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No país que acolheu Marta, clubes sofrem para sustentar futebol feminino

Renata Mendonça

15/10/2018 14h41

Marta atuou pelo Rosengard de 2014 a 2017 (Foto: Divulgação "Football For Better or For Worse")

Um dos melhores países do mundo no ranking de igualdade de gênero, a Suécia sempre foi referência no futebol feminino. Principalmente depois de 2004, quando o país acolheu aquela que se tornaria a melhor jogadora de todos os tempos, Marta Vieira da Silva. Entre idas e vindas, a brasileira atuou em terras suecas por 9 anos de sua carreira e lá é tão idolatrada quanto Zlatan Ibrahimovic, ídolo da seleção – ela já até tirou a cidadania no ano passado para retribuir tudo o que recebeu da Suécia.

Só que mesmo com todo esse histórico favorável – tanto à igualdade de gênero, quanto ao futebol feminino -, os clubes suecos ainda enfrentam muitas dificuldades para manter a modalidade no país. É desse assunto que trata o filme "Football for better or for worse" ou "Futebol para melhor ou para pior", na tradução para o português. A obra foi produzida com base no Rosengard, um dos clubes que Marta jogou por 3 anos e que luta para manter o futebol feminino vivo na Suécia, e foi exibida no festival CineFoot no último mês com o apoio da Embaixada da Suécia e do projeto Diálogos Nórdicos*.

"Eu acompanhei o clube de perto na temporada 2015-2016, durante o período que o time estava enfrentando dificuldades financeiras e essa ainda é uma realidade. O clube sobrevive graças a um grande patrocinador que é muito engajado na causa. Mas claro que não há uma estrutura sustentável em um clube que é dependente exclusivamente de um grande patrocinador", explica Inger Molin, diretora do filme, em entrevista às dibradoras.

Ela conta que a ideia de fazer esse filme surgiu justamente quando ela teve contato com os dirigentes do Rosengard e entendeu as dificuldades que um clube de futebol feminino passava para sobreviver – enquanto o dinheiro não parava de jorrar para o futebol masculino.

"Eu almocei com o presidente do Rosengard, Klas Tjebbes em Janeiro de 2015. Ele sempre foi um publicitário de sucesso e, em 2014, assumiu o clube acreditando que poderia, com suas qualidades de relações públicas e marketing, e também com sua rede de contatos, encontrar muitos novos patrocinadores para o Rosengard e ajudar o clube a se reerguer. Mas em pouco tempo, ele viu que estava errado. E ficou muito frustrado quando soube da diferença da divisão de dinheiro da Uefa para o futebol feminino e masculino na Champions League. 'Faz sentido as mulheres receberem apenas 0,2% do dinheiro?', ele me perguntou", relatou a diretora sueca.

Cartaz do filme que fala sobre o Rosengard, da Suécia (Foto: Divulgação "Football For Better or For Worse")

Uma das coisas que o filme ressalta é justamente essa diferença de investimento no futebol feminino. O documentário ressalta as dificuldades impostas pelo preconceito com a modalidade, a falta de estrutura e, principalmente, a falta de oportunidades para as mulheres jogarem futebol. Conforme destacou Therese Sjögran, ex-capitã da seleção sueca e jogadora do Rosengard por 13 anos, "o futebol masculino gera mais dinheiro e, por isso, é justo que receba mais dinheiro. Mas a diferença que existe hoje não pode ser considerada razoável".

Presidente do clube de 2014 a 2016, Klas Tjebbes também falou às dibradoras sobre essas diferenças e as dificuldades de se manter o futebol feminino vivo no país.

"O problema é que as organizações do futebol, como a Uefa, a Federação Sueca, a Fifa, são todas dirigidas por homens e para homens. Eles têm muito pouco conhecimento sobre igualdade de gênero. E, se tiverem qualquer entendimento sobre isso, não fazem nada para mudar. A Uefa e as federações precisam desenvolver o futebol em todas as áreas. A função delas não é só com o futebol masculino, é com o futebol em geral", destacou.

Filme foi exibido no Cinefoot neste ano, em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte (Foto: Divulgação "Football For Better or For Worse")

"Eles colocam todo o dinheiro no futebol masculino. Na Champions League, por exemplo, 99,8% do dinheiro vai para a Champions League masculina, e só 0,2% vai para a Champions feminina. O torneio feminino sequer pode usar o hino da Champions nos seus jogos. Isso é um escândalo", protesta.

O único clube onde o futebol feminino é tratado como profissional na Suécia é o Rosengard. Ali, as atletas se dedicam exclusivamente ao futebol e têm uma estrutura bem organizada para isso. Por lá, o futebol feminino tem 6 divisões e 72 equipes no total – no Brasil, são apenas duas divisões nacionais, cada uma com 16 equipes. No entanto, há ainda dificuldades de manter as equipes, de conseguir patrocínio e também de atrair um bom público para todos os jogos.

"Na Suécia, assim como no resto do mundo, o futebol feminino é ainda algo muito menor do que o masculino. Isso é natural, já que os homens jogam futebol há 120 anos, e as mulheres começaram nesse esporte em um movimento recente, desde 1970 de uma maneira organizada aqui na Suécia. Diante disso, o futebol feminino tem cerca de 10% do público, dos patrocínios e da cobertura da mídia em comparação com o futebol masculino. Isso é natural, porque o futebol feminino vai continuar se desenvolvendo para chegar lá. Muita coisa já melhorou, mas acho que o problema é que tudo anda muito devagar", explicou o ex-presidente do Rosengard.

Apesar das dificuldades dos clubes, o futebol da seleção sueca vai muito bem – o time foi vice-campeão olímpico no Rio de Janeiro e chegou a eliminar o Brasil na semifinal disputada nos pênaltis no Maracanã.

À direita, o ex-presidente do Rosengard em um debate sobre o filme; para ele, a divisão de investimentos da Uefa na Champions League masculina e feminina "não é razoável" (Foto: Divulgação "Football For Better or For Worse")

É por tudo isso que a diretora sueca Inger Molin decidiu usar o futebol feminino como tema para um documentário. A ideia dela é que o assunto chegue ao público, que as pessoas se deem conta dessa diferença nos investimentos, do preconceito que ronda a modalidade e que isso permita mudanças e melhorias para o futebol feminino.

"Acho que tudo isso acontece devido a uma questão de gênero. Uma mudança só acontecerá quando os homens que comandam as grandes organizações do futebol começarem a ver o futebol feminino como algo tão importante quanto o futebol masculino", pontuou.

"E foi assim que decidi fazer esse documentário. Meu objetivo era iniciar uma discussão sobre a desigualdade no futebol feminino. Se nós não falarmos sobre isso, nunca vai mudar", concluiu a diretora.

*O Diálogos Nórdicos é um projeto das embaixadas nórdicas e do Instituto Cultural da Dinamarca que promovem o debate sobre igualdade de gênero no Brasil nas mais diversas esferas.

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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