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Fanáticas, torcedoras mirins fazem sucesso na internet falando de futebol

Renata Mendonça

12/10/2018 04h00

*Por Renata Mendonça e Roberta Nina

Há uma ideia generalizada que se propaga por aí de que futebol é coisa de homem, é coisa de macho. Ideia essa muito ultrapassada, por sinal, como sempre mostramos neste blog. E, aproveitando o dia das crianças, comemorado neste 12 de outubro, trazemos as histórias de duas provas vivas de que futebol não tem mesmo idade, nem gênero.

Rogério do Amaral virou fanático pelo São Paulo desde pequeno por influência do pai e, por consequência, sempre sonhou em ter um filho que fosse seu companheiro de estádio. Mas, por ironia do destino, veio Isabela. O pai de Rogério chegou a dizer ao filho que ele não teria seu parceiro de estádio, mas mal sabiam eles que a Bela seria mais fanática que os dois juntos.

"Pão Paulo" foi a primeira palavra que ela disse, antes mesmo de pai ou mãe. E hoje, aos 12 anos, ela virou porta-voz da torcida na internet, com uma página e vídeos falando sobre sua maior paixão, o São Paulo Futebol Clube.

Com Bruno Eduardo, a história foi diferente. Ele mal precisou se esforçar muito com Mariana, que desde bem pequena via todos os jogos do Flamengo. Percebendo a paixão dela, os pais logo a levaram para o estádio e a menina se tornou um ícone da torcida. Foi assim que Bruno pensou em criar um canal para ela no Youtube para incentivar outros pais a levarem suas meninas no estádio, porque elas também podem ser tão fanáticas por futebol quanto os meninos. Completando dois anos em 2018, o "Princesa Rubro-Negra" já tem mais de 30 mil inscritos, e Mariana, que tem apenas 9 anos de idade, cultiva fãs mirins em todos os lugares do Brasil.

As duas sofrem, comemoram e se divertem falando de futebol na internet e mostrando que a arquibancada é lugar de todo mundo.

Incentivo desde cedo 

A paixão de Mariana pelo Flamengo veio, literalmente, desde o berço. Com 2 anos de idade, quando os pais costumam encher suas meninas de rosa, ela já pedia pelo vermelho e preto. "Ela pedia sempre pra colocar as roupas do Flamengo para sair na rua, sempre foi muito interessada. Posso falar porque eu tenho um filho menino, o Felipe, que não é tão interessado quanto ela", explicou o pai, Bruno.

Foto: Alexandre Durao

Vendo o envolvimento da garota com o futebol, os pais logo quiseram levá-la ao estádio. E foi lá que ela se encontrou. "É uma coisa que eu gosto muito de fazer, ir nos estádios, estar com o Flamengo, junto com um monte de rubro-negros, é como se fosse estar dentro de uma família. É um lugar que eu posso fazer tudo o que eu gosto, cantar, gritar. Aqui em casa eu não posso fazer, minha mãe não deixa eu gritar dentro de casa", brinca ela, rindo.

O interesse de Mariana pelo Flamengo despertou no pai a ideia de mostrar para outros pais que futebol não precisa ser só "coisa de homem".

"Quando eu criei o canal, foi para quebrar esses paradigmas, porque eu tenho muitos amigos homens que têm filhas meninas e queria mostrar para eles que futebol não é só coisa de homem. As meninas também podem ser tão fanáticas, tão torcedoras, quanto os meninos", disse.

Deu tão certo que hoje o canal já tem quase 40 mil inscritos, e Mariana coleciona fãs ao redor do país. Os vídeos mostram as reações da menina no Maracanã e a torcida dela pelo time do coração.

"A gente tenta passar algumas diretrizes que são importantes, por exemplo: ela não fala palavrão, então ela não canta músicas que têm palavrão. Ela não xinga jogador. Ela pode cornetar, e faz isso mesmo, critica, mas ela não fala palavrão", pontua.

Foto: Arquivo Pessoal

A paixão da Mariana pelo futebol fez com que ela também se interessasse por jogar bola. No ano passado, ela pediu uma chuteira de aniversário para o pai e agora joga sempre com os meninos na quadra do prédio e na escola. Isso fez com que a garota passasse a questionar também por que não tem outras amigas para jogar com ela.

"Acho que as meninas tinham que jogar mais futebol para os meninos poderem ver que as meninas também jogam. Todo mundo pode jogar futebol, tanto menina, quanto menino. Todo mundo joga vôlei, queimada, tudo junto, por que futebol não pode jogar junto? Elas às vezes não jogam porque eles não deixam, mas não deveria ser assim", disse a princesa rubro-negra.

Ela também já sabe a receita para se ter mais meninas e mulheres nos estádios. "Falta os pais incentivarem suas filhas, levarem as filhas para os estádios. Minhas amigas nunca foram para o estádio, por exemplo, e às vezes é porque o pai não quer levar, a mãe não gosta de futebol, mas minha amiga gosta. Então falta interesse dos pais de levá-las para o estádio, incentivá-las a verem os jogos", concluiu.

Afinal, não precisa ser menino pra gostar de futebol – e Isabela também é prova disso.

Foto: Arquivo Pessoal

Paixão familiar

Rogério Nunes do Amaral tem 39 anos e é são-paulino desde criança, paixão que herdou de seu pai, Messias Amaral. Era com ele que Rogério ia ao estádio e torcia pelo time do coração.

Quando descobriu que teria uma netA, Seu Messias disse ao filho: "Caramba, você não vai ter o seu parceiro de estádio. Você foi meu parceiro, mas terá uma menina. Depois vai ter que fazer um menino para ir aos jogos com você."

Bela no estádio ao lado do pai Rogério (Foto: Reprodução)

Mas o que Seu Messias não pensou é que a paixão pelo futebol não escolhe cor, raça, idade ou gênero. Ela simplesmente acontece, ainda mais quando um time de futebol é responsável por fortalecer laços familiares.

"Meu pai faleceu quando a Bela tinha nove meses, essa é a minha maior frustração. Meu pai não viu que ela transcendeu o amor pelo São Paulo que eu e ele tínhamos juntos. Ela é louca, entendeu? O que eu faço com a Bela hoje, essa cumplicidade, ir ao estádio, o meu pai fazia comigo"

Sim, a Bela é maluca pelo São Paulo Futebol Clube. Em entrevista às dibradoras, a torcedora de 12 anos disse começou a torcer pelo time do Morumbi na época em que o Tricolor conquistou seus três títulos brasileiros. "Era impossível não ser são-paulina", afirmou.

Bela comparece em quase todos os jogos do São Paulo no Morumbi (Foto: Reprodução)

O pai de Bela revelou que a garota pediu para criar um canal no Youtube para que ela pudesse falar sobre seu time de futebol aos oito anos de idade. "Naquele momento eu brequei. Falei pra ela que faríamos mais pra frente, mas a Bela vai assiduamente comigo ao estádio desde seus cinco anos de idade. Ela vai a cerca de 30 jogos por ano", contou Rogério.

E como é possível frear uma paixão que só cresce? Parceira do pai, Bela vai a praticamente todos os jogos no Morumbi e em jogos fora de São Paulo também. Neste ano, conheceu o Maracanã e presenciou a importante vitória são-paulina no Brasileirão por 1×0 no Rio de Janeiro.

Há dois anos, a página "SPFC Hereditário" foi criada por Bela com a ajuda do pai. Rogério até tentou fazer com que a página levasse o nome da filha, mas ela fez questão de batizar seu próprio canal, reforçando o amor que vem de família.

"Quero um nome para o canal que ligue o amor que vô teve pelo São Paulo, passou pra você e chegou até mim. Vamos chamar de SPFC Hereditário", disse a menina ao pai.

O objetivo de Bela com a página era ser uma porta-voz dos torcedores do São Paulo, como ela mesma nos contou. "A vontade de criar o canal surgiu quando eu senti uma enorme vontade de mostrar o Morumbi ao vivo e dar as melhores e mais confiáveis notícias do São Paulo para as pessoas que não tinham acesso a isso", contou a torcedora.

O vídeo mais acessado na página que a garota tem no Facebook foi gravado no Morumbi, durante a partida entre São Paulo e Ituano pelo Campeonato Paulista de 2017.

Debaixo de chuva, a menina mandou a real. "Bom, tô aqui no final do jogo, São Paulo 1×1 Ituano. Gente, jogo horroroso, Bufarini jogou mal, Douglas jogou mal, Rogério Ceni substituiu errado, Thiago Mendes morto, completamente morto, segundo tempo péssimo. Levamos um gol e morremos e a torcida aqui apoiando. Onze mil pessoas que tomaram chuva e viram essa decepção, galera"

Bela tem como seu maior o uruguaio Diego Lugano. A garota já teve o prazer de conhecê-lo pessoalmente: "Não consigo nem explicar com palavras", disse.

Bela ao lado do ídolo, Diego Lugano (Foto: Reprodução)

Além de estar ao lado do jogador que mais admira, Bela entrevistou recentemente o ex-jogador são-paulino Denílson e o ex-treinador Muricy Ramalho. Mostrando toda desenvoltura e conhecimento durante o bate-papo, Bela ganhou elogios do próprio Muricy. "Foi sem edição, ela foi direto. Quando acabou, o Muricy me falou 'meu, eu trabalho a vida toda respondendo perguntas da imprensa, mas sua filha é uma criança e ela tá pronta pra trabalhar com isso'", nos contou Rogério.

Mas se engana quem pensa que ela deseja trabalhar futuramente com jornalismo ou algo ligado ao futebol. "Quero ser neurologista ou cirurgiã geral", revelou Bela.

Segundo a garota, o público que acompanha sua página é bem variado. "Homens, mulheres, adultos, jovens e até crianças", conta. E quando perguntada sobre qual dica ela daria para meninas que querem falar de futebol na internet, Bela mostra mais uma vez toda a sua personalidade.

"No mundo que vivemos hoje em dia é cada vez mais difícil mulheres se expressarem, mas futebol é um assunto muito divertido portanto devemos invadir as redes sociais com nossos conhecimentos futebolísticos. Não é difícil (acompanhar futebol), devemos gostar, assistir os jogos, entender bem as regras. Basta querer"

Sobre as autoras

Renata Mendonça é jornalista, são-paulina, e apaixonada por esporte desde que se conhece por gente. Foi em um ~dibre desses da vida que conseguiu unir trabalho e paixão sendo jornalista esportiva. Hoje, sua luta é para que mais mulheres consigam ocupar esse espaço. Angélica Souza é publicitária, de bem com a vida e tem um senso de humor que, na maioria das vezes, faz as pessoas rirem. Alucinada por futebol - daquelas que não pode ver uma bola que já sai chutando - sabe da importância e responsabilidade de ser uma mulher com essa paixão. Nas costas, gosta da 10, e no peito, o coração é verde e branco e bate lá na Turiassú. Roberta Nina é aquariana por essência, são-paulina por escolha e jornalista de formação. Tem por vocação dar voz às mulheres no esporte.

Sobre o blog

Futebol não é coisa de mulher. Rugby? Vocês não têm força para jogar... Lugar de mulher é na cozinha, não no campo, na quadra, na arquibancada. Já ouviu isso muitas vezes, né?! Mas o ~dibradoras surgiu para provar justamente o contrário. Mulher pode gostar, entender e praticar o esporte que quiser. E quem achar que não, a gente ~dibra ;)

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