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Com nocautes sobre duas lendas, Amanda Nunes reina absoluta no UFC

Renata Mendonça

30/12/2018 11h08

Amanda Nunes: campeã dos pesos-galos e pesos-penas (Foto: Getty Images)

Por Renata Mendonça e Roberta Nina

Amanda Nunes precisou de menos de um minuto para vencer Cris Cyborg, detentora do cinturão do peso-pena feminino no UFC, e se consagrar como a maior lutadora de MMA do mundo atualmente. Ela é a primeira mulher a conquistar dois cinturões em categorias distintas – somente dois homens conseguiram o feito na história, Conor McGregor e Daniel Cormier – e deixou o octógono com um recado mais que merecido para Dana White, presidente do UFC: "Eu quero meu lugar no Hall da Fama", disse.

Para se ter ideia do tamanho de Amanda Nunes, ela coleciona três dos seis nocautes mais rápidos da história do MMA feminino. Venceu Julia Budd no Strikeforce em 14 segundos (a luta mais rápida), venceu Ronda Rousey, a lenda do UFC, em 48 segundos, e agora nocauteou Cyborg em 51 segundos.

Ronda Rousey, medalhista olímpica de judô, também foi vítima de Amanda "Leoa" (Foto: Getty Images)

Cyborg, por sua vez, não sabia o que era perder no octógono há nada menos do que 13 anos – foram 21 lutas de lá para cá e nenhuma derrota. Só que desta vez ela caiu em 51 segundos e viu a adversária – que compartilha com ela o posto de pioneira da modalidade no país – fazer história com a conquista do segundo cinturão.

Pela vitória, Amanda recebeu o prêmio de "Performance da Noite" e levou para casa US$ 50 mil (aproximadamente R$ 193 mil).

"Estou feliz comigo mesma, é o mais importante. Tudo que aconteceu na minha vida vocês acompanharam. Sempre estava bem e confiante de que seria a pessoa que mudaria isso. Fico muito feliz com os planos do Dana. É muito importante. Ele agora tem uma campeã em duas categorias e fiz história mais uma vez. Sempre tenho que provar e gosto disso. Isso me faz forte, é por causa disso que sou a atleta de hoje. O mais importante é entrar e fazer história. Ganhar, é isso o que eu penso. Fico feliz em ter o que conquistei hoje por conta do meu trabalho", afirmou a campeã.

Lute como uma garota

Todo mundo já ouviu ou já usou alguma vez expressões do tipo "esse aí joga que nem menina". Ou "parece uma menina chutando". Ou ainda "ele chora como uma menina". Comentários desse tem conotação pejorativa e nunca aparecem como elogio quando uma pessoa está fazendo uma coisa muito bem. Pelo contrário: fazer algo "como uma menina" significa ser muito ruim nisso.

Mas os tempos estão mudando – e o significado dessa expressão também. E me arrisco a dizer que, muito em breve, a expressão original perderá o sentido. O feito de Amanda Nunes no octógono no último sábado é a prova disso.

A primeira mulher brasileira campeã do UFC, a primeira brasileira a vencer Ronda Rousey e Cris Cyborg, as duas lendas do MMA, a primeira a conquistar cinturões em duas categorias distintas. Depois dos nocautes que deu para finalizar a americana e a brasileira em menos de um minuto, alguém ousaria dizer que "lutar como uma menina" é lutar mal?

O UFC sempre foi considerado território masculino e "proibido" para mulheres. O campeonato das chamadas "artes marciais mistas" – mais conhecidas como MMA, na sigla em inglês – surgiu no início da década de 1990, mas só abriu categorias femininas a partir de 2013 – muito por conta da luta e da busca por espaço de Ronda Rousey.

Três anos depois, Amanda Nunes finalizou a favorita Miesha Tate em julho deste ano e na sequência manteve o cinturão vencendo Ronda para colocar seu nome na história da competição e da modalidade.

Agora, em 2018, após uma sequência de lesões e uma preparação de meses para subir de categoria e vencer Cyborg, Amanda provou que não há ninguém maior que ela no MMA feminino.

O nocaute (Foto: Getty Images)

"É incrível. Me ajudem a acreditar! Eu esperava que a luta fosse assim. Eu sou a primeira campeã dupla do UFC. Eu disse que seria assim. Dana, eu quero meu lugar no Hall da Fama. Eu sou uma leoa, e leoas fazem assim. Eu sinto o cheiro de sangue. Meu técnico sempre me diz para ficar calma para conseguir ver tudo. Meu técnico, Anderson Franca, disse para que eu esperasse ela ficar desesperada para jogar meu overhand. Sabia que tinha que ficar calma, que quando jogasse minha mão em cima dela, ela iria sentir. Também sabia que quando acertasse aquele chute eu abriria caminho para a vitória", afirmou a campeã absoluta após a luta mais esperada da noite. 

Leoa da Bahia

Antes de derrubar essas gigantes, a baiana precisou derrubar o preconceito que a acompanhou desde o primeiro dia na academia de jiu-jistu. Aliás, antes disso, já havia se deparado com o machismo ao escolher jogar futebol – e não brincar de boneca, que é o que se esperava de uma menina na infância.

Nascida em Pojuca – a 70 km de Salvador – , Amanda, era a única mulher a treinar jiu-jitsu na academia que ela frequentava aos 16 anos. Todos os dias, ela entrava ali para lutar não só contra os adversários, mas contra os olhares, as encaradas, os recados que tentavam passar a todo tempo para ela: "você não pertence a esse lugar". E seria tão fácil ela ter desistido. Porque, realmente, até parecia que não era para ela mesmo. Se só havia homens ali, por que ela, mulher, insistia em ficar?

(Foto: Andre Durão)

Ela foi para Salvador, treinar (e morar) em uma academia maior para ter dedicação total ao esporte, mas adivinhem? Só ela de mulher. De novo. É o tempo todo o mundo dizendo: "isso não é lugar para você". Mas Amanda resolveu provar que, na verdade, era sim.

Lutando de igual para igual e se mostrando tão forte e ágil quanto os homens que treinavam com ela, Amanda ganhou o apelido de "leoa". E foi assim, matando "um leão por dia" que buscou seu espaço, venceu campeonatos, foi treinar nos Estados Unidos até galgar sua vaga no UFC e ter a chance de conquistar seu primeiro cinturão.

A lição que fica é exatamente essa: não há limites para as mulheres. Não há nada que possa fazê-las parar. Mesmo que digam que isso "não é para elas", que esse lugar "não é delas", ou o que for.

Amanda Nunes agora é a primeira mulher a ser campeã brasileira no UFC, a única a vencer em duas categorias. Muitas virão depois e inspiradas por ela. Seremos como Amanda: resistiremos e venceremos.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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