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Jogadoras da WNBA rompem acordo financeiro com a liga e pedem igualdade

Roberta Nina

06/11/2018 11h53

Seleção americana campeã olímpica nos Jogos do Rio, em 2016 (Foto: Reuters)

Elas são oito vezes campeãs olímpicas (seis delas consecutivas). Nove vezes campeãs mundiais. Representam o melhor basquete feminino do mundo por anos e ainda assim precisam lutar por igualdade e visibilidade.

Engana-se quem pensa que a vida de uma jogadora profissional de basquete nos Estados Unidos não é negligenciada. Não deveria ser, afinal, praticam um dos esportes mais consumidos no país e suas conquistas não as deixam atrás em comparação ao time masculino.

No último dia 01 de novembro, a jogadora americana Nneka Ogwumike, de 38 anos, e atual presidente da Associação Nacional de Jogadoras de Basquete Feminino (WNBPA) anunciou no The Player's Tribune que as jogadoras optaram romper com o CBA (Collective Bargaining Agreement), contrato entre os donos do time e a Liga que define a remuneração e bônus das atletas durante as temporadas.

Com o título "Aposte em mulheres", Nneka expôs as dificuldades que as mulheres encontram na modalidade e pede melhorias na remuneração, na visibilidade do basquete feminino e nas condições de trabalho.

"Isto não é apenas sobre negócios. Isso é profundamente pessoal. Este é o tipo de mundo em que queremos viver. Eu sou uma atleta de elite. Eu sou uma MVP. Eu sou uma filha. Eu sou uma irmã. Eu sou uma nº1 no draft. Eu sou uma jogadora da WNBA e eu sou a presidente da WNBPA. E quero que as jovens atletas sonhem em jogar em uma WNBA vibrante e próspera. Eu quero que elas sonhem em ter tudo isso", diz o início do texto escrito pela jogadora da seleção e do Los Angeles Sparks.

Na declaração, Nneka que escreve em nome das 144 atletas que compõem a WNBA, deseja que as futuras jogadoras sonhem em jogar em uma liga "com um ambiente de trabalho justo e consistente" e, apesar de relatar ter o privilégio de trabalhar como presidente do WNBPA, assume que a luta tem sido extremamente difícil.

Resumindo: trata-se de uma batalha trabalhista. Nneka e as demais jogadoras se recusam a seguir com o contrato estabelecido pelo CBA e querem firmar um novo acordo com a Liga. As atletas e os donos das franquias deverão negociar novos termos, onde o basquete feminino possa ser tratado com mais transparência e respeito

O CBA está em vigência desde 2014 e ele estabelece os valores de contrato e bônus até 2021. Nele, havia uma cláusula que permitia às atletas ou aos donos de franquias, quebrar o acordo até outubro deste ano. E assim, as jogadoras fizeram.

"Para mim, optar por não (continuar com a CBA) significa não apenas acreditar em nós mesmas, mas dar um passo além: apostar em nós mesmas. Significa ser um grupo de mulheres empoderadas no ano de 2018, que não apenas está cansada do status quo, mas está disposta a ir um passo além e rejeitar o status quo. E isso significa tomar uma posição, não apenas para as maiores jogadoras de basquete feminino de hoje, mas indo um passo além: tomando uma posição para as maiores jogadoras de basquete feminino de amanhã", escreveu Nneka.

(Foto: The Player's Tribune/Instagram)

Sob a alegação de que o potencial do basquete feminino é imenso e mal explorado, as jogadoras querem fazer parte das decisões e propor mudanças com bom senso, melhorando assim a qualidade de vida dos jogadores.

"Ao sair deste CBA, nosso principal objetivo é a total transparência. Nós só queremos informações sobre como a liga é como negócio, para que possamos nos unir e tomar decisões acertadas para o futuro do jogo. Você provavelmente não sabe disso mas, como jogadoras, nunca conseguimos ver os números. Nós não sabemos como a liga está indo", pontou.

Segundo Roberta Rodrigues, jornalista que vive em Nova Iorque e administra o portal The WNBA Hub, a diferença de salários entre jogadores da NBA e WNBA são assustadoras. É claro que a Liga masculina é mais consolidada e lucra bem mais que a feminina, mas ainda assim chega a ser espantoso.

"De 2014 para cá, as jogadoras passaram a adquirir mais consciência de seu papel como atletas e notaram que a WNBA cresceu muito. Hoje, o teto salarial de um jogador da NBA chega a US$ 99.1 milhões anuais. Para o basquete feminino, o salário máximo pago a uma jogadora de alto nível é de US$ 117 mil", contou Roberta às dibradoras. O jogador Sthepen Curry, um dos principais nomes do Golden State Warriors, recebe US$ 37 milhões anuais. Esse valor é muito maior do que fatura a WNBA inteira.

Mais um adendo importante: a WNBA pertence à NBA, assim como a G-League, a liga de desenvolvimento masculina (como se fosse a base do basquete). Recentemente a liga permitiu que a G-League ofereça salários de US$ 150 mil pra meninos de 17 anos que queiram deixar de competir pela Universidade para se tornarem jogadores profissionais. Dessa forma, o salário desses jovens atletas ultrapassaria os valores pagos pela WNBA à uma jogadora campeã olímpica, por exemplo.

Muito além de salários – no próprio relato escrito por Nneka ela cita, por exemplo, que as jogadoras não querem receber o dinheiro do LeBron James – elas pedem mudanças simples e significativas como por exemplo proporcionar às atletas de quase 1,90m uma viagem em voos executivos e sem atrasos.

Nneka Ogwumike (AP Photo/Elaine Thompson)

Para exemplificar na prática, segundo relatou Cassandra Negley no Yahoo Sports, a equipe Las Vegas Aces perdeu um jogo no final da temporada deste ano devido a atrasos com um voo comercial e todas as quatro equipes nas semifinais da WNBA foram forçadas a realocar seus jogos em algum momento durante os playoffs devido a conflitos de arena.

Nneka também cita na carta as outras funções que as atletas desempenham, além do basquete profissional. "Essas mulheres estão fazendo todas essas viagens loucas, por menos dinheiro e menos visibilidade do que elas valem – e, em seguida, elas estão dando aos fãs o melhor que eles têm, todas as noites. Elas estão jogando um pouco do basquete de alto nível que esse mundo já viu. Mas não só isso. A quantidade de inteligência, criatividade e ética de trabalho e diversidade que essa liga tem … é realmente incrível. Temos poetas, artistas, chefs e empresárias", relatou.

"Você sabia que Essence Carson trabalha na Capitol Records? Você sabia que Alana Beard e Marissa Coleman têm uma franquia Mellow Mushroom? E você sabia que Elena Delle Donne lançou sua própria empresa de design de móveis?" Estes são apenas alguns exemplos de jogadoras citados por Nneka que, além de atuar nas quadras, levam a vida como empresárias em diversos ramos de atuação.

Também é muito comum ver as atletas, depois de jogarem a temporada da WNBA – que geralmente acontece de maio a outubro – partirem para a Europa para disputar torneios Of Season. Além de manter o preparo físico e a competitividade, as jogadoras usam o período de pré-temporada para complementar sua renda, e com isso não conseguem descansar.

Crescimento da WNBA

(Foto: Reprodução Twitter/ESPN_WomenHoop)

Segundo Roberta, a WNBA tem um contrato com a ESPN que paga US$ 25 milhões para a Liga em troca das transmissões dos jogos. "Mas é aquele negócio, a ESPN é quem escolhe o que deseja transmitir. Por exemplo, eles não exibiram o jogo nº5 da semifinal da WNBA. Foi surreal, as pessoas não acreditaram", pontuou a jornalista.

A audiência da WNBA aumentou cerca de 60% e as vendas do League Pass (pacotes para assistir a temporada pela internet), em 2018, aumentaram 40% com relação ao ano passado.

"Para mim, essa quebra de contato era inevitável. Nos últimos anos, as jogadoras estão se manifestando muito publicamente em torno de vários temas, como direitos das mulheres, feminismo e política", afirmou Roberta que levantou outra questão importante: a WNBA está sem presidente no momento.

Lisa Borders recentemente renunciou ao cargo de presidente da WNBA para se tornar CEO da Time's Up, organização fundada para combater o assédio sexual, agressões e abusos contra as mulheres no ambiente de trabalho. A Time's Up foi fundada em 1o de janeiro deste ano para apoiar o movimento #MeToo, criado para combater as alegações de abuso sexual contra Harvey Weinstein, ex-produtor de filmes em Hollywood.

Lisa Borders, ex-presidente da WNBA (Foto: Reprodução Twitter/Lisa Borders)

Lisa foi a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da Liga e era muito capacitada. Sob sua gerência, o torneio alcançou os melhores números em relação a público e audiência na temporada regular dos últimos seis anos. Foi ela quem conseguiu fechar as primeiras transmissões da competição via streaming com o Twitter e firmou parceria com a FanDuel, responsábel por criar o primeiro game fantasy da WNBA.

Lisa também lançou o "Take a Seat, Take a Stand", projeto que doa parte do dinheiro arrecadado com a venda de ingressos da WNBA para organizações sem fins lucrativos, com foco no empoderamento de meninas e mulheres.

Com a saída de Lisa, Mark Tatum (vice-comissário da NBA) assumiu o posto provisoriamente. "É necessário encontrar alguém para o cargo de presidência da WNBA. Tatum está ligado diretamente com a liga masculina e anunciou que irá negociar com boa fé (o novo contrato) e dentro da realidades financeiras da WNBA. Esse é o tipo de discurso das pessoas que falam que não é viável para as jogadoras terem maior salário porque alegam que o que a WNBA arrecada não é compatível. Mas isso não é verdade", pontuou Roberta.

Como Nneka mencionou em sua declaração para o The Player's 'Tribune, não há informações específicas sobre quanto receita a WNBA traz ou quanto disso as jogadoras recebem em salário. Estima-se em 20%, enquanto na NBA são cerca de 50%.

O tweet abaixo postado pela pesquisadora Sam Ladner reforça a enorme diferença de salários e premiações entre homens e mulheres. Ela cita Breanna Stewart, jogadora campeã pelo do Seattle Storm e MVP do campeonato: "Eu vi a MVP da WNBA @breannastewart jogar; ela é incrível. Estou muito desapontada ao saber que ela ganha US$ 57 mil por ano (não é um erro de digitação), e a NBA paga aos meninos de 18 anos duas vezes mais."

O contrato com o CBA foi quebrado neste ano, mas ainda vale para 2019. A mudança dos novos valores deverá entrar em vigor para a temporada de 2020.

O apelo de Nneka Ogwumike tem fundamento e precisa ser ouvido. A mudança não vai acontecer de um dia para a noite, mas o primeiro passo foi dado. Não só pelas jogadoras de hoje, mas pensando nas garotas que estão chegando e que merecem viver em mundo menos desigual.

"Nós só queremos o que valemos. Nós só queremos o que é certo. Nós só queremos deixar este jogo um pouco melhor do que o encontramos para a próxima geração(…) Estamos optando por sair do nosso CBA por causa do mundo em que queremos morar. É um mundo um pouco diferente do que esse que temos agora. Mas achamos que é o momento para ser diferente. Obrigado por nos apoiar. Obrigado por acreditarem em nós. O futuro é brilhante – aposte nele. Aposte em mulheres."

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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