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Grávida de 7 meses com a bola nos pés: quando futebol ajuda futuras mães

Renata Mendonça

25/10/2018 06h00

Foto: Arquivo Pessoal

Ver mulheres jogando futebol pelas ruas hoje em dia é um pouco mais comum do que no passado, mas ainda não tão recorrente quanto gostaríamos. Ver uma mulher grávida jogando bola por aí com uma barriga de sete meses de gestação, então, eu diria que é praticamente impossível.

Mas engana-se quem pensa que o futebol pode fazer mal para a gravidez. Para Thais Nobre Barreto, de 25 anos, a bola é, na verdade, um excelente refúgio para as alterações de humor e as mudanças que vê acontecendo no seu corpo durante a gestação da pequena Sarah. Estudante de Educação Física e amante do esporte desde que se entende por gente, ela não queria abandonar essa paixão durante os nove meses de gravidez e, por isso, foi estudar sobre como poderia seguir com a prática esportiva sem prejudicar seu bebê.

"Quando fiquei grávida, muitas pessoas principalmente parentes disseram: 'agora você vai ter que parar'. Mas eu sempre fui extremamente ativa, então sendo estudante de Educação Física, fui buscar conhecimento e embasamento científico sobre exercícios fisicos na gestação", explicou a jovem em entrevista às dibradoras.

Thaís nunca deixou de praticar esporte. Desde pequena, era a menina travessa implorando para os meninos deixarem que ela jogasse futebol com eles. Quando insistiam em não deixar, ela ia atrás de algum professor que pudesse intervir em seu favor. Nunca abandonou a bola, passou a jogar na faculdade e, antes de engravidar, tinha treinos 4 vezes por semana, jogava futevôlei aos sábados e domingos em Ubatuba, onde mora, e ainda praticava Crossfit. Assim que soube da gestação, entendeu que deveria diminuir o ritmo – mas parar não era algo que ela estava querendo fazer.

Foto: Arquivo pessoal

"Nos primeiros meses, logo que descobri, diminuí bastante o ritmo, parei com o CrossFit, futebol society, porem mantive as caminhadas, trotes leves e as altinhas na praia. Após o primeiro trimestre voltei aos treinos de crossfit considerando a relação de diminuição de carga e controle de intensidade", contou.

"Não voltei para o society por ser um esporte coletivo intenso e de contato, aumentando e muito o risco de lesões às mamães e aos bebês, mas continuei praticando as altinhas e treinos na areia da praia com bola, que são uma ótima opção para quem já praticava a modalidade e não consegue viver longe da bola."

A prática de esporte por mulheres grávidas ainda é um tabu muito grande até mesmo no meio profissional. Na década de 1980, a atacante Isabel, que na época jogava vôlei pelo Flamengo, atuou por algum tempo quando estava grávida e já era possível ver sua barriga de gestante no uniforme – ela ouviu muitas críticas por isso.

"Estavam me enchendo, falando muito, me julgando e em vez de o vôlei estar na frente, a curiosidade maior era a de uma mulher grávida jogando", relatou em entrevista à TV Globo.

No entanto, há recomendações médicas que apontam que, se a mulher já tem a prática esportiva como rotina na sua vida, é aconselhável que ela siga com a prática enquanto se sentir bem durante a gravidez.

Thaís jogava campeonato no society, mas deu uma pausa nos torneios durante a gravidez (Foto: Arquivo Pessoal)

"Se a gestante tiver acompanhamento médico, se fizer os exames e sua gravidez estiver saudável e sem complicações, a prática esportiva pode e deve ser mantida, mesmo porque combate uma serie de doenças que podem surgir na gravidez como por exemplo obesidade e pré-eclâmpsia, e também auxilia muito no trabalho de parto e pós parto. Porém a pratica deve ser em em menor intensidade e dependendo da modalidade, adaptada", explicou Thaís.

Mesmo com todo o conhecimento que foi buscar para poder entender como poderia seguir com sua rotina esportiva, Thaís não escapou de algumas críticas. "Sempre enfrentamos principalmente das pessoas que se preocupam e não entendem a capacidade corporal relacionada a individualidade de cada mulher, mesmo na gravidez", diz.

No entanto, hoje ela sente todos os dias os benefícios de ter se mantido no esporte. Com 7 meses de gestação, ela ainda se sente bem disposta, consegue controlar melhor as alterações de humor (afinal, a gravidez é uma explosão de hormônios) e, principalmente, se sente muito bem fisicamente.

"Os benefícios são inúmeros, controle de peso, disposição, bom humor, entre outros. Alguns exercícios preciso adaptar por causa do crescimento da barriguinha, porque já estamos no sétimo mês, mas até o momento ela não impediu a prática das altinhas na areia, fundamento do futebol e do futevôlei, que é uma grande paixão", conta.

"A gravidez é um mix de sentimentos e reações físicas. Algumas horas, os enjoos e efeitos fisicos são desagradáveis, mas começa a nascer um amor inexplicável dentro de nós. E o esporte ajuda muito a passar por essa fase. Apesar dos desconfortos presentes no corpo, o esporte traz alegria e uma série de bons sentimentos a nós mamães em construção e ao nosso bebê".

Foto: Arquivo Pessoal

Thaís soube desde muito cedo que passaria a vida ouvindo gente dizendo o que ela poderia ou não fazer. Foi assim quando menina, quando queria jogar aquele esporte que todos diziam ser "coisa de menino". Ela não desistiu na época, nem agora, quando todo mundo virou especialista em gravidez para dizer a ela o que poderia ou não fazer.

"Quando eu era criança, eu estava sempre nas quadras dos bairros 'brigando' para jogar! O amor ao esporte não me deixava parar mesmo ouvindo que eu era 'ruim' ou mesmo sendo a última a ser escolhida pelos meninos. Consegui inclusive treinar na prefeitura nos times masculinos porque não havia turma feminina. Mas eu nunca desisti, porque bastava eu ver uma bola, que meus olhos brilhavam", relata.

Agora, as lições que aprendeu ao longo da vida, ela pretende passar para Sarah, a pequena que está por vir. No que depender dela e do marido, que é jogador de futebol, a bola vai estar sempre presente na vida da menina. "Vou incentivá-la à prática esportiva em geral, mas no que depender da família, com uma mamãe que ama bola, um papai e um cunhado jogadores profissionais e um vovô treinador, será quase impossível ela não gostar de futebol", brinca.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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