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A polêmica do sunquíni no handebol e como brasileiras mudaram essa regra

Renata Mendonça

19/10/2018 08h57

Foto: divulgação Comitê Olímpicos argentino

Os Jogos Olímpicos da Juventude reacenderam uma polêmica que havia ganhado força principalmente no ano passado, após um protesto de um time feminino de handebol de praia no Rio de Janeiro. Em Buenos Aires, a discussão se deu por conta do questionamento de torcedores e torcedoras sobre uma aparente escolha sexista dos uniformes masculinos e femininos da modalidade: enquanto os homens jogam de short e camiseta, as mulheres jogam do que se chama "sunquíni" e top.

A seleção argentina feminina foi campeã na modalidade, conquistando o ouro em casa, e as jogadoras não reclamaram do uniforme. Elas dizem que "é o modelo mais cômodo para elas, que sempre foi usado". Mas nos principais veículos de imprensa houve o questionamento: "Por que as meninas do handebol de praia devem jogar de biquíni?", perguntou o site da TV argentina TyC.

Essa mesma questão foi levantada em terras brasileiras no ano passado, quando o Cepraea foi jogar uma partida do Campeonato Carioca de Handebol de Areia utilizando short por baixo do sunquíni exigido no regulamento. A arbitragem, no entanto, disse que se elas entrassem em quadra assim, perderiam de W.O. por descumprimento das regras. As atletas, então, tiraram uma foto em protesto e abriram a discussão nas redes sociais.

"Nós somos donas dos nossos corpos e acreditamos que temos o direito de escolher o nosso uniforme. Somos contra a objetificação da mulher dentro do esporte e por isso nos manifestamos pela mudança da regra", afirmou Taís de Almeida, atleta do Cepraea de handebol de areia, às dibradoras

À época, o regulamento da Federação Internacional da modalidade determinava que o uniforme feminino do handebol de areia precisava ser assim: "usar biquíni que esteja de acordo como restante do uniforme, com um corte ajustado e num ângulo ascendente até a parte superior da perna. A largura lateral deve ser de, no máximo, 10 centímetros".

Já a regra para os homens dizia: "Os shorts dos jogadores podem ser mais largos, mas devem permanecer 10 centímetros acima do joelho".

Foi desse protesto que as jogadoras iniciaram no Rio de Janeiro que surgiu uma mudança na regra internacional. Pela pressão das atletas brasileiras, hoje o regulamento contempla também o uso do short no uniforme oficial para a prática da modalidade. Sendo assim, são os times que escolhem como querem jogar: se com o sunquíni ou com short.

Foto: Divulgação Cepraea

"Começamos (a mobilização) aos poucos e primeiro nos manifestamos publicamente contra a regra impositiva do Rio de Janeiro, nos mobilizando e recebendo apoio de outras equipes. Então, conseguimos levar o assunto para uma conversa com a Federação, sugerindo regramento que incluísse o short no campeonato do Estado. A nossa opinião foi ouvida e a nova regra foi levada a votação e aprovada, passando a vigorar em campeonatos do estado (RJ). Aí, a mobilização aumentou e iniciamos um diálogo com a Confederação Brasileira, que também alterou o regulamento no âmbito das competições nacionais", contou Taís.

"O Brasil é uma das maiores potências no handebol de areia, sendo multicampeão no masculino e no feminino. Assim, tem grande relevância no cenário internacional. Acreditamos que por termos nos posicionado, conseguido mobilizar tantas pessoas do esporte e  tido uma repercussão tão grande nas mídias sociais e jornais de expressão, acabamos por dar visibilidade a questão, que passou de alguma forma a ser discutida também para o regramento internacional", reforçou

Por que a diferença?

A justificativa das atletas do Cepraea era de que não era confortável jogar com o sunquíni na areia. "No geral, o sunquíni incomoda muito. Tanto as jogadoras quanto a goleira, que é o meu caso. E não me refiro apenas ao desconforto físico, mas também ao desconforto de estarmos expostas demais, sem necessidade. O sunquíni, muitas vezes, fica entrando no  bumbum, subindo ou descendo, expondo mais ainda nossos corpos, além de incomodar bastante", afirmou às dibradoras Isabela Fleury, goleira do time que fez o protesto.

Como goleira do time, Isabela era uma das que mais sofria com o sunquíni, já que tinha muito contato com a areia ao cair para defender os ataques adversários. Ela cita também o desconforto do uniforme para atletas que tinham que jogar durante o período menstrual.

"A quantidade de areia que entra dentro do sunquíni é muito desconfortável, principalmente para as goleiras que precisam cair na areia em posição de 'pernas abertas' para defender bolas mais laterais. Temos também o desconforto durante o período de menstruação. Como usar sunquíni com absorvente? Como fica nossa higiene? O desconforto é geral. Somos mais propensas a adquirir "doenças genitais simples", como infecções, e a areia apenas contribui com isso", pontuou.

Foto: EPA/EFE

O protesto do time delas no fim de agosto do ano passado ganhou força nas redes sociais e chegou a ter repercussão internacional. Elas seguiram fazendo pressão na confederação brasileira e também na Federação Internacional para que houvesse uma mudança no regulamento que permitisse às atletas jogarem de short se assim desejassem.

O técnico da seleção brasileira de handebol de areia, Antonio Hermínio Guerra, explicou que a regra da federação sobre o uso do sunquíni não tinha critério técnico, mas sim estético.

"Era uma questão estética, uma questão de chamar a atenção (com esse uniforme). Eu achava sexista, mas eles bateram o pé durante muito tempo. Agora, depois dos protestos delas, elês atualizaram o uniforme", disse.

Mesmo com a mudança, muitas atletas ainda adotam o uso do sunquíni por acharem mais cômodo jogar com ele – como foi o caso da seleção argentina, campeã dos Jogos Olímpicos da Juventude.

Mas no Brasil, muitos times aprovaram a mudança e já estão  jogando de short as competições nacionais.

"Havia também muito desconforto quanto aos homens observando e olhando, principalmente quando o sunquini sai um pouco do lugar ou quando caímos na areia de bumbum para cima. Fotógrafos pegavam os momentos mais desconfortáveis possíveis, sempre buscando imagens em que estávamos mais expostas. Inclusive reclamamos disso também. O foco é o jogo, não as mulheres", observou a atleta.

O treinador da seleção ressaltou a importância do posicionamento de algumas jogadoras brasileiras para pressionar a Federação pela mudança no regulamento e agora diz que esse assunto já está "ultrapassado".

"Acredito que esse seja um assunto menor no momento em que a modalidade vive uma grande possibilidade de se tornar olímpica, teve um desempenho maravilhoso nos Jogos Olímpicos da Juventude. Essa discussão me parece que é ultrapassada", concluiu Guerra.

Thais reforça que a reivindicação das jogadoras brasileiras não tinha como objetivo proibir o uso do sunquíni, mas sim contar com a opção de usar outra vestimenta.

"Não somos contra o sunquini. Somos a favor de ter o direito de escolha do nosso uniforme. Queremos que o handebol de areia seja para todas as mulheres. É preciso entender que cada uma tem uma relação diferente com seu corpo, com sua religião e seus valores e um uniforme não pode ser um impeditivo para a prática esportiva, especialmente quando não há qualquer justificativa técnica para a vestimenta. Mas é importante deixar claro que a questão central aqui está para além da relação que temos com nossos corpos, nossas religiões ou valores. A questão central foi e continuará sendo sobre ser inaceitável a utilização dos nossos corpos para promoção da modalidade. Nós somos atletas e queremos promover o esporte jogando", declarou a jogadora.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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