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Como os clubes da Série A estão se preparando para ter futebol feminino

Renata Mendonça

07/12/2018 07h29

Peneira do São Paulo para montar equipe feminina (Foto: Divulgação SPFC)

Há dois anos, a Conmebol fez uma nova determinação para as equipes que participam de suas competições no futebol masculino (Libertadores e Copa Sul-Americana): todos os clubes teriam de investir no futebol feminino para poderem se manter nas disputas do continente. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) reiterou a medida exigindo em seu próprio regulamento que todos os times da Série A do Campeonato Brasileiro tivessem equipes femininas em 2019.

"O solicitante (à licença) deverá ter uma primeira equipe feminina ou associar-se a um clube que possua o mesmo. Além do mais, deverá ter pelo menos uma categoria juvenil feminina ou associar-se a um clube que possua. Em ambos os casos, o solicitante deverá prover de suporte técnico e todo o equipamento e infraestrutura (campo de jogo para a disputa de jogos e treinos) necessária para o desenvolvimento de ambas as equipes em condições adequadas. Finalmente, se exige que ambos os times participem de competições nacionais e regionais autorizadas pela respectiva associação membro", afirma a confederação sul-americana no regulamento.

O prazo está acabando e por isso a reportagem foi atrás dos clubes para entender como eles estão se preparando para cumprir essa regra, o que acharam dela e como enxergam o cenário do futebol feminino no momento.

Quem já tem time feminino?

Na ordem da classificação do Campeonato Brasileiro de 2018, Flamengo, Internacional, Grêmio, Santos, Corinthians, Sport, América-MG e Vitória já tinham equipes femininas antes mesmo de começar o ano.

(Foto: SC Corinthians)

O rubro-negro carioca tem uma parceria com a Marinha e já disputa o Brasileiro feminino (tendo, inclusive, sido campeão em 2016); Inter e Grêmio têm projetos recentes e também já se credenciaram para disputar os torneios nacionais; o Santos teve uma equipe de mulheres em 2009 e 2010, mas encerrou o projeto em 2011, retomando apenas em 2015 – e foi campeão brasileiro em 2017, campeão paulista neste ano e vice da Libertadores; o Corinthians entrou no futebol feminino por meio de uma parceria com o Audax em 2015, mas a partir deste ano assumiu o investimento completo na modalidade e foi campeão brasileiro; o América-MG é um dos poucos clubes profissionais entre as mulheres e mantêm as atletas com carteira assinada inclusive; Sport e Vitória também já disputam o Brasileiro e mantêm o futebol feminino vivo há alguns anos no nordeste.

Quem já definiu os planos para 2019?

Entre os 12 clubes que ainda não tinham futebol feminino neste ano, seis deles já definiram o que farão para cumprir as regras da CBF e Conmebol e já estão se mobilizando para isso. São eles: São Paulo, Fluminense, Vasco, Chapecoense, Ceará e Bahia.

O clube do Morumbi já tinha um investimento na base feminina em uma parceria com o Centro Olímpico que rendeu já alguns títulos: o bicampeonato paulista sub-17 e a Libertadores sub-16. No último mês, o São Paulo passou a realizar peneiras para selecionar atletas para a equipe principal de futebol feminino; o Fluminense fez uma parceria com o Daminhas da Bola de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que já trabalhava com a modalidade até 18 anos. O clube usa a expertise do próprio projeto e fornece a estrutura para elas – e está promovendo peneiras para selecionar atletas para a equipe profissional.

Peneira do Fluminense atraiu quase mil mulheres (Foto: Laís Patrício/Divulgação Fluminense)

"O Fluminense é um clube pioneiro no Brasil no quesito base formadora no futebol masculino e quer ter essa excelência também na categoria feminina. Sendo assim, nosso objetivo é principalmente fomentar o futebol feminino no Rio de janeiro, principalmente na formação de novas atletas", afirmou Amanda Storck, gerente de futebol feminino do Flu às dibradoras.

O Vasco já trabalha com a base no futebol feminino, mas desde os tempos em que Marta foi revelada, não tem equipe profissional. Agora, o clube busca desenvolver internamente a modalidade e sem recorrer a parcerias com outras equipes. Segundo a diretoria, o Vasco já está buscando possíveis patrocinadores para viabilizar a manutenção do futebol feminino em São Januário.

"A gente vai fazer o trabalho da melhor maneira possível. A estrutura já existe, tem campo para treinar, a gente dá atenção na parte transporte, alimentar, e agora estamos estudando a questão de remuneração para as atletas e buscando patrocinadores para ajudar a financiar o projeto", observou Carlos Brazil, gerente de futebol de base do Vasco.

Chape fez parceria e já tem equipe feminina (Foto: Divulgação)

Chapecoense, Ceará e Bahia recorreram a parcerias com outras equipes já existentes. A Chape patrocina a ADELL (Associação Desportiva Lourdes Lago) e fornece a estrutura para a equipe de futebol feminino deles. Já o Ceará fez parceria com o Menina Olímpica, e o Bahia com o Lusaca, então todos já estão cumprindo a determinação da CBF, já que ela permite que os clubes ou desenvolvam o futebol feminino por si próprios, ou se associem a uma equipe que tenha a modalidade.

Quem ainda não tem definição?

Campeão brasileiro de 2018, o Palmeiras ainda não anunciou como fará para cumprir a regra. O presidente Maurício Galiotte chegou a dizer na premiação do campeonato que já havia até uma comissão técnica sendo montada, mas em contato com o blog, o clube afirmou que está "em fase final de discussão" sobre como se adequar a regra e que ainda não havia definição se o Palmeiras teria um time próprio ou buscaria uma parceria com algum time feminino já existente.

O Atlético-MG também está na mesma situação e afirma que ainda busca como "solucionar esse problema". O Cruzeiro diz que terá parceria com alguma outra equipe que já tenha a modalidade, mas também não definiu qual será ela e diz que aguarda a CBF informar como será o calendário do futebol feminino em 2019 para entender qual é o prazo para ter o time montado.

"A ideia é pegar um time que já existe aqui e trazer para a responsabilidade para o Cruzeiro. A gente está dependendo ainda da definição da CBF. O que a regra diz é que o Cruzeiro tem que ter equipe em condição de disputar competições oficiais a partir de 2019. Mas o Cruzeiro não está qualificado para o Brasileiro de futebol feminino segundo o regulamento atual, então só poderíamos disputar o estadual, que é no segundo semestre. Não sei como a CBF vai tratar essa questão. Fato é que no primeiro semestre não tem competição oficial da modalidade. Se obedecer o calendário, a gente vai ter time no segundo semestre", pontuou Marcone Barbosa, gerente de futebol do clube.

Futebol Feminino levou quase 70 mil pessoas ao Maracanã na Olimpíada de 2016

O Botafogo e o Paraná não responderam ao questionamento do blog. Já o Atlético-PR afirmou que no momento "não tem time feminino" e que esse é o posicionamento por enquanto.

O que os clubes pensam da regra?

Apesar de terem assinado o regulamento e "concordado" com a nova regra estipulada pela CBF no ano passado, os clubes encaram a "obrigação" de investirem no futebol feminino como um problema, segundo apurou o blog. "Daqui a pouco vão querer me obrigar a ter time de natação?", questionou o dirigente do Cruzeiro. "Os clubes não têm orçamento para cumprir isso", pontuou o Atlético-MG.

O custo de uma equipe feminina de ponta, como foi o Corinthians campeão brasileiro neste ano, não chega a R$3 milhões por ano, um valor que costuma ser quase que irrisório considerando o orçamento de um time masculino de camisa.

"O Cruzeiro hoje está trabalhando o assunto como pré-requisito para o time profissional disputar série A e Libertadores. Não existe um direcionamento, um interesse do clube em fazer futebol feminino. Hoje a postura do clube é de cumprir um pré-requisito para um objetivo final que é o time profissional masculino. Não há uma ideia de desenvolvimento do futebol feminino dentro do clube. Acho que, da maneira como está sendo feito, estão querendo desenvolver uma cultura que não existe, forçar o desenvolvimento de modalidade que não mostrou apelo", observou Marcone Barbosa.

A falta de apelo citada, porém, é uma questão relativa. Na Olimpíada de 2016, a quarta maior audiência dos jogos no Brasil foi o futebol feminino (quartas-de-final, Brasil x Austrália). Na mesma competição, o Maracanã lotou na semifinal e final (esta última que sequer envolvia a seleção brasileira em campo), com 70 mil pessoas no estádio para ver os jogos. Será que alguma outra modalidade atrairia tanta gente? Além disso, o Santos, por exemplo, teve seu maior público do ano na Vila Belmiro justamente com o futebol feminino, quando 13.867 estiveram na arquibancada para a final do Paulista contra o Corinthians.

Há alguns clubes que reconhecem a iniciativa como positiva nesse sentido. "Infelizmente, teve que ter uma obrigação para que o futebol como um todo se mobilizasse e abrisse esse espaço para a modalidade feminina. Mas já podemos ver o quão positivo é este movimento. Por exemplo, nas nossas  peneiras, onde tivemos quase mil atletas em todas as categorias, vimos meninas com muito talento e que talvez não tivessem uma oportunidade se não fosse essa obrigação", avaliou a gerente do Fluminense, Amanda Storck.

Futebol feminino pode ser negócio – a Europa mostra isso

Enquanto no Brasil, os clubes reclamam da obrigação, na Europa há uma movimentação grande dos times mais tradicionais em montarem suas equipes femininas pelo potencial que enxergam nesse negócio. Lá, a visão, inclusive, é essa: o futebol feminino é uma oportunidade de negócio que pode render muitos frutos financeiros.

Na Inglaterra, os clubes de camisa já investem (sem obrigação) no futebol feminino e atraem multidões (Foto: Divulgação)

Na Inglaterra, Manchester City, Chelsea, Arsenal e Liverpool fizeram times femininos nos últimos anos e isso fez com que o Manchester United se mobilizasse para, pela primeira vez na história, investir na modalidade. Na Itália, a Juventus criou sua equipe no ano passado e isso mobilizou Milan e Inter de Milão a também apostarem no futebol feminino. Na Espanha, Barcelona e Atlético de Madri também aumentaram seu investimento na modalidade, que já teve um aumento de 40% em audiência entre 2016-2017 e 2017-2018.

Como bem disse Roberto Braga, diretor de planejamento e desenvolvimento da Ferroviária, no II Seminário de Futebol Feminino organizado pela Federação Paulista de Futebol na última semana, é possível ter retorno com um trabalho bem feito.

"Quando a Ferroviária traz o futebol feminino para dentro, não é para ser legal ou fazer caridade. É porque tem retorno. Quanto mais fizerem as coisas direito, mais vai dar retorno", resumiu.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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