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Homens tiveram prêmio 10 vezes maior que mulheres na Copa; atletas rebatem

Renata Mendonça

30/10/2018 04h00

Seleção americana foi campeã em 2015 e faturou US$ 2 milhões na premiação (Foto: Getty)

A Fifa anunciou no último fim de semana após reunião do seu Conselho que irá dobrar a premiação oferecida à seleção campeã da Copa do Mundo de futebol feminino no ano que vem, na França. Na última edição do torneio, os Estados Unidos levaram US$ 2 milhões pelo troféu – em 2019, o campeão levará para casa US$ 4 milhões pelo título.

O aumento, porém, ainda escancara a diferença das premiações entre a Copa masculina e feminina. O prêmio oferecido à França campeã mundial na Rússia foi de US$ 38 milhões – praticamente 10 vezes mais do que a seleção campeã no torneio feminino irá ganhar.

A premiação a ser distribuída por todas as 24 equipes participantes do Mundial feminino também dobrou: foi de US$ 15 milhões para US$ 30 milhões, enquanto o valor total distribuído entre os 32 times na Rússia foi de US$ 440 milhões.

O aumento, porém, ainda não ajuda a diminuir a enorme lacuna que existe entre o futebol feminino e masculino, segundo as atletas da modalidade. "Nós do FIFPro reconhecemos a disposição da Fifa em aumentar o prêmio das mulheres na Copa do Mundo e de fazer melhorias para apoiar o futebol feminino. No entanto, apesar dessas mudanças, o futebol ainda permanece longe da meta de igualdade para todos os jogadores da Copa do Mundo", afirmou o FIFPro, representante internacional dos atletas de futebol.

"O futebol, como o maior esporte do mundo, tem um papel fundamental a desempenhar na sociedade em geral para mostrar que as mulheres são valorizadas da mesma maneira que os homens. Apoiamos fortemente nossos membros, jogadores de times nacionais de mulheres em vários países, que escreveram para a Fifa nos últimos dias expressando sua consternação com a distribuição do prêmio em dinheiro", completou a nota.

A maior reclamação das atletas é ainda pela falta de igualdade nos "benefícios" oferecidos pela Fifa aos participantes da Copa do Mundo masculina. Os voos para a Rússia, por exemplo, de todas as seleções foram custeados pela entidade (até 50 representantes de cada delegação tinham direito a um lugar na classe executiva). No caso do Mundial feminino, a edição da França não terá todos os custos de voo executivo cobertos pela Fifa. Apenas os voos com duração superior a 4 horas terão suas despesas com a classe executiva pagas pela organizadora do torneio.

As premiações na Copa do Mundo feminina passaram a existir em 2011 (Foto: Reuters)

"É uma evolução e será um alívio para as seleções que viajam distâncias enormes. Mas a Fifa deveria aumentar a premiação feminina pelo menos nos US$ 40 milhões que aumentou a masculina", disse à AP Moya Dodd, ex-jogadora australiana e antiga representante do Conselho da Fifa.

"Líderes no esporte não devem se contentar em sentar e deixar as diferenças de pagamento entre homens e mulheres se tornarem cada vez maiores em termos absolutos", observou.

Outros benefícios que as equipes têm somente por participarem da Copa masculina são uma ajuda de custo na preparação dos times – US$ 1,5 milhão por seleção no caso desta última edição (US$ 48 milhões no total). Além disso, outros US$ 209 milhões são distribuídos pelos clubes que cedem seus jogadores para o Mundial. Esses benefícios nunca existiram no torneio feminino e agora existirão em valores bem menores: US$ 11,5 milhões para serem divididos entre 24 times para custear a preparação (cerca de US$ 479 mil por seleção) e mais US$8,5 milhões para serem distribuídos entre os clubes pela liberação das jogadoras.

Há ainda mais uma mudança (ainda mais básica do que as anteriores): até a última edição da Copa, era comum ver seleções adversárias ficarem hospedadas no mesmo hotel na cidade em que iriam jogar – algo proibido pela regra do Mundial masculino. Agora, a Copa feminina seguirá as mesmas diretrizes e manterá as delegações em hotéis separados.

Os números são justos?

Em uma análise lógica, racional – e, ao mesmo tempo, superficial – é possível entender por que há uma diferença tão grande entre os valores envolvendo a Copa do Mundo de futebol masculino e os valores envolvendo a Copa do Mundo de futebol feminino. É verdade que a primeira gera muito mais dinheiro para a Fifa do que a segunda e, portanto, pela lógica do mercado, deveria oferecer melhores recompensas para quem faz parte do jogo.

Mas antes de analisar os números pura e simplesmente como se eles resumissem tudo o que está envolvido nas duas realidades, é preciso olhar para trás, para o passado. Entender quais são as razões que explicam a Copa masculina gerar um lucro tão maior do que a feminina.

Primeiramente, isso se explica na história: o torneio dos homens existe desde 1930, há quase 100 anos, enquanto o feminino nasceu oficialmente em 1991 (foram só 8 edições até aqui contra 21 da masculina). Sendo assim, estamos falando de um produto muito mais consolidado e propagado, que obviamente gera bastante lucro a cada quatro anos – a Copa feminina também foi algo pouco estruturado nas primeiras edições e que hoje consegue gerar alguns dividendos conforme a competição se firma no calendário.

Foto: AFP Getty

Depois, vamos do histórico à história: o futebol feminino foi PROIBIDO em diversos países ao longo das décadas (no Brasil, esse decreto-lei vigorou de 1941 a 1979). Foram décadas de pouquíssimo desenvolvimento para uma modalidade que ficou parada no tempo, impedida de ser praticada. Isso obviamente também influencia na popularização do jogo entre as mulheres e no atraso técnico em que alguns países se encontram.

Olhando para esses dois principais motivos que ajudam a explicar os contextos diferentes do futebol feminino e masculino, dá para entender por que há uma diferença tão grande nos valores envolvidos para os dois Mundiais. Mas dá para entender também por que não se pode ignorar essas diferenças como se elas fossem naturais e não fazer nada a respeito delas.

"É necessário um investimento substancial para superar gerações de desigualdade e discriminação no jogo, para tornar o futebol o esporte mais importante do mundo para mulheres e meninas", como bem resumiu a Associação de Jogadoras da Seleção Feminina dos Estados Unidos.

É por isso que esse aumento não satisfaz. As jogadoras, acima de tudo, querem ver a Fifa trabalhando pelo desenvolvimento do futebol feminino todos os anos, não só em ano de Copa do Mundo, e não só simplesmente mexendo em um ou outro valor oferecido a elas. O aumento foi, sim, significativo, mas ainda é pouco perto do que se pode esperar da maior entidade do futebol mundial. Não é uma questão apenas de dinheiro, mas de olhar para a modalidade com o respeito que ela merece.

Seleção francesa foi campeã na Rússia e levou US$ 38 milhões na premiação (Foto: Getty)

Por exemplo, de 1991 até 2007, foram quatro edições de Copa do Mundo feminina com absolutamente NENHUMA premiação oferecida para as campeãs. E não estamos falando de uma entidade que sofre para pagar suas contas – não sofria antes e segue sofrendo ainda menos agora. Depois, a partir de 2007, a seleção vencedora ficaria com US$ 1 milhão – e assim foi nessa e na edição de 2011, sem aumentar nenhum centavo. Até que em 2015 chegamos a US$ 2 milhões para o vencedor e em 2019 chegaremos finalmente aos US$4 milhões. Não foi uma evolução tão grande assim, se considerarmos que a Fifa lucra cerca de US$ 6 bilhões em anos de Copa do Mundo.

É como se uma mãe tivesse dois filhos gêmeos e só investisse em um deles – que iria para escola particular, estudaria uma segunda língua, se alimentaria com os melhores recursos -, enquanto o outro frequentaria escola ruim, passaria fome, etc. As chances do primeiro ser bem-sucedido são imensamente maiores do que as do segundo.

Por essas e outras, precisamos parar de falar em lógica de mercado, para começar a falar em lógica de oportunidade. Bom que houve o aumento e que há o reconhecimento da Fifa sobre o caminho a ser percorrido para diminuir a lacuna entre o futebol feminino e masculino. Mas ainda pode ser melhor (não só com relação a valores de premiação, mas principalmente com relação a desenvolvimento da modalidade).

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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