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Cyborg x Leoa: a histórica trajetória das lutadoras até o duelo no octógono

Roberta Nina

28/12/2018 06h00

Por Roberta Nina e Renata Mendonça

Dana White, presidente do UFC, chegou a declarar que lutas entre mulheres jamais aconteceriam em seu campeonato. Sua afirmação caiu por terra há uns bons anos e agora, neste sábado (29/12), os amantes de MMA podem presenciar uma das maiores e mais aguardadas lutas de todos os tempos. E trata-se de uma luta entre mulheres: Cris Cyborg e Amanda Leoa, valendo o título da categoria peso-pena (66 kg).

Depois de muita espera, duas brasileiras entrarão no octógono, em Iglewood (estado da Califórnia), em busca do cinturão e de uma maior valorização para as mulheres no MMA – como já foi falado aqui.

Mas até estrelarem o card mais aguardado do ano, as duas lutadoras romperam muitas barreiras e alcançaram resultados históricos para a modalidade.

Contamos aqui um pouco sobre a trajetória de Cristiane Justino Venâncio e Amanda Nunes:

Cris Cyborg

Nasceu em Curitiba e tem 33 anos. Sempre gostou de esportes e jogava handebol na infância, mas descobriu o MMA já na juventude e decidiu investir nele, à revelia da mãe.

Além do preconceito dentro de casa, Cyborg precisou lutar também contra os olhares tortos dentro do próprio MMA – o que, por muito tempo, a impediu de ter o reconhecimento que merecia no cenário internacional da modalidade.

Cris Cyborg com o cinturão peso-pena do UFC (Foto: Jason Silva)

No passado, a brasileira chegou a ouvir de Ronda Rousey que "era uma fraude". Ouviu de Dana White, o chefão do UFC, que "parecia um homem". E precisou esperar – e insistir muito – para conseguir sua categoria e seu espaço na principal competição de MMA do mundo.

Sua primeira luta foi em 2005 e lá sofreu sua única derrota antes de se profissionalizar oficialmente. Logo se mudou para os Estados Unidos em 2008 para se dedicar ao esporte e foi despontando no cenário do MMA como uma das principais lutadoras do mundo.

Juntamente com Ronda, ela foi uma das pioneiras que brigou para que o UFC criasse categorias femininas. Mas ao contrário da americana, não se contentou com o "mínimo" oferecido pelo UFC (a criação de uma categoria peso-galo apenas) – e virou grande desafeto de Ronda por conta disso.

Em 2012, quando Dana White anunciou a luta pelo cinturão até 61,5kg feminino com a atleta dos Estados Unidos, Cyborg não quis baixar seu peso para poder fazer parte dessa categoria.

Posteriormente, ainda foi criado o peso-palha feminino (até 52,2kg), mas a categoria reivindicada pela brasileira – peso-pena, até 65,7kg – ainda era ignorada. Enquanto isso, ela foi conquistando mais vitórias no Invicta FC e firmando seu nome como uma das maiores lutadoras do MMA, assim como Ronda Rousey.

Até que em 2015, Cyborg firmou seu contrato com o UFC e passou a fazer lutas de peso casado (quando as duas lutadoras chegam a um peso intermediário de uma categoria não oficializada para se enfrentar). Mas não desistiu do sonho de criar mais uma categoria feminina na competição e conquistar o cinturão.

Foi o que aconteceu posteriormente. Em dezembro de 2016, a categoria peso-pena foi oficializado e em julho de 2017, Cris Cyborg venceu a americana Tonya Evinger por nocaute técnico, faturando o cinturão.

"Eu não posso ser só mais uma no UFC, se eu disser 'amém' para tudo, vou ser mais uma. Eu quero fazer a diferença, melhorar o esporte. Não quero ser só a campeã do mundo, quero fazer a diferença, assim como pedi para que as mulheres tivessem mais categorias no UFC", disse ela na época.

(Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Cyborg conseguiu muito mais que um título – ela conseguiu a nova categoria para o UFC feminino e mais espaço para elas na competição. Independentemente dos resultados, seu nome ficará para sempre na história do MMA.

"Vou continuar lutando, se eu achar que está errado, eu não vou ficar calada. Acredito que eu tenho que melhorar o esporte para as atletas que virão no futuro. É muito egoísmo pensar no agora e não considerar o futuro para as que ainda virão."

Cris Cyborg conta com um incrível cartel de 20 vitórias e apenas uma derrota. A curitibana não perde uma luta desde 2005, quando fez sua estreia no MMA, e desde que chegou ao Ultimate, em 2016, somou cinco triunfos, o último sobre Yana Kunitskaya, em março, pelo UFC 222, quando venceu por nocaute técnico ainda no primeiro round.

Campeã dos penas, a Cyborg tem 17 nocautes aplicados na carreira, apenas três de suas lutas foram decididas pelos árbitros.

Amanda Nunes

Tem 30 anos e nasceu em Pojuca, uma cidade baiana, a 70 km da capital, Salvador. Começou a praticar boxe aos 16 anos e depois se especializou em jiu-jitsu.

(Foto: Andre Durão)

Apelidada de Leoa, começou no MMA com derrota, mas se sentiu feliz por ter conseguido estrear na modalidade. A partir daí, toda a sua carreira foi baseada em evitar passar por problemas de lesão e, para isso, se fortaleceu ainda mais para evitar ficar fora de combate, como ocorreu em lutas de 2012 e 2013. Evoluiu sua técnica de trocação, tornou-se a melhor defensora de golpes de solo também.

Estreou no UFC em agosto de 2013, derrotando Sheila Gaff por nocaute e assim se tornou a primeira brasileira a vencer no campeonato.

Tem o mata-leão no solo como sua principal especialidade e foi com este golpe que, em julho de 2016, tornou-se a primeira brasileira campeã do UFC ao finalizar Miesha Tate no primeiro round.

Amanda derrotou Ronda Rousey no UFC 207 (Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC via Getty Images)

Como detentora do Cinturão Peso-Galo, seis meses depois foi desafiada por Ronda Rousey, o maior nome da modalidade. A luta não durou um minuto – 48 segundos para ser exata – e uma sequência de quatro golpes certeiros foi o bastante para que a Leoa derrotasse a americana e mantivesse o cinturão.

As lutas vencidas por Amanda ultrapassam os limites do octógono. Ela é uma das primeiras atletas a assumir publicamente que é lésbica, num ambiente tão machista e preconceituoso como é o universo das lutas. E fez questão de explicitar isso em um momento único e muito marcante: comemorou a conquista do cinturão em 2016 com sua namorada e parceira de lutas, Nina Ansaroff.

No discurso de campeã, Amanda não escondeu o orgulho que sentia por representar outra minoria ali: homossexual assumida, a jovem campeã agradeceu o apoio de sua namorada e também lutadora do MMA e resumiu tudo muito bem em uma frase:

"O mais importante é que estou feliz com a minha vida", disse. "Ela é a minha melhor companheira de treinos, sempre está me ajudando e dando o melhor por mim e devo muito a ela. Eu a amo."

Leoa e a namorada Nina (Foto: Reprodução Instagram)

Amanda vive grande fase na carreira. Sem perder uma luta desde 2014, a baiana subiu para a divisão dos penas e chega para conquistar o título da categoria enfrentando Cris Cyborg.

A data para este confronto acontecer passou por meses de negociação. Cyborg esperava enfrentar Amanda em setembro, mas a Leoa alegou precisar de mais tempo para se recuperar de uma lesão sofrida no pé em sua última luta, disputada em maio, no Rio de Janeiro.

Independentemente de quem ganhar este duelo tão esperado, a vitória da representatividade feminina – e brasileira – nas artes marciais já foi alcançada com muito êxito.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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