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Libertadores feminina: como as mulheres resgataram o futebol de Manaus

Renata Mendonça

29/11/2018 04h00

Foto: Divulgação Iranduba

*Por Amanda Porfírio, de Manaus, e Renata Mendonça para as dibradoras

Em Manaus não tem chance para o Nacional, Rio Negro ou Fast Club, times tradicionais de futebol masculino no estado. A bola da vez é o futebol feminino.

Em 2017, Manaus se tornou conhecida nacionalmente como a capital do futebol feminino no Brasil. O título foi simbolicamente conquistado após a principal equipe da cidade, o Iranduba, quebrar recorde de público nacional na Arena da Amazônia, em uma partida válida pela semifinal do campeonato brasileiro. Na época, o público exato de 25.371 pessoas, no jogo contra o Santos, superou todas as marcas registradas no futebol feminino brasileiro e incluiu o Iranduba entre os maiores nomes da modalidades no país.

Ser a sede da Libertadores feminina em 2018, era o que Manaus precisava para se consolidar ainda mais no cenário futebolístico internacional. Ao desembarcar na capital amazonense para acompanhar a competição, percebi o quanto o futebol feminino tem força por aqui. A Libertadores está presente nas conversas cotidianas das pessoas, nas manchetes dos principais jornais locais, e claro, o Iranduba, time representante da casa é quem sempre leva a maior torcida para o estádio.

Jordana Mariele é uma das responsáveis por organizar a torcida nos dias de jogos do Iranduba. Para ela, a expectativa de título na libertadores é grande. A confiança da torcida se reflete na arquibancada em dia de jogos do Iranduba.

Iranduba tem até torcida organizada em Manaus (Foto: Arquivo Pessoal)

"Temos um grupo no whatsapp e é por lá mesmo que nos organizamos. É uma equipe formada por 10 pessoas que ficam à frente. Cada um tem uma função específica", explica. Na arquibancada fica fácil identificar a torcida das donas da casa. Geralmente estão trajados com faixas, bandeiras, camisas da equipe, e cantam músicas de incentivo durante toda a partida. É nítida a diferença que a presença dos torcedores faz para o time em campo. Para Jordana, ver o Hulk da amazônia na libertadores é indescritível. "É único, é mágico. Porque é o time que o coração escolheu, né? Estou muito feliz e confiante", afirma.

Entre idas e vindas, pegar um Uber em meio a um congestionamento em Manaus já é motivo suficiente para iniciar uma conversa sobre a Libertadores e o futebol feminino em Manaus. Em uma dessas oportunidades, o Sérgio, um dos motoristas que encontrei, contou que as meninas do Iranduba são as únicas que estão representando bem o futebol amazonense e enaltecendo o nome do estado no país.

Segundo ele, quando o assunto é futebol, a equipe é a única responsável por levar um bom número de torcedores à Arena da Amazônia. "Eu mesmo nunca estive lá, minha esposa que sempre vai. Mas nesse sábado eu vou me juntar a ela para torcer pelas meninas e conhecer o estádio", afirmou.

Em outro papo de Uber, o motorista Leandro confessou que a Libertadores feminina precisava de mais divulgação. "A gente vê as matérias na TV, jornal, mas a informação ainda não chega pra todo mundo", disse o motorista.

História

Fundado em 2011 em Manaus, o Iranduba tem tido o apoio do governo do Estado por meio da SEJEL (Secretaria de Estado de Juventude, Esporte e Lazer) para reacender a chama do futebol nos manauaras.

(Foto: Rui Costa)

O clube passou a ganhar projeção nacional a partir de 2016, quando um novo projeto – bastante ambicioso – foi implementado no clube. O presidente Amarildo Dutra resolveu investir forte no futebol feminino e trouxe um diretor de futebol experiente para coordenar o planejamento. Lauro Tentardini, que era do tradicional Kindermann (Santa Catarina), aceitou o desafio de ir para Manaus e conseguiu trazer consigo 15 jogadoras daquelas que tinham atuado com ele na equipe catarinense.

A partir daí havia dois planos principais: o primeiro era tornar o futebol feminino no Iranduba algo profissional, com treino em dois períodos e toda a estrutura que as atletas precisassem; o segundo era (e é) ousado.

"O projeto do Iranduba nao é conquistar o título em cinco anos, é ser o maior clube de futebol feminino em cinco anos", afirmou Tentardini em entrevita ao podcast das ~dibradoras ainda em 2016.

O título nacional ainda não veio, mas o que o clube conseguiu na capital amazonense é impressionante. Não há quem não conheça o time ou tenha ouvido falar das jogadoras. Em 2017, a média de público dos jogos do Iranduba no Brasileiro foi de quase 8 mil pessoas por partida. Somando o jogo das quartas-de-final e da semi realizados na Arena da Amazônia, mais de 40 mil pessoas foram ao estádio torcer pelo time feminino (15.107 nas quartas contra o Flamengo e mais de 25 mil contra o Santos na semi).

Agora, o Iranduba aposta no sucesso da Libertadores para ganhar ainda mais projeção e bater mais recordes de público – e, principalmente, o clube almeja conquistar o primeiro torneio internacional de sua história.

Foto: Rui Costa

Sucesso

E se a falta de retorno financeiro no mercado esportivo é historicamente usada como explicação para o pequeno investimento no futebol feminino, a mesma desculpa não se aplica ao Iranduba. As camisas oficiais do time figuram entre as mais vendidas no Estado. Aline Maquiné é gerente da Boutique do Torcedor, loja que vende oficialmente as camisas do Iranduba e, de acordo com ela, a procura é grande o ano inteiro.

"Tanto pessoas daqui de Manaus, como de fora. Tem muita gente de fora que procura e compra também. Às vezes chegam muitos turistas na loja procurando a camisa", revela Aline, que precisou pedir uma nova remessa de camisas, pois a procura aumentou bastante na Libertadores.

No último sábado, dia de jogo decisivo que poderia render a classificação ao time amazonense na competição continental, a loja improvisou um ponto de venda na Arena da Amazônia, que se tornou quase parada obrigatória de torcedores para garantir o uniforme do time.

Foto: Divulgação Iranduba

Falando em decisão, os quase 4 mil torcedores que estiveram presentes na Arena da Amazônia no último sábado viram o Iranduba sofrer até os últimos minutos dos acréscimos para empatar o jogo e garantir a classificação histórica para a semifinal da libertadores. A equipe ainda precisou do resultado do segundo jogo do grupo para avançar na competição. Os torcedores permaneceram no estádio torcendo por uma vitória do Flor de Pátria, da Venezuela. E deu certo! As venezuelanas venceram o Cerro Porteño por 3×0 e garantiram o passaporte do Iranduba para a semifinal.

O caminho para o título está encurtando, mas para os amazonenses, o orgulho pela trajetória das meninas do Iranduba sempre estará presente, independente de levantar ou não a taça.

Nesta quinta-feira, o Iranduba enfrenta o Atlético Huila para definir a vaga na final – inédita para o clube – às 18h do horário local (20h de Brasília). A outra partida da semifinal será disputada no mesmo dia entre Santos e Colo Colo, às 20h30 horário local e 22h30 de Brasília. A transmissão acontece pelo facebook da Conmebol.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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