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Por que os times sul-americanos sofrem tanto na semi do Mundial?

Renata Mendonça

18/12/2018 19h33

Foto: AFP

O River Plate foi eliminado nesta terça-feira pelo modesto Al Ain dos Emirados Árabes após perder a disputa nos pênaltis e viu seu sonho de enfrentar o Real Madrid na busca pelo título do Mundial de Clubes acabar muito mais cedo do que os argentinos poderiam imaginar. É o primeiro clube argentino da história a cair nessa fase. Mas o River não está sozinho nessa. A história recente mostra que a semifinal do torneio já tem sido uma pedra no sapato dos times sul-americanos há algum tempo.

O sonho de todo clube da América do Sul sempre foi chegar a um título mundial vencendo um favorito europeu na decisão. Por algum tempo, isso foi uma realidade. Das 43 edições da chamada "Copa Intercontinental" organizada por Uefa e Conmebol, 22 vezes o título ficou com uma equipe sul-americana, que desbancou um campeão da Europa na decisão. Na fórmula moderna da disputa, porém, implementada na década de 2000, quando a Fifa assumiu a organização do torneio, o sonho dos times da América do Sul virou quase que uma utopia – e ainda ganhou um pesadelo: a semifinal.

No formato anterior, só havia uma fase, que era a decisão direta do título. Sempre colocando frente a frente o campeão da Libertadores e o campeão da Liga dos Campeões. A partir de 2005, porém, o torneio passou a reunir todos os campeões continentais das seis confederações: Conmebol, Concacaf, Uefa, CAF, AFC e OFC. Os times europeus e sul-americanos entram na disputa na semifinal – e, nas cinco primeiras edições desse "novo Mundial", a ordem dos fatores não alterou o produto, e o campeão da Libertadores continuou enfrentando o campeão da Liga dos Campeões na final.

No entanto, houve um marco em 2010 que foi um divisor de águas para o futebol sul-americanos no torneio. Naquele ano, o Internacional foi eliminado pelo Mazembe, da República Democrática do Congo, num episódio que passou para a história como um "vexame". Só que, desde então, nas últimas oito edições do Mundial de Clubes, em três os representantes da América do Sul caíram na semifinal.

Em 2010, Inter foi eliminado pelo Mazembe (Foto: VIPCOMM)

Depois do Inter em 2010, só o Santos passou pela semifinal do Mundial com tranquilidade. O time de Neymar e companhia em 2011 quase não sentiu a pressão diante do Kashiwa Reysol e fez 3 a 1 para garantir a vaga na finalíssima (aquela que terminaria na goleada do Barcelona). O Corinthians em 2012 venceu com um golzinho de Guerrero, mas passou um sufoco para confirmar a classificação. No ano seguinte, foi a vez do "vexame" do Atlético-MG, que perdeu para o Raja Casablanca, do Marrocos, por 3 a 1 a semifinal.

O San Lorenzo precisou da prorrogação para eliminar o Auckland City, da Nova Zelândia, por 2 a 1. Em 2015, o próprio River sofreu diante do Sanfrecce Hiroshima e venceu só por 1 a 0, e em 2016, o Atlético Nacional tomou 3 a 0 do Kashima Antlers. No ano passado, o Grêmio também viu sua semifinal ir para a prorrogação, mas conseguiu a vitória por 1 a 0 sobre o Pachuca. E agora a decepção argentina com o River, que já vislumbrava uma decisão contra o poderoso Real Madrid.

Salto alto?

Não há como negar que há uma certa soberba dos clubes sul-americanos quando o assunto é Mundial de Clubes. Quando times brasileiros, argentinos, colombianos, etc, chegam ao torneio, o assunto é sempre o desafio de vencer o campeão europeu na decisão. Ignora-se que, antes da final, há uma semifinal – e um adversário consciente de que, naquele confronto, ele é a "zebra", o que ninguém espera que vá chegar à finalíssima.

Parece a fórmula óbvia do esporte para a motivação de um e desmotivação de outro. Ou desconcentração, para ser mais precisa. O Al Ain, tecnicamente, é bem pior do que o River Plate – assim como o Mazembe era pior que o Inter, o Raja Casablanca era pior que o Galo, e assim por diante. Só que aí vem aquela velha máxima: no futebol, nem sempre o melhor vence. Enquanto o time dos Emirados Árabes entrou em campo para fazer o jogo da vida – e olha que nem fez uma partida, assim, tão perfeita, mas soube lutar até o fim -, o River entrou em campo com a cabeça no suposto jogo do fim de semana, a sonhada final com o Real Madrid (que também não está confirmado lá ainda, é preciso ressaltar).

A imprensa também tem a ver com isso, já que as perguntas direcionadas aos jogadores e técnico do River antes do Mundial sempre foram mais relacionadas ao Real Madrid do que ao adversário da semifinal. Até mesmo no Brasil falava-se que "há muito tempo um time sul-americano não parecia ter tantas chances contra um europeu".

Na manhã desta terça-feira, o jornal Olé, da Argentina, vinha com uma capa remetendo já ao suposto confronto da decisão: "Motivação Real", em alusão ao Real Madrid. O Clarín também destacava a fala de Marcelo Gallardo, treinador do River: "podemos vencer qualquer time". O atacante Lucas Pratto também já havia comentado a possibilidade de enfrentar o time de Madri na decisão:

"É uma ocasião muito especial para nós porque temos a chance, se conseguir chegar à final, de enfrentar o campeão da Europa [Real Madrid], que normalmente vai até a final. Sempre queremos vencer os mais fortes e mostrar que somos melhores que eles".

Talvez todo esse enredo tenha ajudado muito o Al Ain a chegar a essa decisão. Em campo, o River parecia fora de foco, literalmente. A defesa se mostrou completamente bagunçada, dando todos os espaços para o time árabe. No ataque, a equipe argentina teve lampejos de criatividade no primeiro tempo, quando virou o jogo e criou mais oportunidades, mas caiu muito de rendimento na segunda etapa e praticamente abriu mão de jogar a prorrogação. O time pareceu nervoso em campo nos minutos finais, sem saber o que fazer para mudar aquele resultado.

Esse talvez seja o grande erro dos times sul-americanos no Mundial de Clubes: pensar que o peso da camisa que eles vestem é suficiente para levá-los à decisão. Não é mais. O futebol tem evoluído muito em todos os lugares do mundo e não há mais margem para se subestimar um adversário pela falta de tradição dele nesse esporte. Futebol se ganha dentro de campo, não com a história que se carrega fora dele. É preciso que os clubes da América do Sul cheguem ao Mundial conscientes de que esse é um torneio de dois jogos e que é preciso vencer o primeiro para poder disputar o título. As lições têm se acumulado ao longo dos anos (já vieram com Inter, Atlético-MG, Atlético Nacional e agora com River), mas parece que a soberba ainda não nos permitiu aprendê-las.

CLUBES SUL-AMERICANOS NAS SEMIFINAIS DO MUNDIAL

2000: formato diferente, não teve semi
2005: São Paulo 3 x 2 Al Itihad
2006: Inter 2 x 1 Al-Ahly
2007: Boca Juniors 1 x 0 Etoile du Sahel
2008: LDU 2 x 0 Pachuca
2009: Estudiantes 2 x 1 Pohang Steelers
2010: Internacional 0 x 2 Mazembe
2011: Santos 3 x 1 Kashiwa Reysol
2012: Corinthians 1 x 0 Al-Ahly
2013: Atlético-MG 1 x 3 Raja Casablanca
2014: San Lorenzo 2 x 1 Auckland City (prorrogação)
2015: River Plate 1 x 0 Sanfrecce Hiroshima
2016: Atlético Nacional 0 x 3 Kashima Antlers
2017: Grêmio 1 x 0 Pachuca (prorrogação)
2018: River Plate 2 x 2 Al Ain (pênaltis classificaram o Al Ain)

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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