser comentarista em um programa diário do canal – o Troca de Passes – analisando todos os jogos e todas as seleções.

Foto: Divulgação SporTV

Depois do Mundial, Ana Thaís recebeu o convite para continuar na equipe fixa do Troca de Passes e, a partir daí, iniciou-se o plano de desenvolvê-la como comentarista também de transmissões.

"Quando o grupo Globo me levou pra bancada fixa do Troca, já existia essa ideia. Veio formalizado num papo bem tranquilo com as minhas chefes em outubro do ano passado. De forma orgânica, objetiva e normal", contou a jornalista. 

Desde então, Ana Thaís passou a se preparar para os jogos que viriam, estudando mais detalhadamente cada equipe e, claro, aprendendo os detalhes técnicos que envolvem    as transmissões.

"Gravei vários pilotos com várias equipes de coordenadores e narradores diferentes do SporTV. Começamos com jogos do Brasileirão e fizemos também da Copa São Paulo de Futebol Júnior."

Foto: Arquivo Pessoal

A estreia já estava programada para janeiro, juntamente com o início dos Estaduais. Ao longo do dia, Ana Thaís admite que sentiu o frio na barriga da estreia chegando e uma certa "responsabilidade a mais" por representar todas as mulheres ali. Tantas que sonham em trabalhar com o jornalismo esportivo e ainda veem essa área restringir o espaço (e a voz) delas. Mas na hora que o microfone abriu e Odinei Ribeiro deu as boas-vindas à comentarista na cabine de transmissão do estádio Novelli Jr, ela apareceu com a voz serena e segura como sempre faz nas noites de Troca de Passes do SporTV.

"São vários desafios que estou enfrentando. A parte técnica de câmera, logística de posição, microfone, etc. Parte teórica é pegar informações que sejam boas para o jogo e descolar da Ana Thaís repórter, pra não confrontar com o repórter da transmissão. É preciso também ter repertório pra não repetir o narrador. O comentarista é só uma cereja no bolo. E nem todo mundo gosta de cereja em bolo", pontua. 

Foi com tranquilidade e análises precisas que Ana Thaís Matos encerrou sua primeira transmissão até mesmo brincando com os "haters" e celebrando as milhares de mensagens que recebeu ao longo do dia.

 

Não é todo dia que a gente liga a TV e ouve uma voz feminina (e competente) falando sobre futebol. Mas já podemos dizer que hoje tem mais do que ontem. E que agora já dá para se acostumar, porque a frequência com que elas estão surgindo aumenta mais a cada dia. O jogo entre Ituano e Novorizontino foi apenas o primeiro de muitos de Ana Thaís Matos no SporTV. Ela por enquanto é uma das únicas, mas abrirá portas para as tantas outras que estão por vir. Afinal, ser comentarista de futebol não deveria ser uma questão de gênero – e sim apenas uma questão de competência.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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