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Ela trocou o basquete pela arbitragem e fará história nos playoffs da NFL

Renata Mendonça

09/01/2019 10h00

Foto: Reprodução Youtube

Quando Gerry Austin, ex-árbitro e supervisor da NFL, recebeu a ligação de um antigo colega de trabalho sobre uma pessoa que estava se destacando na arbitragem do futebol americano escolar, não hesitou em perguntar: "Qual é o nome dele?". A resposta que recebeu, porém, foi motivo de choque. "O nome dele é Sarah".

Isso aconteceu em 2007, quando Sarah Thomas completava 10 anos de arbitragem na modalidade escolar (high school) e esperava por uma chance pouco provável no futebol americano universitário. Até então, não havia nenhuma mulher que tivesse conseguido esse feito. Não à toa, Thomas pensou seriamente em desistir e voltar para casa para cuidar dos filhos. Mas aí veio a chance na NCAA, a liga universitária do futebol americano nos Estados Unidos. Depois, em 2015, ela rompeu todas as barreiras que ainda lhe tentavam impor se tornando a primeira mulher a ser contratada oficialmente pela NFL como árbitra.

Em 2019, Thomas subiu mais um degrau rumo ao topo: no próximo domingo, ela será a primeira árbitra a apitar um jogo de playoffs da NFL – a semifinal da AFC entre Los Angeles Chargers e New England Patriots.

É claro que, para ela, guardada a devida proporção da importância do jogo, será apenas mais um dia fazendo aquilo que já faz há pelo menos 22 anos, desde que apitou pela primeira vez uma partida de futebol americano. Sarah Thomas faz questão de repetir sempre que gosta de ser vista apenas como "mais uma" entre os bons árbitros. Mas enquanto ela continuar sendo a única, sua história precisará ser contada para que outras se inspirem a chegar lá.

Até porque não é todo dia que uma exímia jogadora de basquete universitário se torna uma árbitra de ponta do futebol americano.

Das quadras para o campo

Sarah Thomas sempre teve gosto pelo esporte e jogou softball e basquete durante a infância em Mississipi. Nos Estados Unidos, o esporte está muito atrelado à educação, e foi assim que Thomas chegou à University of Mobile para estudar Comunicação com uma bolsa concedida para que ela fosse atleta da faculdade. No basquete, jogou três temporadas e terminou sua "carreira universitária" com 779 pontos, 441 rebotes, 108 assistências, estatísticas que a colocaram como a quinta melhor jogadora da história daquela universidade.

Foto: Getty

Mas foi em outro esporte que Thomas encontrou paixão e sustento. E tudo começou por uma ligação para um dos seus irmãos. "Nós estávamos no telefone e ele me disse que estava a caminho de um curso para árbitros. Na hora, perguntei: mulheres podem fazer isso? E ele disse que achava que sim. Então eu fui também", contou ela ao site americano SBNation.

"Quando entrei na sala, o homem que estava dando aula apenas parou de falar. Eu perguntei se era ali que eu poderia me tornar uma árbitra de futebol. 'Acredito que sim', foi o que ele respondeu, ainda meio chocado", conta, aos risos.

Ela aprendeu rápido. Mergulhou nos estudos, nas regras e na preparação e ficou 10 anos atuando em jogos de equipes escolares (high school, o equivalente ao nosso Ensino Médio), para conseguir aprovação para atuar no futebol americano universitário – que também tem uma importância gigantesca nos Estados Unidos.

Foram mais oito anos de experiência ali até que ela se tornasse a primeira mulher a conseguir um contrato "full time" com a NFL para atuar em toda a temporada do futebol americano – isso veio em setembro de 2015, na partida entre Kansas City Chiefs e the Houston Texans. Agora, três anos depois, terá a responsabilidade de apitar uma partida de playoff decisiva que irá tirar Patriots ou Chargers da final da AFC.

Conselho

O primeiro conselho que recebeu de Gerry Austin logo que passou a atuar no nível universitário causou estranheza para Thomas. "Ele me disse para não usar maquiagem", revelou em entrevista à ESPN, há três anos. A árbitra não gostou do que ouviu e disse que o supervisor (que teve uma carreira renomada como um dos principais nomes da arbitragem da NFL) estava "passando dos limites". Hoje, Thomas admite entender o significado dessa recomendação – apesar de ainda não concordar muito com ela.

Foto: AP

"Você quer ser conhecida como arbitragem, não como arbitragem feminina. Isso a colocaria numa categoria diferente. Não queremos nada que possa despertar isso. Quero que, quando um técnico olha para mim, ele veja apenas um representante da arbitragem, e não um representante da arbitragem feminina", observou.

Sarah Thomas não abdicou da maquiagem, mas o cabelo ela mantém preso e "escondido" sob o boné tradicionalmente usado pelos árbitros do futebol americano. Ela também acabou "obrigando" a NFL a pensar em uniformes de tamanhos femininos para uma mulher poder atuar na arbitragem.

Apesar do sucesso nos gramados da NFL, Thomas segue na sua profissão de representante de vendas da indústria farmacêutica e divide com o marido as responsabilidades de criar os três filhos do casal: Bridley, de 15 anos, Brady de 12, e Bailey de 3.

"Minha vida tem sido cheia de viagens nos últimos anos, mas minha família está acostumada. Eu não poderia fazer nada disso sem o apoio do meu marido e da minha família e amigos. Tento equilibrar da maneira que dá. Você aprende a priorizar e delegar, a dizer não quando realmente não dá, e a focar nas coisas que você pode controlar", resumiu.

Após mais de duas décadas atuando no futebol americano, Thomas afirma nunca ter se deixado levar por qualquer forma de preconceito na profissão. "Nunca deixei que meu gênero fosse um motivo para as pessoas agirem de uma forma diferente. Se eles têm esse sentimento ou preconceito com relação a mim, isso é um problema deles, não meu".

Na forma de pisar o gramado caminhar para a sua posição, Sarah Thomas já demonstra o que a levou até ali: a confiança na sua capacidade e a determinação para seguir trabalhando. "Você entra no campo mostrando sua confiança, e a partir daí a atmosfera muda. Os jogadores podem sentir isso de longe".

"O reconhecimento não é algo que se pode buscar, mas é algo que se você trabalhar duro, virá. Não deixe de acreditar em você", finalizou.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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