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Por que Simone Biles é um dos maiores fenômenos que o esporte já viu

Renata Mendonça

04/11/2018 10h12

Foto: Getty

Simone Biles fez mais uma vez o que parecia impossível nesta edição do Mundial de Ginástica em Doha. A começar pelo ouro por equipes que ajudou os Estados Unidos a conquistar na terça-feira, um dia depois de ter sentido fortes dores provocadas por pedras no rim. Depois, na última quinta, conquistou o ouro no individual geral mesmo com duas quedas e, no sábado, fechou sua participação com seis medalhas conquistadas, sendo quatro douradas.

Ela, que já era a primeira tricampeã da história dos Mundiais no individual geral, conquistou agora o tetra. São impressionantes 14 ouros somados nas quatro edições do torneio que participou. Uma carreira absolutamente incomparável para uma atleta de apenas 21 anos de idade e que começou na ginástica somente aos 8, uma idade até que tardia para a modalidade.

Considerando a história de vida da ginasta americana, os feitos dela tornam-se ainda mais incríveis. Biles foi abandonada pelo pai quando bebê e, aos três anos de idade, teve sua guarda retirada da mãe biológica por problemas com álcool e drogas. Ela foi, então, adotada pelo avô e sua segunda esposa, a quem hoje chama de pais. Começou na ginástica após uma atividade no colégio envolvendo instrutores de ginástica artística – eles viram o talento de Biles e enviaram um bilhete para seus pais: "Vocês já pensaram em colocá-la para treinar ginástica?".

Biles passou, então, a treinar com frequência e, ainda na adolescência, passou por outro trauma gigantesco: ela foi abusada sexualmente pelo ex-médico da seleção americana de ginástica, Larry Nassar. A ginasta revelou ter sido uma das vítimas após dezenas de atletas terem trazido seus casos à tona – o que levou o médico a ser condenado em um dos maiores escândalos sexuais que o esporte já viu.

"Eu também sou uma das várias sobreviventes que foram abusadas sexualmente por Larry Nassar. Acredite em mim quando digo que foi muito mais difícil expressar essas palavras em voz alta do que foi agora para colocá-las no papel. Há vários motivos para eu relutar em contar minha história, mas agora eu sei que não é minha culpa. Por muitas vez me questionei. Eu estava sendo muito ingênua? Foi minha culpa? Agora eu sei responder a estas perguntas. Não, não foi minha culpa. Não, eu não devo carregar uma culpa que pertence a Larry Nassar, USAG e outros", afirmou Biles em carta divulgada em janeiro deste ano.

Pelo grau de dificuldade das apresentações, Biles consegue boa pontuação mesmo com quedas (Foto: Getty)

Obsessão pela perfeição

A garota começou a treinar e, desde cedo, mostrava sua obsessão pela perfeição. Ela diz que a parte mais difícil do esporte é "treinar sua mente, porque quando sua mente está treinada, você consegue fazer o que quiser". A atleta hoje multicampeã costuma dizer que hoje sua mente está ainda mais treinada do que seu corpo.

"Acho que qualquer um consegue girar no ar, mas é a parte mental que você precisa superar. Acho que você pode convencer sua mente a fazer qualquer coisa e uma vez que você convence sua mente, seu corpo só vai junto com ela. Então acho que eu sempre fui muito boa nisso, às vezes minha mente diz isso antes do meu corpo. Eu penso: acho que posso fazer isso, e minha mente responde: sim, você consegue'", disse a ginasta em entrevista à BBC.

O diferencial de Biles é justamente o grau de dificuldade que ela coloca nas suas séries. Esse é um dos fatores que contribui na pontuação da ginástica, que é avaliada por grau de dificuldade e excelência na execução dos exercícios. Quanto mais difícil for considerada uma série, mais alta será a nota de partida dela. É por isso que Biles consegue pontuar tão à frente das adversárias – como foi o caso na Olimpíada de 2016, em que ela foi campeã no individual geral com uma diferença de mais de dois pontos com relação à segunda colocada, algo que nunca havia acontecido antes nos Jogos.

E é por isso também que ela conseguiu o incrível feito de ser campeã do solo em Doha mesmo com duas quedas na execução. A própria Biles saiu decepcionada com sua apresentação.

"Estou definitivamente mais decepcionada comigo mesma do que feliz. Sei que nenhuma outra ginasta é tetra, mas não é a ginasta que eu sou ir lá e errar assim. Mesmo ganhando, eu gostaria de ter sido diferente. É uma droga que eu não fui tão bem. Eu ainda ganhei, mas não sei se deveria. Você tem que conquistar, e não sei se tentei conquistar o ouro", disse a americana, que teve uma nota de partida 3 pontos maior do que a da segunda colocada, justamente pelo grau de dificuldade da série que ela iria apresentar.

Em Doha, ela terminou com a primeira colocação no solo, individual geral, salto e por equipes) e já se tornou a maior medalhista em Mundiais da história da ginástica, entre homens e mulheres. Na Olimpíada do Rio, a única que participou por enquanto, Biles saiu com quatro ouros conquistados e um bronze, algo absolutamente impressionante em qualquer categoria do esporte. E para terminar, a americana ainda conseguiu patentear um movimento da ginástica, que de tão difícil execução, foi chamado "Biles".

Foto: Getty

O movimento foi criado por ela e apresentado pela primeira vez em 2013. É um duplo mortal esticado,, com o diferencial de que no segundo movimento, ela consegue girar o corpo para o lado, tornando a execução ainda mais difícil por conta da rotação.

Segundo especialistas, Biles impressiona pela potência que consegue ter na aplicação dos exercícios na ginástica. Ela consegue unir força, velocidade e explosão, e isso faz com que seus movimentos sejam executados da maneira mais rápida e sutil possível.

Tudo isso faz com que Biles seja excepcional na ginástica. Há veteranos do esporte que já arriscam chamá-la de "melhor de todos os tempos". Pelo que ela mostra todos os anos, fica até difícil discordar.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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